é sobre diálogo, sobre perda (pra variar), sobre penas e crimes,

sobre culpas. As penas talvez de uma ave, talvez de um ornitorrinco,

e o diálogo poderia ser triálogo, tetrálogo, monólogo, fosse com outras

pessoas, fosse com as ideias que existem dentro e fora de mim.



é sobre uma coisa chamada "consciência", e por ela e através dela

que divago e me perco - com ela, a partir dela, para ir até ela, passo

por diversas salas: as memórias que acho que me pertencem, os gostos

que acho que representam aquilo que sou, paixões e decepções que acredito

dizerem algo sobre "minha 'construção'". Crença é outro ponto também, importantíssimo por sinal. Acho que é mais fácil perdoar quem lhe assassina o irmão, do que aquele que lhe assassina uma crença - e hoje, com o punhado de conhecimento que tenho (que sei que não é nada), acho que seres humanos são basicamente "crenças" revestidas; há algum ponto entre crença e consciência, não sei exatamente onde começa um onde termina outro, ou onde se confluem, mas acho que talvez mais as crenças que a consciência é o que nos diferencia dos demais seres na face desse planeta.



Não sei exatamente a quanto tempo, falo do tal do "desaparecimento", da extinção, do escato (indiretamente); bem, essa é uma crença de certa forma, apesar de ser um fato também, mas como não pode deixar de ser, creio nela com certa firmeza.



Esses dias estava pensando em como eu pensava em meu desaparecimento, em minha morte, quando tinha lá meus 08, 10 anos. Na época, era evangélico, e ouvia uns discos do Feliciano Amaral que pertenciam ao meu pai - até hoje acho muitas das canções dele de uma beleza meio indescritível, algo desértico; algumas um pouco exageradas (quem sou eu pra reclamar, rs), mas hoje tento remontar como me sentia sobre minha morte naquela época, tendo as canções dele como fundo.



Diversas vezes paro e penso "caralho! Vou morrer! Uma hora e isso aqui acaba!". Não é brincadeira, essas questões pesam; ter ciência de que uma hora essa coisa que se chama você (sairá de cena) é um pouco conflitante e geradora de tormentos, até porque acho que quase todo mundo age a maior parte do tempo como se fosse "infinito" e peça central no mundo de alguma forma; até pouco tempo atrás,  cerca de três anos, quando pensava em uma questão desse tipo, não tinha uma noção VERDADEIRA de sua densidade, não sentia a questão a me pertubar de verdade com suas fagulhas nas narinas da minha percepção - 
 

"Morrerei"."E daí?". ..."E daí?"... . Parece um pouco abstrato, "como assim isso aqui acaba? Não entendi direito!", pois bem, continuo sem entender: é então nesse tipo de momento que tento me lembrar de como abordava  isso quando criança. Lembro que me parecia algo bem distante e sem peso, bem natural, mas hoje, por mais natural que seja, não é "natural". Não é e não pode ser. Pra mim, tudo se encerrava num silêncio e escuridão calmos, como o fim de um LP ou os créditos de um filme, ou ainda como a sequencia de um seriado, como se a vida fosse a Califórnia, mas aí fiquei fodido de grana e tive que me mudar para uma cidade diferente, então, sentindo a vida dessa forma, ela não acabaria de verdade. No entanto é impossível ter certeza de qualquer coisa: certeza, fé, conhecimento, qualquer "base" é muito frágil, muito frágil mesmo: parar para pensar um pouco nas fraquezas de qualquer crença e o resultado não será um simples cogitar d'um outro viés: pelo contrário pode ser uma erosão total e devastadora, desde que você tente ser extremamente honesto consigo mesmo.



Como algo que não tem uma durabilidade de fato razoável pode ser tão importante? Pode parecer esquisito, mas não entendo direito: árvores podem ficar mais de centenas de anos vivas, e ainda (sin) em relação a escalas maiores de "tempo", não é muito, como se comparadas ao tempo de existência de minerais e estrelas, por exemplo. Não chegamos a ter tanto "tempo" quanto uma árvore.



Lênin não viveu tempo o sulficiente pra ver o que aconteceria na URSS ou para ver o fim de Trotsky; Freud não viu Lacan. Orwell, o que ele teria achado do ano de 1984? Todas essas pessoas e situações ligadas de forma tão interessante entre elas e as primeiras desconhecem o que seus desdobramentos geraram nas segundas. Consigo acompanhar, graças em parte a tecnologia moderna, o que há de consequência de minhas escolhas no outro, dentro de um certo limite, mas é quase impossível saber se por exemplo aquela garota que curtia aos 14 anos tem uma impressão especial sobre mim. Os elos também são finos e frágeis e ainda não entendi o que importa essa coisa de existir, coisa essa que tem a aparência similar a um jogo. Pra que existir se não tenho condições de permanecer parte significativa de tempo vivo? Não é necessário ser matemático ou biólogo para saber que mesmo o ser vivo mais longevo permanecerá e muito, mais tempo inerte/morto do que respirando. Minha consciência infantil tentava procurar algum indício de consciência pré-física, mas sem muito sucesso.



E depois? Quando não houver mulher, homem, nada, apenas um balido monótono de nossas vozes no plano vazio do espaço próximo? O que acontecerá com as "almas" se é que existem, ou com as consciências? "Deus" fará algo? Nós faremos? Acho que a extinção em massa é a coisa mais interessante que pode nos ocorrer, e aí talvez, meus pesadelos façam sentido, no meio do vazio não estancado. 



"SoundTrack": "Condenação"

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