"Exposição"
Esses dias vi um vídeo seu. Estava usando
batom vermelho, e a filmagem estava levemente superexposta; com isso, você
estava algo distante, destacada do "cenário", que provavelmente era a
laje de sua casa; para mim foi como se não estivesse lá de algum jeito. Bem
branca, com o batom bem vermelho, falando com um leve sorriso - senti-me
assombrado; sua boca me pareceu pequena, mas nas minhas lembranças não o era.
Me pareceu doce, os olhos, levemente cerrados. Não tive coragem de ouvir sua
voz. Assisti com volume zero. Talvez o assombro seja derivado disso.
... Ao contrário do Obvious, não sei o tempo
do amor, se no presente ele ainda é algo principal. Sei de poucas coisas e acho
que levarei para as cinzas essa dúvida. Eu sou sangue, isso é tudo. Encharcado, miséria, culpa - um trauma apenas, ao contrário do que pensei,
dois números negativos não deram positivo, como acreditava que ocorreria.
Talvez da última vez que fui a sua casa, devesse ter descido e comido bolo,
como você sugeriu. Fará um ano isso. Talvez você seja uma artista e eu não: por
debaixo d'arte sublima a dor; em contrapartida, mostro-a. Essas sensações
monstros marinhos - admiro-as; você as deixa lá, repousando sob águas turvas -
Esqueceu talvez de considerar que as "migalhas" poderiam ser
"pontas": havia mais flutuando sob a superfície parca e fria.
Considere hipocrisia se o quiser. Veremos. Talvez esse todo opaco e negativo dê
lugar a um espelho de analogias dentro de você alguma hora. Talvez não. Meu
sonho é ser chamas ante sua presença.
Pode ser que daqui algumas décadas consiga
falar algo a respeito, algo sendo simples, objetivo e concreto, real e honesto.
Mas por hora só sei andar em círculos e doer.
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