O que eu sou afinal? Ou "quem" eu sou?


   Ela foi embora no dia 25/janeiro/2021; foi doce, me beijou no rosto antes de ir, na noite anterior, e nas duas anteriores, perguntou como uma pessoa tímida, como se não me conhecesse (e no fundo, talvez não me conhecesse de fato), se poderia descer pra dormir comigo. A vontade era responder "que pergunta idiota, claro que pode!". Quase dois anos lutando pra conseguir a chave de meu coração, que não queria dar pra ninguém, e depois que conseguiu, se foi. Bom, claro, eu estava quebrado; só pra retornar um pouco a pergunta do começo, eu lá sabia que caralhos eu era - se soubesse, ela estaria aqui - isso me lembra um outro janeiro, mas de 2013, no qual numa das conversas mais profundas, sinceras e gostosas que tive com minha ex D., eu estava sentado na frente da paróquia, quase de frente pra pizzaria na qual trabalhava, e uma frase dela me marcou: "Lucas, você está abandonado, parece um depósito. Tem muito potencial e coisa aí dentro, mas você se trata como um depósito". Eu nunca esqueci isso; a voz dela também estava doce ao falar comigo. Passei os quase dois anos seguintes, pensando em me mutilar; me imaginava jogando gasolina no corpo todo e piche ou graxa nas partes mais difíceis de queimar, como axilas, pés, cabelo, etc, e então riscar o fósforo - num lugar ermo ou com muita madeira, de preferência. Eu queria queimar completamente. Acho que isso só parou de me assombrar na passagem de 2017 pra 2018. Ou seja, foram quase 05 anos. Eu achei que tinha aprendido como lidar com uma namorada nesse meio tempo; mas parece que quando me permitir vivenciar pessoas, não consegui fazer a segregação entre a não-compatibilidade desse estilo com uma relação estável (e eventualmente, após os eventos de dezembro/2020, me dei conta que tinha ao lado exatamente a pessoa que desejava. Que merda isso). Tenho algumas perguntas pra esse "eu": por quê tenho um timing tão ruim? Por quê eu quis viver duas vidas ao mesmo tempo? Por quê me viciei não em sexo, mas na imagem do sexo: a pornografia, o jogo de palavras, o flerte, a masturbação? ... Pra algumas, sei a direção das respostas, pra outras não. 


   Fato é que sou um cara envenenado de "Anima", a chamada "energia feminina" - isso compõe bem mais da metade do que eu sou: sou responsivo, complacente, acolhedor, reativo; ser um homem com esses traços em domínio, é uma droga. É confuso, machuca; minhas ações são inconstantes, minhas palavras têm pouco valor. Isso me torna alguém compreensivo, é a única qualidade que consigo perceber, mas seria melhor não ter nascido, ou ter nascido mulher, o que acho que também seria uma droga. 


   Mas onde quero chegar após essa ladainha toda é no "eu" vs o tal do "amor-próprio":


   Com 15, em 2003, ano da morte de minha mãe, comecei a ler muita coisa: uma história muito bonita e comovente de amor, chamada "Yargo - O Paraíso Imperfeito"; depois uns Martin Claret, sobre Gandhi, e outros; em algum desses, encontrei a noção de não-eu - não tenho certeza, mas é algo que existe em algo do Yoga e Budismo, quando se busca o Samádi ou Nirvana, essas coisas; é claro que eu com 15 anos não tinha a profundidade necessária de intelecto, pra poder aferir aquilo direito, mas imediatamente, naquilo que escrevia, passei a dar preferência ao uso de sujeito oblíquo ou oculto, em detrimento do uso do "eu"; sendo assim, era muito raro usar algo como "eu faço"; quando queria indicar isso, dizia "farei" ou "faço", sem o "eu", e assim, fui me apagando de certa forma. Depois fui pra Stendhal, com o Vermelho e o Negro (por anos, pensava que se tivesse um filho o chamaria de Julien); Dostoiévski, Kafka, que foram a virada de chave, entre outros. Bom, acho que virei um depósito a partir daí. Mas apesar disso tudo, a noção é muito interessante, e tem uma coisa que me intriga:


