Promessas não cumpridas

 




 
                                                   Sing, sing, sing, sing
              For the love you bring won't mean a thing
                               Unless you sing, sing, sing, sing
                             Colder, crying over your shoulder
    Hold her, and tell her everythings gonna be fine
                          Surely, you've been going too early
                Hurry, cause no one's gonna be stopped




   Fiz uma promessa que não pude, sequer consigo cumprir: não falar sobre você, não a ter como tema. Em cada respirar meu, você tem estado presente. Falei algo como um compromisso (as promessas), sem ter avaliado minha capacidade de corresponder ao que falei. Poderia ser bom a esquecer, tratar apenas como uma lembrança, assim como me sugeriu num dos escritos seus para mim, assim talvez eu pudesse ter esse tal de "recomeçar", que as pessoas tanto falam e acreditam. No entanto isso não é possível, e dentre as causas, porque você e eu tratamos a natureza das pessoas de formas diferentes, me parece. E eu 'stou cedendo sob o peso de minhas falhas. Isso não é problema de ninguém, é o meu monstro, que eu devo enfrentar, mas quais serão as conseqüências disso?

 

  Eu escrevo desde 2014 aqui, mas blogs tenho desde 2008. Eu sempre escrevi sobre meus sentimentos; quando você estava me conhecendo, e disse que veio até esse espaço, dada a época, o último texto tinha sido postado lá pra 2017; não era difícil constatar que falava de meus sentimentos e relações; é razoável considerar que se volto a escrever, e é sobre sentimentos, isso a incluirá de alguma forma. Isso é inevitável. A mesma tristeza que você quis amainar lá atrás, após ler alguma coisa daqui, é a da qual você faz parte agora. Você me modificou, e segundo você mesma, esses (os sentimentos), não são uma variável controlável. Você tinha razão, e bom, tenho apreço por isso. Eu lembro dessa conversa, foi funda demais, um prenúncio de até onde você consegue chegar, mas não levei a sério, pra variar. Sempre falei de meus sentimentos, exceto numa época: o período no qual a conheci. Infelizmente, pois se não tivesse parado de escrever, muita coisa teria sido diferente, e pra melhor. Eu não era um cara que saia flertando compulsivamente com pessoas, nem um cara obcecado em imagens femininas que sequer eram revistadas depois, exceto, na época na qual a conheci, esse intervalo 2017 até 2020. Nunca achei que três anos seriam tão danosos. Eu tentei fazer algo diferente de minha vida, eu espero que você consiga perceber isso, tentei encarar de outra forma, justamente na época na qual você apareceu, mas como podemos ver, eu não consegui fazer de uma forma madura, ou avaliar quando eu deveria estar a frente e ter mudado meu modo de ser ante tudo isso. Se o fosse, você estaria aqui. Olhando pra trás, desses três anos, tudo parece ruim ou passável, ou neutro - exceto por você que eu disse e reitero: foi o melhor que me aconteceu nesse intervalo de tempo, uma pena eu ter sido um cretino incompetente. Eu relembro e repasso: eu nunca pesei mais que 60 e poucos, exceto nesse intervalo de tempo no qual a conheci; suspeito que esse "inchaço" físico, na verdade era a evidência de minha "obesidade moral", e do quanto não só meu corpo, mas minha existência estava se alimentando de porcaria. Você dizia "pobre corpo", quando eu falava de minhas refeições - na verdade era pra ser "pobre alma". Faz sentido?


