Gosto da idéia de que possa-se chegar a algo que se aproxima do "zero", do conceito de zero. Limpar o coração, deixá-lo sem nada, nem mesmo sangue. Essa idéia surgiu, emergiu, em vários filmes, livros, mas nunca as conseqüências últimas, pelo menos não agora por minha memória. Talvez
Wiston de "1984", do Orwell, tenha passado perto, ainda que por meio de forças externas; ou Gregor Samsa. Talvez de fato haja mais exemplos. Tenho pensado muito no termo
pobreza, mas uma pobreza sob o seguinte viés: tudo o que está vivo aqui nesse planeta, interage quimicamente, quando se esgotam as interações, então os elementos estão pobres, simples, exauridos. Não sei se é fácil notar essa ligação esquisita que tramo, mas é o
esgotamento de possibilidades, o consumido até o fim, que é pobre - talvez seja mais fácil "um camelo passar pela agulha que um rico entrar no Reino dos Céus", porque o rico é um sujeito ainda cheio de interações (muitas, direta ou indiretamente fruto de injustiças, mas esse é outro assunto), e algo assim, cheio de reações e dejetos a produzir, pensamentos para engendrar, miasmas para aspergir, não pode entrar num espaço para o simples, para o inerte. Uma pobreza, no sentido cristão da coisa, se faz necessária, ao tentar limpar um coração. É um processo difícil; vejo muita gente, gente que passou por mim, que tem o coração ainda sob essas suspeições. "Será que a amo. Ainda?" ora, faço essa pergunta, "obvious". Sou menos pobre do que gostaria nesse momento, e para confundir a mim, as pessoas, ao meu analista, deixo essa questão em suspenso também.
Mas um passo decisivo para um nível diferente é admitir algumas coisas. "Tamanho", "Merecimento", entre outras coisas, outros conceitos que não existem. É bom ver como algumas pessoas sobrevivem bem, considerando que o mundo é maravilhoso e cheio de coisas ternas, no entanto, cada um tem a "bolha" não que merece, não a que quer, na maioria das vezes, mas sim, aquela mais de acordo com a intrincada relação história pessoal x escolhas x acaso. Suas variáveis não são tão claras. E para "zerar-me", tenho que levar em consideração os sangramentos que podem advir desses cálculos.
Em 1984, a forma de acabar com uma revolução era não a extinção do sujeito que a hasteava, mas sim dela, da própria abstração no imaginário, no plano mental do seu portador. Orwell foi mais eficiente que qualquer vidente: de uma forma simbólica ou não, isso acontece bastante. Hoje acho. No futuro pior talvez. Os que pensam nisso se autoesvaziam. Mas meu coração não está limpo ainda.
P.S.: Portfólio da imagem -
http://inextremiss.deviantart.com/art/the-passenger-419514717
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