   Ok, só consigo amar, se tiver amor por mim primeiro - então, a A. foi embora porque eu não me amava (e na boa, não me amava mesmo não);  porque bom, se me amasse, cuidaria de mim, por conseguinte dela, etc, etc - esse raciocínio é fácil, mas me pego pensando: tenho finitos dias na Terra, e sou, realmente muito pequeno; caso cometa suicídio ou seja atropelado, qualquer coisa assim, óbvio que muita gente ficará triste, outros putos, porque devo uma boa grana pra gente que me ajudou muito, e tals, mas passado isso, daqui a 10 anos, por exemplo, fará diferença? Eu de fato SOU algo? Porque se o que sou é essa droga de trânsito, conhecer pessoas e as deixar ir, e machucar, ser machucado, blá blá blá... Cara, o que é "eu" nisso, e como manifestar amor por ele? É possível que sequer eu exista, será que só eu penso isso? ... Se há uma probabilidade de que eu não exista de fato, por mais esquisito que isso possa soar, como você dá amor a si mesmo tendo isso como possibilidade?


... Pra mim, nem sei como ou quando, e já devo ter falado sobre isso, "amor", é um tipo de ponte, algo que normalmente você constrói de você para o outro; é algo "relacional"; e tenho minhas dúvidas se quero alongar algo já longo como esse texto, procurando uma definição pra "amor", que é outro problema... 


   Eu poderia "me amar", fazendo uma ponte do meu consciente para o inconsciente. Acho que é o mais próximo que consigo conceber de amor-próprio. Eu entendo "auto-apreciação", que é você gostar e reconhecer virtudes que você tenha, mas isso me soa bem diferente do tão vendido "amor-próprio".


   Se me perguntam "quem eu sou", e digo "Lucas Santana" ou "Lord Artmiterium" (meu pseudônimo trevoso pra quando tivesse uma banda de Black ou Gothic Metal), isso não responde a questão de jeito nenhum: isso é só um nome, é como eu me chamo, não é eu; se eu digo "garçom" ou "atendente" ou "aspirante a matemático ou economista", "músico", "tecladista", essas coisas falam o que eu FAÇO, não o que eu sou. Como você dá algo que se manifesta de forma tão profunda, que é o amor, seja ele leve ou solene, pra algo tão abstrato como esse tal de "eu"? Não a toa queria me incendiar após perder esses amores - não é o ideal, mas isso sim pode ter sido um erro crucial: fazer a ponte pra si, por intermediário do outro - ao tentar algum tipo de Redenção por meio do perdão da A., pra encher meu vidro existencial de algum significado solene, eu a coloquei no lugar do meu Cristo perdido da infância, que perdoou o pecador ao lado de sua cruz: eu errei, errei, errei, errei - porque não me via como merecedor da existência, que dirá dela, essa pessoa que é um ser humano incrível?; como algo próximo ao solo, e ela acima - e com efeito, uma das lembranças de Reconciliação que dei a ela, foi uma ilustração do Seb McKinnon, de um anjo beijando um cavaleiro ajoelhado. Ela era o anjo, meu anjo; mas voltando, em algum lugar muito fundo (e muito cristão pelo jeito, também), a única forma de alcançar o Paraíso, que seria a Plenitude, seria por intermédio da Graça, que é fornecida quando um ser elevado espiritualmente, lhe concede o perdão, mesmo sem que você mereça - e a partir daí, esse ser renasce, não como uma Fênix em brasas, mas como um tipo de "reencarnação" em vida ainda - explico: quando a Fênix morre, isso não é uma renovação, é algo mais nietzschiniano, porque se trata de um eterno retorno, pois quando ela volta, não é uma mudança de Paradigma, é uma transmutação de quase-morte ou morte para vida, mas ao mesmo tempo, é o indicativo de que todo o ciclo se repetirá; já na cristandade, o que acontece é que sem que ocorra morte física, o espírito tem uma mudança completa de Paradigma. Não é uma repetição ou retorno, é uma mudança de trajetória, que se antes era circular e selvagem, natural, como a da Fênix, agora é linear, senciente, como a da Humanidade, ainda que essa guarde suas repetições. ... Bom, claro que mesmo que sem querer e por mais nobre que seja (ou piegas, auto-indulgente. Vai do ponto de vista); ser algum tipo de "Cristo" na vida do outro é bem pesado, dada a responsabilidade, e uma vez nessa posição angelical, o sentimento de superioridade pode crescer, fazendo minha parceira ir aos céus, e eu cair aos infernos. Olhando agora, apesar dos meses pensando em me enforcar, isso soa engraçado. A vida deve ser cômica olhando por fora mesmo.