... Eu a conheci, um ser humano pra lá de bom, que eu poderia ter ajudado e quem sabe, até ido muito mais longe na caminhada, na época na qual eu estava mais inerte por dentro: eu a conheci sendo um zumbi, raciocinando com a cabeça errada, e de instintos e de uma fome de imagens, comida e acomodação que simplesmente era insaciável e tóxica. Vazio. Suas palavras "sem laços", dóem, porque eu sempre quis um laço, mas quando você me dedicou isso, eu não soube o que fazer com ele. Eu sentia uma falta enorme disso, e ironicamente, agi da forma como agi. Eu 'stava desconectado de mim, logo, não conseguiria me estabelecer com você. Eu não 'stou dizendo que sou um santo, de forma alguma: seria infantil de minha parte dizer que o que é bom é o "Eu Verdadeiro", e o ruim o meu "Ego", como se esse fosse uma entidade separada. Eu sei que fui mal, e isso não foi alguém externo a mim que fez, fui eu - eu posso ser muito ruim, é a constatação a que chego. Mas como já disse no dia de seu aniversário, eu não consigo manter essa promessa: ao contrário de todas as demais, que poderiam ter sido cumpridas, essa não consigo. Fora que suspeito que você é das poucas pessoas que vêm até aqui, ou alguém de seu entorno, dados os gráficos de visita daqui desse espaço. Domingo, segunda-feira, terça e quinta passadas, sonhei contigo; na semana anterior, isso aconteceu duas vezes, na anterior, quatro. Sonhos dos mais variados, mas em boa parte, você está de cara fechada, e eu falando com você. Isso desde que você se foi. No último, estava conversando com você, mas você estava "duplicada", com sua "cópia", sentada alguns metros atrás. Você fez uma cópia de meu blog no sonho, e parecia zombar de mim. Eu fico pensando se isso é condizente com você, com a pessoa que é. 


...Eu sempre escrevi, e acho que essa é das poucas coisas acertadas que consigo fazer, e talvez, eu pague um preço caro por isso, afinal você tem a arma nas mãos. Se assim quiser. Mas acho que nenhum preço é caro, como ter perdido você. Veremos. Por hora, eu daria qualquer coisa pra poder caminhar ao seu lado novamente, fazer as pazes, curar.


   Uns quatro meses depois que você se foi, eu deletei minhas redes, comecei a fazer jejum, tanto o de alimento, como o de dopamina, me reavaliar. Por quê eu agi com você, da forma como agi? Passei meses pensando nisso, ainda penso ... Você estava numa de nossas últimas conversas, com lágrimas nos olhos, dizendo que eu "não tinha coração" - e eu não derramei nenhuma lágrima com isso. Fica difícil eu me defender, eu entendo, e talvez, como eu disse em meu penúltimo texto, eu sofra um "estrago em minha vida", vindo de ti, mas sabe, parece que eu caminho nessa direção. Acho até, que seria de certa forma uma estranha honra. Eu sinto sua falta, você sabe disso. Eu evito passar em certa altura da Paulista, pois lembra filmes que assisti contigo. Não como Habib's mais, dentre várias outras coisas, cada uma delas, com fragmentos seus. Demorei meses pra por sua cadeira, agora vazia, de volta ao lugar. Por quê eu agi da forma que agi?


... Eu trabalhei com cultura por algum tempo, e não a levei a museus; eu fotografava, e só fui ver as fotos que tirei de você, depois que você se foi; eu sempre fui de andar muito, mas nunca desci na praça para caminhar contigo. Como eu me tornei isso?


    Depois que cortei as redes, também parei de tomar café por meses, porque apesar de adorar café, eu não estava mais servindo você pelas manhãs, perdi o apetite. Não uso mais a cuscuzeira. Eu lembro numa das poucas vezes que levei café pra você, nós brigados de noite, mas pela manhã ao bater em sua porta, recebi um dos melhores abraços que ganhei na vida. Por quê eu estraguei as coisas assim? Por quê eu achava que não a merecia, então estava fazendo de tudo pra provar pra mim mesmo que não merecia mesmo? Por quê não ligava pra minha vida, e por conseqüência para o mim, para o nós e para você? Quando foi que eu me tornei isso? 


... Te perder foi bom; eu não teria iniciado esses pensamentos se não fosse o término, e que bom que foi assim: gosto da pessoa que 'stou me tornando, e tenho certeza que você também gostaria: essa pessoa é "mais" abençoada que aquele que você conheceu, em diversos aspectos; no entanto, perder você foi um preço alto demais.


