Se faço a outros algo como um brinquedo, então torna-se eu algo como um brinquedo - descartável, divertido, mas também potencialmente frustante e pronto para parar no fundo d'uma caixa, ou ser desmontado, talvez quebrado, ou na melhor das hipóteses triviais, tornar-se uma lembrança. Creio que agora eu entendi.
"Ainda vejo o mundo com olhos de criança // que só quer brincar e não tanta responsa"
Esses versos preencheram o final do Ensino Fundamental e começo do Médio - com efeito, é uma das músicas nacionais, cantadas em português que mais gosto; eu gostava muito de uma das versões ao vivo dela, num dos shows da MTV; ainda considero essa versão N vezes superior a gravação de estúdio; tal como na música, apesar dos miolos, minha postura ante muita coisa, pela displicência, se aproximava da postura de uma brincadeira, coisa sem compromisso - mas não tinha ciência plena disso, talvez ainda não tenha. Você se torna o que você faz; se eu fiz de meus dias um passatempo, logo eu acabei por me tornar um; essa sentença faz sentido? Ou há brechas e exceções?
Brinquei com muita coisa, achando que não era nada demais, que era o natural, o melhor a ser feito: hoje me parece que me tornei um brinquedo, algo que igualmente, não se pode levar a sério, algo transitório; se eu partia desse princípio, ainda que sem pensar ou ter consciência, que posso eu reclamar se me quebram ou riscam meu rosto com uma chave de fenda? Não posso reclamar, apesar de estar fazendo isso agora: eu me coloquei numa caixa de emoções pouco organizadas, e é muito raro alguma criança que ao crescer lembre-se de seu brinquedo favorito e levei-a consigo. Ao vê-la portando um urso antigo, talvez algo dentro de mim tenha entendido isso como um sinal: ora, se ela guarda isso a tanto tempo, talvez haja uma chance grande de que me guarde por bastante tempo também; porém, não me dei conta de um "detalhe" importante: eu não recordo de ter perguntado a quanto tempo tinha aquele urso, ou a história dele - se eu ignorei essa história, a da coisa que minha mente identificou como um "signo secreto", um tipo de espelho espiritual, por quê haveria reciprocidade para saber a minha história? Não, não existe tal obrigação.
O urso permanece como uma testemunha se não quase eterna, mais perene que eu ao menos - e eu soterrado 'stou sob coisas de ordem mais primeva que eu, numa caixa de brinquedos - ou seria caixa de lembranças?
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