Tentativa de Salvar o Mundo

 



 Leviathan - The Bitter Emblem of Dissolve :

  "Mine heart blackens true"



  Qual o tamanho de minha pretensão? Se fosse me dado um presente, conseguiria cuidar disso, sem que o coração se tornasse impuro? Ou seria como criança, que ao ganhar um presente desejado, logo cansa e deixa-o de lado? Não tem como ensaiar. E ao que parece, já fiz isso, e nem reparei na dádiva, nem reparei em coisa alguma. O medo pode ser maior que o desejo. Meu desejo tem olhos claros e está oculta - tive em meus braços, mas como neve maltratada, derreteu, com o fogo de meus pecados, derreteu.

    Nunca dediquei um verso sequer, poucas promessas foram cumpridas. Heathcliff pagou com a própria vida seu amor maltratado, seu amor julgado. Julien Sorel perdeu a cabeça, literalmente. Gregor Samsa se tornou inseto. E quanto a mim? O que me aguarda?

    Aos dezesseis, percorria quilômetros até a região da Penha - talvez tenha a visto na rua, passado por ela, num final de semana qualquer e jamais nos reparamos. Andei muito, muito, até os pés arderem. Até cansar, e nunca me dei conta; mais de uma vez corri a esmo sentindo angústia, talvez fugindo dela, da angústia, pois talvez correndo, ela se desprendesse de mim. Então é isso? Me tornei um peregrino da tristeza? Por anos fui de caráter relativamente asceta: um asceta ateu, um asceta vezes sombrio, mas me lembro de, apesar do desejo, ter mergulhado em solitude aos 25. Era triste, mas tinha paz. Com 29, tudo mudou, eu me corrompi: vergonha, é você trair valores daqueles que o cercam, culpa é trair os próprios valores. Passei de vazio em vazio, de boca em boca: tanto tempo refletindo sobre os machucados que causei, pra cinco anos depois de um término traumático, me tornar um homem ardiloso e um tanto vil. A alegria não faz bem, ela te engana: durante meus anos mais duros, nos quais eu despertava, mas preferiria não ter acordado, eu conseguia olhar nos olhos das pessoas, e sentir o peso delas. Eu era uma pessoa melhor. Durante algum tempo, perdi essa qualidade, e isso me custou muito caro. Caro demais. O cara que ria compulsivamente, tinha uma mãe doente em casa - eu percebi isso; em verdade, cada risada era um lamento, um choro; a garota que me queria a qualquer custo, e eu recusando, era carente, e só queria uma companhia cálida e/ou um bom ouvinte pra descansar seu peso um pouco. Todos precisamos disso, e eu conseguia fazer isso, eu consegui ler essas pessoas. Durante minhas lamentações, fiz um ensino técnico e comecei outro; escrevia com freqüência; batia boas fotos; fui a recitais, a peças, estudei um pouco de viola de arco. A tristeza foi a melhor amiga que tive. Quando comecei a ficar alegre, "me dar uma chance", de ficar com pessoas, a princípio pareceu coisa boa. Foi minha sentença de morte. Se eu tivesse permanecido "guardado", de luto, quando ela apareceu, eu teria sido um bom Companheiro, teria sido o melhor pra ela e pra mim. "Deveria ter deixado você Lucas, você era feliz, saía pra jogar e tinha mulheres"; foi me dito isso. Talvez entenda agora o ponto, e o mistério de meu Arcano, o número IX, "Eremita": a partir do momento que deixei de estar num profundo contato comigo, respirando minha angústia de quando em quando, e fui até a superfície - no entanto, meus olhos não são olhos normais, eles são olhos obscurecidos; as cores do mundo de encontros e grupos, são vívidas, porém, falsas. Antes de meu último amor, eu acordava todo dia pensando "eu odeio minha vida", e cara, eu simplesmente esqueci ou não percebi, que a simples presença dela me fez esquecer isso. Não lembro de um dia que dormindo abraçado com ela, acordei odiando minha vida - isso não aconteceu; e me tornei tão ganancioso, que além da vida ao lado dela, quis ter outra, fictícia, virtual. Quis tudo e agora sou um maldito pária. Foi um ótimo tempo; eu adorei cada dia com ela. Não tinha me tocado disso. E durante meu período de "me dar uma chance": cada fêmea parecia uma luz fluorescente, mas na verdade, não era assim, não pra minha natureza - é claro que tenho instinto e desejo, embora esse último andou muito em baixa, desde sei lá quando, mesmo com uma pessoa maravilhosa ao meu lado; nunca tinha sido de perseguir luz, ainda mais, ao olhar agora, que muitas dessas eram luzes frias - perseguir, ficar, não porque era uma pessoa, e tinha interesse nela; acabei por perseguir, porque se tratava do sexo oposto, do encontro físico. Então não, não era feliz, mas passei um tempo de alegria, num estilo de vida que é contra minha natureza, que é a solidão, de certa forma. Minha Amada errou, eu adorei sua entrada em minha vida, no entanto, não estava conectado de verdade comigo, não estava triste o suficiente, não estava pronto, porque se estivesse, ela estaria aqui comigo agora, teria fotografado ela com minha máquina, ou escrito algo bonito pra ela, ao invés desses textos "postmortem".

   Eu 'stou muito triste sobre como tudo se encontra agora. Gosto de imaginar que aos meus 16 anos, devo ter passado próximo a ela. Gosto de lembrar de um sonho que tive muito novo, coisa simples:

Com cerca de 06 anos de idade, sonhei que ia com meu pai num comércio, na zona leste, só não consigo recordar a região, se isso foi na Penha ou em outro lugar. Nele, ao entrar no estabelecimento, via uma menininha, mais velha que eu, de cabelo grande, meio cacheado, bem branquinha. No dia seguinte, isso aconteceu de facto: fui com meu pai a um comércio na zona leste, fazia bastante sol e vi essa menininha, acompanhada do pai, a mesma de meu sonho. Eu falei "pai, eu sonhei com essa menininha!"; não lembro a reação do pai dela, mas ela deu um sorriso suave, muito parecido com o de minha ex companheira. Não lembro de seu rosto, não lembro de seu pai, mas hoje, enquanto 'stou num silêncio sólido como um bloco de gelo, gosto de pensar que era ela, ou um "arauto" dela. Só depois de janeiro, fui começar a reconexão dessas coisas. Eu nunca deveria ter me posto numa vida de busca de prazeres fáceis; eu não sou um Bon Vivant, essa não é minha natureza, no entanto deixei esse espírito tempo demais aqui dentro, ele me engordou, me tornou promíscuo, fez eu perder o meu amor. Foi caro demais.

   Cara demais essa displicência, cara demais.

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