Carta

 



Olá! Tudo bem com você?

Eu espero que sim! Nesse momento eu a imagino lendo, e sinto, sei que está com os olhos concentrados, e a face de sempre: sempre bela ... Eu peço que tenha um pouco de paciência comigo, ok? Isso está sendo postado após tê-la visto, depois de longos meses; eu não sei de antemão como terá sido a noite, mas se da última vez, houve desconforto, dessa, espero que a sensação seja de acolhimento.


   Bom, pra variar não sei exatamente por onde começar... Eu peço desculpas caso algo que tenha escrito ou falado a tenha machucado; não foi minha intenção de forma alguma. Mesmo. Mesmo nas reflexões mais sombrias que a incluíam, e feliz ou infelizmente, promovi algumas reflexões não muito positivas, fosse aqui, fosse em outros lugares, mas repito: jamais quis a ferir, eu só 'stava pensando. E isso, acredito que sairá um tanto longo, talvez mais que as 04 páginas de sua carta, e sei, agora é tarde e não temos mais laço, mas espero que alguma dentre as reflexões e esclarecimentos daqui limpem um pouco do ressentimento. Hoje terei-a visto, e talvez tudo esteja diferente: eu imagino que posso sair de nosso encontro preso, conciliado, espancado, talvez nos entendamos, talvez nós fingiremos um para o outro que não existimos, talvez coisas boas aconteçam, talvez terríveis, talvez não aconteça nada. Mas esses são meus sentimentos e espero que algumas feridas sejam fechadas. Eu mereço isso, você merece, nós merecemos.


... Eu sei que as coisas não estão favoráveis: você tem se divertido certamente, tem uma pessoa com energia muito jovem, e que se enturma, deve se reunir com os amigos e nesses fragmentos de pequenas brincadeiras e comemorações, a dinâmica de sua vida está diferente. Eu sei disso. Eu fui um amor de verão, literal e metaforicamente: algo surgido após todo o tempo que permaneceu na relação anterior; nesse hiato, e ao me ver, deve ter sentido algum acolhimento ou aventura, algo com algum sentido além do superficial, e isso tornou possível nosso encontro. No entanto, como várias vezes já disse, e é verdade: eu não estava pronto, e também tem-me sido muito doloroso todo esse processo de afastamento. Eu 'stou muito machucado. Sei que você também teve feridas, mas não foi minha intenção cometê-las, e acredito que caso ainda hajam coisas, elas estão submersas em sua psiquê, e o dia-a-dia ordinário as deixa, cada hora que passa, mais no fundo.

  

   Atualmente, me parece que as pessoas que compõe seu grupo têm certo grau de harmonia, e há um entrosamento no brincar que eu não ofereço; meu encaixe é meio diferente, e talvez você tenha reparado que não faço questão dos grupos; eu vou, me divirto, converso, é legal, mas não faço questão - na verdade durante todo nosso intervalo de vida, apenas deixei que você me levasse e guiasse. Me arrependo disso. E talvez as pessoas de seu entorno atual, sejam meu oposto nesse sentido, no de agremiar-se, e isso pra você, deve contar.


   Eu sei que agora as coisas não andam boas pra mim, e isso em vários sentidos: aquela relação acabou, e tenho certeza de que você é uma pessoa diferente agora. Creio que eu também, mas o fluxo da vida caso as coisas tivessem sido diferentes, como seria? Você estava na minha frente o tempo todo, porém, não a enxerguei. Como póde? ... Com efeito, tudo está mais bonito agora, após esse pequeno inferno, mas também tudo está mais frágil e um tanto sombrio aparentemente.


