"Que Venha a Tempestade"
Título original do Livro: "Let it Come Down"
de Paul Bowles
Nelson Dyar: Sentou-se do lado de fora da casa na qual
assassinou seu colega, sob efeito de drogas. Ficou esperando o desfecho de seu
destino, como um grão de areia espera que a brisa o empurre; Dyar pra mim, na
narrativa úmida e quente de Paul Bolwes, é algo quase imaterial, como uma das
personagens descreve-o numa das partes livro.
Paguei apenas R$02,00 por ele, numa máquina do metrô, lá na Vila Mariana se não me engano, e
isso em 2013, meses após o rompimento de uma relação, mas que achava que não
era tanto, que não era um rompimento. O "enrolar" da personagem principal, me fez estender algumas sensações e expectativas. O título “Que Venha a Tempestade”, me deu
a impressão de algo solene, e imaginei-me parado como uma estátua, tomando uma
chuva mais que torrencial, enquanto minha cabeça emulava os possíveis sentimentos
que minha (não mais) companheira estaria tendo naqueles mesmos momentos. A leitura,
concluí nesse ano, 2015, e em certo aspecto o título faz jus à obra, visto que
parece que o que Dyar quer é uma tempestade, algo que aparentemente, talvez por ser um estrangeiro (ou intruso?), não faz parte do panteão de sua construção pessoal - é um evento "estranho" a ele, de certa forma, como toda a cidade de Tânger.
Parei pra pensar
que podia ser, valendo-se do ditado popular, que ele acaba numa tempestade pelo
fato de ter semeado “vento”, mas não é isso: acho-o mais uma das várias
personagens que nosso querido século XX deixou, que caem nas situações sem
terem um pingo de noção do que se passa ao redor, seja em filmes, jogos e literatura. É como uma afirmação de
que a estratégia sucumbiu ante a sobrevivência, pois seja nesse livro ou em
outros lugares de alguns protagonistas, o que há de comum é que parece que elas nunca
têm um plano que vai além do sobreviver/escapar/fugir. Como elas não tem uma
organização para temporalizar alguma estratégia de vida para além dessa
cortina, o caos externo amplia o interno, e seja nesse ou em outro livro, o que ocorre é que a personagem vive pra sempre um momento
único e cíclico, sempre o mesmo dia, ou uma sequência, como numa imitação corrompida dos ciclos cotidianos. Acaba sendo uma tentativa falha de “fechar
o círculo”, o espetáculo, mas pulando a catarse.
Achei Dyar um pouco maléfico ás vezes, mas ao mesmo tempo
não; ele é algo neutro: se tivesse que escolher um exemplo de personagem neutro, Nelson Dyar seria minha provável escolha ou a primeira que me vem a mente: ele é vago, mas vago aqui não é negativo ou pejorativo. Numa terra estranha, era completamente estrangeiro, mas
foi mais cretino que filósofo, e isso selou seu caminho, que se tornou
relativamente breve, pelo fato de ser feito de soluções que se consumiram
rapidamente, como uma fogueira que
usa palha ao invés de madeira.
...Dyar ao que tudo indica, morreu de frio quando
toda a palha que incendiou seus últimos dias cessou de crepitar.
PS: indico a leitura da resenha da obra: http://rascunho.gazetadopovo.com.br/assombroso-abandono/

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