"Unfurl"

 



Você não está aqui, e não é como se sempre na segunda-feira eu a pudesse ver, a distância no intervalo da aula ou na entrada da escola, ou subindo as escadas indo pra sala, ainda que de certa distância.


Você não está aqui, mas não é como se ao ir pra padaria pegar pão, passasse em frente sua casa e você estivesse nessa hora, saindo para o trabalho, lavando o quintal, indo para um curso ou o que for, e aí nesse caso seria possível um riso tímido, um "tchau!", mesmo que de longe ou mesmo uma troca de olhares.


Você não está aqui, e não estará no banco da frente, seja na igreja, terreiro, qualquer tipo de centro religioso, enquanto eu me sento ao fundo e vejo seu cabelo balançar de leve, a expectativa de aguardar uma virada, um olhar pra trás. As mensagens religiosas poderiam ser sobre qualquer assunto que ajude a nos consertar, e seria uma chance para num encontro, olho no olho, face a face, restabelecer as coisas.


Não é como se fôssemos vizinhos ou alunos da mesma escola, curso ou trabalhadores da mesma empresa. É capaz que ao me ver na rua, atravesse, sem algum gesto de paz, agradecimento ou humor, ou boa lembrança esboçada na indisfarçável expressão, ou sob uma máscara fria de seus olhos claros e das expressões que emite no lugar de palavras, o lábio levemente torcido, a tristeza dos dedos apoiados contra a têmpora, toda sorte de distrações, pra que não prendam suas iris em um campo do qual não possa escapar ou desconfortável demais - é como se eu jamais tivesse existido, mesmo que de repente algo na vida presente um do outro seja conseqüência direta e boa do enlace passado. Sem desculpas, sem agradecimentos, sem reconhecimento, sem afeto. Apenas o abismo, o embotamento, a ignorância, o apagamento. O que é melhor, isso ou bater a minha porta pra dizer que não 'stou pronto? ...Nós somos máquinas machucadas; será que faz sentido pensar isso?


[14/02/2022]

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