   Sabe, eu ainda ouço o áudio da cartomante, dizendo que a chave de meu coração era difícil de se conseguir e que a carta associada a mim era a serpente - traição. Ouço ela mesmo não tendo mais esse áudio, frase a frase. Parece um filme na minha cabeça. Eu não sabia que no baralho cigano era assim: eu conhecia no esoterismo a serpente como símbolo de cura, sabedoria, não de traição e de fato, houve isso de minha parte para com você. Eu lamento, mas peço que entenda que eu era muito ruim com essas coisas: não nos é ensinado a cuidar do outro - nós aprendemos matemática, aprendemos que temos que chegar cedo para o Mercado de trabalho, aprendemos como conjugar verbos, mas não aprendemos sobre como tocar o coração do outro, como fazer pontes. Se você erra uma lição de matemática, a professora te repassa, você refaz e está tudo certo; você como quase professora sabe disso, ao passo que se erramos com quem amamos, as conseqüências são muito severas, as vezes, duras demais, e eu não entendo bem isso; não há uma reparação, e o aprendizado fica para aplicar a outra pessoa. Eu não entendo isso, me soa cruel. Se você aprendeu e entendeu a lição, não faria sentido você aplicar com a pessoa com a qual aprendeu? Porque por exemplo, se sou fiel com a próxima, mas carrego você em meu coração, não é traição mesmo assim? Se assim o for, continuarei sendo um traidor, melhor nos modos, verdade, mas meu coração não terá nenhuma fidelidade com a outra pessoa, porque quem está nele é você. Eu não entendo isso. Agi como criança, e muitos agem, não tendo comprometimento, não prestando atenção e ainda com a coordenação motora trêmula para cortar coisas - já viu uma criança cortar com tesoura? Com os comportamentos e emoções, muitos, eu incluso, eliminam o que deve ser eliminado, da mesma forma: inseguros, falhos, trêmulos. As referências que tivemos no seio familiar, e falo de nós em específico, foram muito ruins para nossa construção afetiva, e nos deixou "duros" em vários aspectos: o fato de que uma das ferramentas de diálogo que mais usa, mesmo brincando e sem querer nem perceber, é a ameaça, e eu, de minha parte, trouxe de meus pais o descaso e em alguma medida, até o deboche: minha sombra não respeitava ameaças, minha mãe debochava da violência de meu pai, mesmo sendo evidente que ela sofreria conseqüências terríveis; ela sempre desafiava ameaças. Eu acho que em algum lugar, quando você me ameaçava, dizendo coisas tristes que me aconteceriam caso eu pisasse na bola com você, essa minha engrenagem começava a girar e eu a desafiava, mesmo sem querer, mesmo de forma dissimulada. Ela tira sarro dessa ferramenta, apreende isso com certo sarcasmo - e talvez daí, desse monstro disfarçado é que tenha vindo meu comportamento pouco respeitoso com você. Mas eu não sabia disso. E eu sei que você só falava o que falava porque era o que conseguia fazer, e na época, você me queria bem, coisa que hoje talvez não, ou me queira apenas bem longe e sem amor. Mas veja, eu entendo que eu não agi por mal, espero e peço que compreenda isso. E você também. Tenho certeza que mesmo as coisas mais duras ditas, não foram por perversidade, eram o que sabíamos falar. Está tudo bem.


   Só houve tanto ressentimento, porquê, entre outras razões, fomos inseguros, e eu não entendia o significado de se comprometer; de discussões e clima, havia medo, fosse de traição, fosse de abandono, sempre disfarçado, e é complicado pro amor crescer num lugar com medo. E eu não a protegi, no sentido afetivo mesmo. No entanto, eu não sabia operar isso na época, ainda agora talvez não saiba.


   Mas não é apenas o acaso e as coisas boas que unem: semelhante, atrai semelhante. Eu era, apesar de tudo um cara mesmo não tendo lá muita ciência disso, bem inseguro, por exemplo, e sim, você também o era. Por eu ter a sombra do deboche e você a da autoridade, enxergamo-nos como um desafio um para o outro: nós construímos as fundações sem verificar as fossas, e deu no que deu. E se soubéssemos? De minha parte, pra mim você tem um coração muito bonito; creio que me interessaria mesmo assim, e odeio ter que admitir, mas acho que aconteceu o que tinha que acontecer, talvez, pra que eu acordasse. Voltando: defeitos também unem, aliás, unem mais até do que qualidades. Em meu relacionamento mais longo, tanto ela quanto eu, éramos um pouco arrogantes sobre nosso intelecto, e éramos carentes, e isso se aplica a muitas uniões: semelhante atrai semelhante. É bom prestar atenção nas sombras. E eu cometi muitas faltas porque não conseguia organizar e separar o que era supérfluo, do que é afeto, do que é ofensa, do que é tolerância... As caixas de minha alma que separam as categorias das coisas estavam lasceradas; você me conheceu numa fase muito cansada e perdida, apesar de meu aspecto de criança que reclama das coisas. E irei repetir, porque acho que isso é importante:


Quando nos conhecemos, você vinha de uma longa estada, e apesar de toda esperança e expectativa para comigo e com aquela relação que era nova, você estava com seu espírito cansado. Eu servi como um "tampão" entre suas perguntas sobre afeto e seu relacionamento anterior. Mas eu não era bom, no sentido de que eu não estava no ponto de segurança do qual você sentia necessidade. E você, no fundo, sabia disso. E eu, eu também estava cansado. Eu vinha de um labirinto de pessoas e esperanças frustradas, eu também estava carregando muito peso, mas sem orgulho nenhum disso. Eu apenas fui levando, e você tolerando. Os dois estavam um pouco "fora de forma", você não acha? ... Mas sabe, dói tanto não te abraçar mais, não te ouvir, não te ver...