    Passei uns três meses, sem jogar o jogo que amo, sem o já citado café, sem redes, sem imagens, sem obsessões, talvez exceto essa, a que eu tornei você. Eu imaginei que talvez se eu me dedicar muito a matemática, eu consiga solucionar um dos problemas clássicos, e por nossos sobrenomes para batizar a tese, como homenagem, e forma de demonstrar minha devoção, talvez póstuma, mas esse parece ser um desafio além do que consigo fazer nessa altura da vida. Eu sinto em algum lugar, que meu pai só passou a amar de verdade minha mãe, após ela ter partido, e ora veja, como a vida é irônica: todo meu afeto se manifestou em sua maior quantidade e até qualidade diria, quando você se afastou de mim; meu pai foi um "cachorro", e eu achava que nunca seria, criticava ele, e vejo que fui pior que ele nesse aspecto, especialmente com você. Eu 'stou aprendendo a escrever com a outra mão, a mesma que é a sua dominante, porque talvez se eu for mais parecido com você, eu a entenda melhor e consiga fazer as pazes com você. Eu 'stou quebrado. Sinto muito ter falhado com você; eu lamento ter a conhecido como uma de minhas piores versões, mas mais que isso: eu não menti, quando ano passado escrevi, relembrando, que nos meus tempos de religião, pedi uma pessoa com certas características, e que puxa vida... Eu passei tempo demais desprezando a religião, cuspindo nela, e pelo visto, isso voltou pra mim. Mas mesmo que não seja nada disso, digo: eu gostei muito. Talvez você não tenha lido o que escrevi pra você no seu aniversário, mas saiba que o que posso fazer é isso. Foi você mesma que disse com um sorriso bonito, que eu sou "peculiar". Me perdoe as falhas, as dores, o incômodo; se eu estivesse sóbrio de existência quando a conheci, as coisas teriam sido diferentes e você não teria ido embora.


   Quase todos meus textos, desde que voltei a escrever (outra coisa abandonada na época de nosso enlace), têm você, caso não tenha notado: o da teia de aranha, o do urso, o de meu aniversário, o texto seguinte... Há pedaços de você em todos eles, mesmo quando não parece. ... Eu adoro você, mas você não é sábia, por hora, você é esperta; mas logo, quando for sábia, conseguirá enxergar isso e muito mais. Às vezes gostaria que você fosse uma Lily Allen, de "Smile", mas com uma arma nas mãos. Ao menos isso seria mais rápido, e você poderia me destruir d'uma vez, e não nesse passo de agonia miserável. Eu 'stou quebrado e meio cansado também.


   Eu simplesmente tenho saudades de você o tempo todo, no entanto, você não é dona de minhas palavras - elas são minhas, e foi no momento no qual as abandonei, que eu me tornei o cara dissimulado com o qual você ficou - e eu, enquanto tiver uma gota de honestidade mental, uma gota que seja de auto-consciência, não permitirei que isso aconteça novamente. Eu não posso mais deixar que alguém especial entre em minha vida e vá embora do jeito que você foi, e escrever é parte disso, de minha integração. Eu sou lento, mas entendi, minha querida, o que é esse treco de integridade. Eu não preciso mentir que está tudo ok, porque não está, não preciso me bancar melhor ou pior: eu sou isso, aqui tem partes de mim que estão se unindo, e parte desse processo é graças a você, tarde, infelizmente, mas você fez parte disso. Não é por isso que irei, apesar de minha adoração, refazer o processo que me desconectou de mim, deixando de escrever, porque foi você que pediu. Meta uma bala na minha cabeça, me prenda, me processe, me mate, me queime, me surre, mas eu não posso mais deixar que isso aconteça nunca mais. Minhas palavras são minhas. São meu espírito e minha dor e reflexão. E nem você, que eu adoro, tirará de mim isso. É algo que não pode mais acontecer.



   Eu espero que entenda.


   Com afeto.

Comentários

Postagens mais visitadas