M. M. Santana
Meu pai, autor de hinos cristãos, péssimo marido, violento, porém usado pela Deidade; louco (ou seriam espíritos?); Não era/é mal, mas era/é mal; uma força da natureza, como uma tempestade de verão, destrutivo, porém, em algum lugar, cheio de luz.
"Jovem, eu te amo
Eu preciso de ti
Jovem, segue avante
Tal dom recebeste de Mim
Vejo o teu caminhar
Teu olhar
Teu viver
E o teu implorar
Contigo estou
E sempre estarei
Contigo estou
Sou Deus de amor
... Eu sou o Senhor"
Várias foram as noites tranqüilas nas quais dormi embalado por essa melodia e várias outras, mesmo quando tempos depois já não me considerava cristão; sua voz iluminava o quarto, assim como uma lâmpada amarela ilumina uma praça erma, num calor suave e antigo, como um tempo não vivido; lembro de minha mãe próxima a você, hipnotizada pelo arpejo que seus dedos executavam com beleza e destreza; lembro de algo como "não gosto de usar palheta, porque isso seria algo entre o instrumento e você", provavelmente também porque gostava do Mark Knopfler. Lembro da violência, da doçura, de como era infantil, das repetições, da fragilidade e das armas. É interessante ver como assim como você, eu 'stou me corroendo de dor por meus erros, de certa forma, eu o repito - embora, você tenha tido treze anos pra se modificar, enquanto eu, muito menos. Mas o entendo. Se minha natureza fosse mais selvagem, assim como a sua, poderia estar mais longe, poderia ser uma potência... Tenho sua lembrança complexa para destrinchar. As lágrimas derramadas da última vez na qual o vi, tentativa de o achar, os sentimentos honestos, confusos e doloridos de seis anos atrás. Espero que esteja bem, aonde quer que esteja, pai.

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