...Não sei se somos semelhantes hoje: você me parece agora, um tanto "dura", com emoções em seu estado mais próximo do sólido; eu tenho meu coração como uma casa agora, no entanto, se meu corpo fosse como minhas emoções e alma, você veria um rapaz todo machucado e cheio de sangue e cortes profundos na pele. Mas eu sou forte, talvez o cara mais resistente que já conheceu. Eu suporto e levanto esse peso - é meu halterofilismo espiritual. Sobre a "chave do coração", creio que não permiti que alguém tivesse acesso; depois dos 15 anos, com exceção de meu relacionamento mais longo, ninguém a quem entreguei isso, ficou. Então por certo lado foi necessário tratar isso, hora de forma dissimulada, hora de forma reclusa. Quando tinha os tais 15 anos, uma pessoa da qual gostava muito, e que estávamos ficando, ficou com um conhecido na minha casa. Mas eu não fiquei revoltado nem nada assim. Tempos depois, sozinho, uma outra garota da turma pediu pra ficar comigo e bom, pensei, "vamos lá". A que me "traiu" (a rigor não era um namoro, mas na mente de um jovem não funciona assim), foi em casa num fim de tarde tomar café e tals; ainda éramos amigos, e as pessoas passavam em casa quase todo dia, dentre os amigos que tinha. No sofá ela me pediu um beijo; na época eu era uma pessoa mais decente, e disse "não, não posso, 'stou com a ..."; eu adorava ela, estar com ela era o que mais queria, mas não considerei certo; ela foi embora, triste, alguns minutos após, e bom... Três dias depois a ... disse que não queria mais. Pra quê serviu minha fidelidade? A pessoa que me teve, traiu, a outra, que permiti, foi embora. Eu não entendo bem isso, mas acredito que a partir daí e de outras situações nas quais entreguei meu coração e sempre saíam de forma grosseira, me tornei o cara que você conheceu, que não assume coisas. Se eu assumir, você vai embora, algo sussurrava isso dentro de mim, e veja: desde que assumimos publicamente um ao outro, até sua partida, foram apenas 06 meses. Te "enrolando", eu a tive ao meu lado por quase três vezes isso. E eu adorei estar ao seu lado.


...Nós contamos nossas histórias tristes no final, mas elas deveriam ter sido contadas no começo, as histórias que explicam o comportamento padrão de nosso agir afetivo. Suas fugas, meu descompromisso. Eu lembro quando me confrontou dizendo que não queria mais ser abusada emocionalmente: Você me viu sentado como um covarde no chão do metrô, com medo de te assumir. Eu fui traído e traí, fui ferido e feri. No dia, eu 'stava com vergonha porque ao mesmo tempo que você, havia uma outra pessoa da qual eu não havia me desvencilhado no mesmo rolê. Eu sabia que você era uma pessoa especial, mas não queria dar o braço a torcer, e eu lembrava das histórias que a outra havia me contado sobre seus traumas, e não queria ferir mais. Se tivesse sido Homem, na mesma semana, antes desse dia, afinal já estávamos saindo a sério, teria que ter posto um ponto. Mas não o fiz, eu era alguém que raramente se antecipava sobra as coisas, e isso ajudou a cavar a distância entre nós dois - sempre atrasado, em cima da hora, precisando de socorro. Entre outras mancadas que cometi. Eu sei, cansa, eu também 'stou cansado, muito cansado, por sinal, pior ainda agora, sem você; voltando: eu fugi da situação e a feri no final das contas. Você estava muito muito bonita naquela noite, acho que eu nunca a disse isso. Com 15 anos eu nunca achei que faria uma coisa dessas. Eu desaprendi como me conectar, fiquei pulando de coração em coração, até cair de mal jeito no seu. Mas eu aprendi. No entanto, pra quê esse aprendizado, se não posso corrigir com você? ... Gosto de pensar que eu era uma serpente, como o baralho disse; mas e agora? Será que me tornei um animal diferente? ... Eu relutei pra que você tivesse minha chave, tanto da vida real, a qual demorei meses pra entregar, por displicência, quanto do coração, chave essa que só foi entregue nos tempos finais daquela relação. Uma vez entregue, a história se repetiu: você foi embora. Gostei da sua pessoa, gosto de você, embora pareça que isso não é nada recíproco - talvez você tenha até mesmo aversão a mim. Infelizmente é comum mulheres criarem aversão, acho que é uma das ferramentas de proteção de vocês.


