Anti-heroísmo/ponte para ausência
Viver e estar vivo são coisas diferentes - uma coisa é "aproveitar" a existência, sendo otimista ou ao menos tentando sê-lo, de forma brilhante de certa forma, sem apatia; a outra coisa é estar apenas respirando, passando pelos dias de forma apática e angustiada. Ok, já usei esse prelúdio em outro texto, mas repito. Usando as referências de animes e histórias em quadrinhos japonesas, a título de exemplo, você está vivo quando tenta bancar o Naruto Uzumaki e semi-morto quando faz papel de Shinji Ikari (Neon Genesis Evangelion). São histórias bem diferentes, Naruto é um típico herói, Shinji é um anti-herói, talvez o mais "anti", dentre os que conheço; mas mesmo as coisas mais diferentes guardam similaridades, essas porém, não colocarei nesse texto, até porque posso estar equivocado sobre suas proximidades.
Ainda tenho alguma dificuldade em acreditar na rede "positiva", que vejo nos posts de redes sociais (ainda que compartilhe alguns, admito), nos discurso de amigos e conhecidos, nos livros de auto-ajuda. Talvez por isso não consiga certas coisas e objetivos; cogito, mas acho tão estranho ver essa "positividade" toda. Não acho que se divida as coisas entre alegria vs. tristeza - roubando uma das frases de um blogueiro que li, "nada é menos maniqueísta que sentimentos".
Numa tentativa de ver as conexões, ver como os laços entre as pessoas se ligam, tento observar, deixando o tanto quanto consigo, meus sentimentos de lado: quando pequeno, em muito inspirado pelo tanto de filmes de indígenas que meu pai assistia, e pela carta do Chefe Seattle, e depois, mais velho, pelas mitologias das Nornas; fico pensando, e penso ainda, e acho engraçado como os "fios" se cruzam, num acaso inocente aqui e ali. Alguns desfiam, passam em paralelo, mas todos fazem parte da mesma coisa, ainda que essa coisa seja apenas a minha percepção. Minha (ex)Companheira disse que "não há mais um laço"; eu discordo: esse fio está tão ou mais paralelo quanto antes; eu olho pro vazio, penso em quando perdi as palavras, perdi a mim; não, não é culpa do Ego; nós somos criaturas engraçadas: se acontece algo maravilhoso, o responsável é "você", se algo terrível acontece, é o "ego". Todos são você, mas estar "íntegro" faz toda diferença. Eu acho que ela gosta de meu sofrimento: lembro quando mostrou o clip da Lily Allen, "Smile": a garota é traída, e não faz nada aparentemente, mas destrói o cara em todas instâncias possíveis: da física até a profissional. Isso é perverso, mas é diferente da perversão do Instinto. Teria sido melhor matar o cara, isso não é forma de resolver. Uma coisa é errar por ser emocionalmente "burro", não saber admitir ou assumir coisas, outra é fazer por algum motivo que lhe pareça justo, coerente, e nisso empregar todas estratégias e argumentos pra se provar correto, ainda que pra si. Mas qual é o limite? Machucar?
Os dias têm se passado muito rapidamente - me parecem voar; eu já tive essa sensação antes, mas não recordo exatamente quando foi. A casa só conta comigo, as dívidas vão sendo pagas aos poucos, mês a mês; ultimamente tenho me sentido mais fraco que o normal. Não me sinto mais pronto, mas também não me sinto mais um traidor. Pessoas batem à minha porta, pedem um tanto de calor ou afeto - na realidade, não sei muito bem o que elas querem de mim: "não tenha medo" uma delas me disse. Eu 'stou um pouco confuso - faltam poucos meses para que o ano se encerre; ainda devo dinheiro a alguns bancos, e a Ela; ainda devo minha voz para as aulas de música e meus dedos para meu teclado. Há alguns momentos nos quais não tenho conseguido correr, nem levantar, nem cantar; me torno um "Songless Bird". Eu sento num café de manhã, sem estar com ela do outro lado da tela - a manhã é bonita, meu bairro tem muitos pássaros lindos e árvores; meu corpo se comporta como uma viagem triste e um anseio por vê-la.
Minha mente falha no conforto, meus olhos a vêem sentada em minha frente, mesmo não estando aqui; de alguma forma, 'stou preso num tempo próprio. Faz quase dois anos que não caminho pela Giovanni Gronchi, mas sinto a temperatura daquelas noites, e lembro de como me sentia quando as mensagens de texto dela vinham até mim, num diálogo esparso, mas prazeroso. Eu lembro de ser capaz de andar bastante. O que houve? Me parece tão rápido tudo quando ponho o tempo na balança; quando foi que minha apreciação se tornou desconforto? Quando que tudo ficou na distância de uma estrada que atravessa um oceano?
Eu lembro de deixar o dia passar por estar com o peso de sentimentos enormes e surdos em cima de mim na cama, como uma rocha sepultando Lázaro; mas a fase 2019~2020 não teve muito disso, na verdade teve muito pouco disso. Era outra coisa. Preguiça? Eu 'stava acomodado? O que houve com o cara que andava vários quilômetros ao dia e estudava música? Onde eu o coloquei?
Shinji por vezes se sentia incapaz de pilotar sua nave; ele demorou muito a entender o significado de "dignidade", e durante isso, muita gente correu risco. Naruto por outro lado, nunca se preocupou com isso, é um arquétipo prático demais pra conseguir fazer qualquer reflexão, e ironicamente, talvez por conta disso, tenha esses valores, sem se questionar sobre eles. Isso me deixa um tanto confuso, pois vejo respaldo disso na realidade.
Eu lembro do relato do sonho de uma ex, no qual ela descrevia uma escada sem fim, em espiral se não me engano, e ela ia percorrendo ela, sem nunca chegar a algum lugar que não fosse mais degraus. Hoje ao lembrar disso, me vem a imagem de um ratinho numa roda, um tipo de esforço que é quase infértil, caso a finalidade seja ir até algum objetivo ou parada.
Toda vez que dizem que o importante é o "aprendizado", tenho uma profunda vontade de ter uma arma e dar um tiro na pessoa que me falou isso: as coisas têm custos, e infelizmente, se você é um perfeito idiota, quem acaba pagando a conta são outras pessoas, e você sequer repara. Eu aceitaria tal explicação se assim como numa lição de verdade, você conseguisse executar a tarefa, ou pegar um exercício que errou e o fazer com excelência; mas não é isso que ocorre. Nos Erros da vida, tal qual vemos acontecer com Shinji, o que se vai é sanidade, e quando você "aprende", às vezes seu aprendizado não servirá pra absolutamente nada na situação na qual se encontra. Dá pra perceber que não é a mesma coisa? ... Se você está num jogo de videogame, ou na escola, existem chances se não infinitas, quase infinitas de se errar e refazer. Aprendizado é isso, você observa, corrige e replica. Na vida não é a mesma coisa. Uma falha pode ter conseqüências que você não previu, logo o aprendizado (se é que o termo é esse), pode ficar comprometido ou inviável. O homem que reage a um assalto pode não conseguir mais replicar aprendizado algum. Quem vai para uma guerra, pode ter seu senso social comprometido indefinidamente. Esses exemplos fáceis sobre aprendizado, não são a mesma coisa que a vida.
Talvez eu esteja na escadaria do sonho, sem conseguir ver início ou fim. Minhas pernas estão a ficar fortalecidas com todos esses passos, mas de que adianta isso? Para quê serve essa força?

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