A título de enterro, a querer ser despedida, a fracasso já conhecido - vida morna, batendo e debatendo, testemunho outras para comparar-me: a garota performer que se esforça; a outra com quem acho que daria certo caso namorássemos, mas o que me garante que eu não serei uma armadilha para ela?; há a poetisa, a bela, a que me ignora, a que não correspondo... - meus olhos estão turvos, entre eles agora, um semicírculo de metal, como uma incompletude, algo não fechado; não-fechado esse existir, não-fechado esse jogo sofre-não-sofre, cresce-não-cresce; quando penso em dias e mais dias de quase meia-vida, quantos "quases", quanta apatia... é como se meu corpo fosse estrada comprida e sinto a luz de faróis sobre ele, percorrendo alguns quilômetros até sumir em meu íntimo, até que pense que devia mesmo ser um só com esse sumiço, numa luz que se extingue, num laço perpétuo d'algo que imagino escuro, mas que em verdade, não é escuro ou claro ou o que for, pois "não existir", não deve ter adjetivos e descrições existentes associados a ele. Esse estado é único, e não há nada que possa usar para descrevê-lo, exceto meu desejo.

Aqui vem os pensamentos e me confortam, aqui vem as lembranças e me reconfortam; uma esperança minguante e complacência flertando com incompetência (ou seria impotência?). Se desse pra fazer uma "bola de papel" com minha vida e começar de novo, do útero, em 1988, será que  valeria a pena? Manteria signo ou sexo? Poderia ser d'outro, quem sabe, d'outro Estado, d'outra espécie. Viveria até a média humana, desapareceria sem deixar fóssil - essa parte, talvez cumpra, em minha vida vigente.

Acho que me enchi de vazios - o vazio de dias vastos como vales, o vazio de úteros (esses, menos do que gostaria), o vazio do ócio e de pensar no vazio, em como sou feito dele, como o Universo é feito dele. Deixei esse rastro de decepção em várias vidas, em gente bem próxima que talvez amei, em gente que nem tanto assim, com pouco ou nenhum laço. Agora paro pra me olhar de soslaio e pensar no que estou fazendo. De novo. Estou cansando disso. "A título de enterro, preencha-me com terra ou com fogo", dirá meu desejo, dirá um de meus últimos. A título de pensar, falho, a título de melhorar, perco-me. Tenho chego a conclusão de que por alguma razão das poucas coisas das quais faço questão, dentre elas falhar e perder-se estão sempre em voga. Tenho que acabar com isso, e dar um pouco de terra aos pensamentos em decomposição.



Fonte da imagemhttps://www.thewire.co.uk/in-writing/interviews/burial_unedited-transcript

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