   Cerca de um mês atrás, revi uma cliente de 2018/19; insinuava algo pra ela nesse período, mas nunca aconteceu. Perguntas sobre a vida, as coisas (temos idades parecidas), e ao falar de relacionamentos, entrou no "e aí, casou?". Rememorei a época, e ela disse "você estava apaixonado"[2019], "quê?!... Eu era cachorro, saía com ela e mais algumas", "mas você estava, dava pra notar". Na época, eu pra mim mesmo, não me considerava assim, aliás, nunca considerei durante um bom tempo, exceto quando eu parava pra olhar seu rosto com você dormindo, ou abraçada em um gato ou urso. Mas a cliente que me via na época disse que percebia isso. E quando revi seu sorriso pela última vez, a alguns meses, realmente: mas eu achava duro admitir isso. Eu não consigo não olhar pra você. Quando você fala que ama, ou assume de verdade, as pessoas vão embora, e eu queria que você ficasse. Por isso eu nunca disse "te amo", salvo no fim, com desespero: porque eu achava que se eu dissesse, se eu me entregasse por "inteiro", você não iria ficar, e eu tinha medo de que você fosse. Eu estava tão quebrado a ponto de não conseguir notar essas coisas, e pior, tratá-las como algo corriqueiro.

... Eu acho que no nosso primeiro diálogo presencial sério, todos esses traumas deveriam ter sido expostos, especialmente aqueles que contamos um para o outro nos últimos dias. Eu não tinha a intenção de machucar, menosprezar, nada assim, eu só era um sujeito meio burro no que diz respeito aos afetos e cuidados com quem se ama, talvez ainda seja, e essa carta ao invés de curar seu coração, a deixe mais "p" da vida, talvez. Mas é meu esforço, é honesto, é de coração: você vale muito, e eu também, embora eu viva jogando lama em cima de mim mesmo. E eu gostei muito de ter estado ao seu lado. E pra mim, você não precisa fazer nada ou deixar de fazer: pra mim seu valor é intrínseco, e te machucar foi me machucar, mas não notei.


   Talvez isso seja só uma ilusão, e você está super bem e arrependida de ter partilhado dias comigo. Eu não sei o que fazer caso seja esse o ponto, só espero que entenda, e que lá na frente, sua trajetória comigo, lhe ajude em algo e que você tenha alguma gratidão, porque os meus sentimentos são sinceros. Porém tenho certeza de que somos pessoas diferentes após tudo isso, e creio que ao menos pra mim, isso é bom, e espero o mesmo pra você.


   Talvez daqui a alguns anos, a gente se encontre e fique tudo bem; certa vez uma pessoa me disse "as pedras se encontram", (no entanto, nunca mais vi essa pessoa).

   Pode ser uma ilusão, pode ser contra o fluxo da vida, pode ser minha própria prisão, morte emocional, descida pra loucura, pode ser que você não tenha nenhum perdão ou admiração acerca de mim, mas se o oceano da vida pode deixar pedras juntas, eu quero a reencontrar; ...Em outro lugar, energia, estação. Somos belos, temos raízes profundas; talvez não sejamos a combinação mais divertida ou leve, mas certamente, a mais profunda, a mais preenchida de significados e beleza. Eu sou forte, você tem pensamento claro. Meu desejo é algum dia a reencontrar na orla, e permanecer ao seu lado, vendo o oceano, até o dia no qual eu me torne areia.


   Me perdoe pelos ressentimentos. Não foi nada de propósito, foi tudo de mal jeito, e lamento profundamente por isso. Eu não sabia mais como cuidar de alguém que se ama, talvez nunca tenha sabido, mas nós nos encontramos numa época na qual eu estava muito zoado da mente. Quando te contei "A Metamorfose" do Kafka, você disse que eu era o rapaz-inseto, e eu discordei. Esse livro é tão importante pra mim, acho que você foi boa na interpretação do que contei: eu estava no meu estado de inseto; queria tê-la encontrado como humano, Homem e a segurado forte em meus braços. Perdoe as falhas. Sem ressentimentos?   


Eu a amo muito


 Com afeto.



[04/07/2022]

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