“Quando morreu a avó do Paço o pai chorou, o que nunca tinha feito. Lourença ficou um bocado assustada. Tinha vergonha, não sentia nada. Até achava que o pai exagerava. A avó era tão velha e mirrada (...), queria fazer alguma coisa (...), mas não sabia o quê. (...) Lourença entendia: era como ir ao teatro, e quem está de luto não vai ao teatro.”
De “Vento, areia e amoras bravas”, Agustina Bessa-Luís


À noite, depois que o Sol se vai, a ausência se desenha com mais clareza e fica mais nítida; nesses tempos de dilúvio invertido, é a esperança de desejos realizados que, tomando o aspecto de miragem, tornam-se turvos no horizonte. O terror sai de seu trono para dar lugar a outros semideuses e semideusas, como a revolta abafada, a covardia, a apatia, o tédio...; Este último cozinha miolos; o ar parece denso e pouco movimentado, o tempo se estica até as costas se curvarem sob seu peso.

Há um movimento sorumbático de pessoas – irrito-me com muito, profundamente, mas que direito tenho de reclamar? Não posso fazer minha vontade prevalecer: pessoas falam, caminham e fazem o que bem entenderem; não são propriedades - então sob a égide do argumento, arrefeço a irritação: esta recolhe seus tentáculos e desloca-se para o abissal, fazer companhia a outros monstros, ao lado do trono anteriormente citado.

Então de noite, nos momentos desprezados que antecedem o sono, recortes dos mais diversos saem para fazer visitas: lembrança de ausência, lembrança de vazio, lembrança de lembrança; se embaralham e misturam datas e lugares e pessoas; lembrança de saudade, possibilidade, dias, noites, fatos, ficções; um caleidoscópio de coisas. O passado pode não definir o que uma pessoa é, mas certamente ele engendra a coluna que sustenta o revestimento existencial, os conceitos mais ocultos, podres e impressionantes de uma pessoa. Ele está ali debaixo da armadura, com ele a cena do colega de sala que zombou, da mãe que gritou, da ausência paterna; estão lá, nas rachaduras dos ossos da espinha, mordiscando pedaços da medula macia.

Todos e tudo como num teatro, com papéis, risadas, comoções; vão ao teatro e distraem-se, enquanto trolls devoram suas vidas, enquanto está tempestuoso e frio do lado de fora; dentro do teatro, aquecidos ou pouco aquecidos, comendo a ração do maniqueísmo criado para afastar-se do medo e do que for; a praticidade e sobrevivência combatem o sonho e a luta parece distante; então ao aperceber-se da janela, o tempo torna-se denso de novo: a chance de mudar é suspensa.


Fonte da imagem: http://www.smiledsoul.com/life-mosaic/



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