   É isso, de um lado um "eu" que sei lá como caralhos darei amor (e isso parece ser uma condição muito necessária caso queira que minha vida saia desse lugar), e do outro um posicionamento antiquado que ninguém saca direito como funciona ou a nobreza dele (beleza pretensa, ok? Ora acho belo que me sai lágrimas, ora acho pretensioso), que impõe em minha companheira um peso enorme. Agora, por quê sou assim? ... Mulheres são especialmente ligadas com questões de fé, religião, magia, etc, etc - se sou um homem cuja constituição psíquica é de mais da metade de Anima, não é estranho essa crença se manifestar.


   Uma coisa que ela me disse num dos e-mails resposta e que me machucou bastante foi "pessoas vão e vem, me trate apenas como uma lembrança". Uau, eu preferiria ter levado um tiro - e realmente, no mesmo mês dessa resposta, sonhei que levava um tiro no peito, no lado direito perto do coração: sangrava muito e estava agonizando, enquanto tentava pegar meu celular e ligar pra ela no sonho. Mas fico pensando nessa coisa da morte, a relação dela com isso: em sua coxa há uma caveira, referência a um filme que fala de morte e lembrança, basicamente; em sua vida houve muita morte simbólica: ao perder seu cachorrinho, nossa relação estreitou, mesmo ela sabendo que eu era um cafajeste (fico me perguntando porquê ela me testou tanto nisso, sendo que sabia desse traço. Mas enfim - e agora que não sou mais assim, ela não dorme mais do meu lado. E eu dizia que gostava de ironia... Após esses eventos, se passar dos 40, está aí algo que nunca mais direi que aprecio tanto); ou seja foi uma morte que nos aproximou de certa forma; antes de mim, ao bater o carro, não conseguia mais dirigir, e "matou" a situação se livrando do carro (o que ajudou a mim e ao seu cachorrinho. Bom, ok, foi positivo); ao brigar na família, "matou" a situação e foi morar ao meu lado, o que nos rendeu dias gostosos, e a mim a honra (mal-aproveitada), de estar perto dela; depois que descobriu que eu era um "cachorrão da internet", flertando com imagens 2D e mulheres que não ligam pra mim, me matou, e agora está mergulhada no mundo da música. De morte em morte, vai crescendo. É interessante isso - até simpatizo, mas será que não cansa? Qual será a próxima morte, e aonde essa a levará? Minha cristandade não tem nada a trocar ou ensinar? ... Ainda não consigo fazer bom uso dela, pois 'stou dentro do problema, mas um de meus maiores sonhos é ouvir ela dizer que essa noção lhe foi útil, ou que mudou a trajetória dela pra melhor. E claro que gostaria de estar ao lado pra fotografar e curti isso junto.

...  Escrevendo esse monte de coisa, pareço a droga de um Beta ou um pretensioso a Keeper. Mulheres preferem os Alphas, dizem - se eu depender disso e desses jogos e classificações, pra ter alguma esperança com ela novamente, sei lá como será. Faço minha parte. Tento na verdade - sempre tropeço em mim mesmo, mas agora é um tanto diferente, parece haver alguma luz agora. E certo cansaço, certo valor, certa saudade; um sentimento de que se algo acontecendo em minha vida e não deveria ter deixado passar, esse algo é A.

   Tenho que aprender a me amar, seja lá o que isso signifique, esperar ela se curar da merda que fiz, e torcer pra que a próxima "morte", traga uma chance. Não tem como por outra pessoa aqui dentro - nessas horas queria saber o que o "eu" poderia me dizer a respeito disso.



  

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