(21/12/2021)



 




Eu quero só caminhar um pouco; é meu maior desejo simples nesse momento -
Eu acordo, o nome se repete mil vezes em minha cabeça, quase meu mantra diário: "A, A., A., A., A."... É uma seqüência, uma trilha sonora, enquanto o Sol brota levemente melancólico após dias nublados.

Passo por passo, arrastando pé após pé, minha mochila e minha sombra, vou para o trabalho. No peito, sonhos queimam - ao que me parece, são tangíveis, ao contrário do que pensava; elogiaram minha voz, isso me alegrou um pouco o dia - e ao mesmo tempo me entristece: nunca cantei pra ela; talvez, se o tivesse feito, ela estaria aqui.

A Melinda passou quase uma hora no meu colo - ela é uma frajola linda; minhas garrafas de água vazias, meus sonhos estranhos: no dessa noite, ela disse pra minha irmã "não quero" (sobre mim), e eu caí ajoelhado na frente de meus ancestrais, que estavam em semi-círculo ao redor de mim; caí de joelhos, cheio de dor, quase insuportável, vertendo um tipo de sangue translúcido dos olhos. Eu espero que tenha sido só um sonho ruim. Eu conto com isso.

Mas eu caminho, ainda sim - o dia está claro; vou para meu trabalho no qual a conheci, e no qual cerca de um ano atrás, fomos juntos; comi um hambúrguer que adorava e que no presente não existe mais no cardápio, e me parecia que tudo ficaria bem finalmente; ela me abraçou; eu revi todas as fotos - seus olhos com um sentimento ímpar, algo entre satisfação e desconfiança; eu olho pro céu, e a imagino com seus cabelos vermelhos, sentada em sua escrivaninha no trabalho - será que está bem?, Será que ainda usa um tom de voz adocicado pra pedir coisas?; Muita gente pelo que notei, a acha dura, mas eu não penso assim: realmente, a situação comigo a fez vestir a armadura da intolerância, mas tudo que quer é um pouco de paz, talvez alguma leveza. Melhor que eu, deve saber como o tempo de vida é limitado, gastou muito tempo com outra pessoa já, logo, eu não teria o mesmo privilégio.

 Eu busco o mapa que me leve até seu âmago novamente. Não sou um homem experiente, na verdade, sei de muito pouco: talvez eu nunca saia dessa vida limitada que tenho; talvez você não viva muito; talvez eu não viva muito; talvez uma nova chance, seja um erro. Nós somos pilhas de defeitos. Mas de cada lágrima derramada por nós, ao longo dessa breve eternidade, sai muita luz, e essas são as estrelas de nossas constelações. Eu acredito piamente que ainda posso aprender muito com o seu ser e seu próprio céu; enquanto caminho, penso nisso, e sob certo ponto de vista, o das estrelas, não estamos afastados de forma alguma, muito pelo contrário: eu 'stou logo ali, e você é minha vizinha (novamente). Sob esse ponto, estamos muito, muito próximos.

Atravessamos céus cheios de mistérios e falhas, dia após dia, noite após noite, em silêncio e ausência e anseio e cathexis, e me lembro bem do toque em seu corpo, sua esperança submersa; eu ainda a abraço a cada noite, especialmente as frias e chuvosas, mesmo que não possamos nos ver.




Comentários

Postagens mais visitadas