Dead
E então, na última lua minguante sob peixes, aquário era o ascendente, vim até essa Terra, desperto da escuridão esquecida e do silêncio que se movia no nada; olhos de peregrino, vezes pérola, vezes porco.Uma coroa eclipsada.
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Eu não escrevi isso hoje, mas são pensamentos que vêm me acompanhando desde que o mês se iniciou - dizer que "não há o que comemorar", soa ingrato: 'stou vivo, tenho boa saúde e sou forte, estranhamente, apesar de toda bagunça e abuso que faço com meu corpo; apesar de nunca ter pego ela nos braços, embora tivesse força pra isso; assim como disse no ano passado nesse mesmo dia, eu tive o privilégio de ter pessoas maravilhosas apostando em mim como companheiro pra compartilhar a vida, como amigo, colega; quanto a isso, não tenho palavras para agradecer, pois fui muito abençoado nesse ponto. Mas eu preferiria não estar vivo, caso pudesse escolher.
... assisti um vídeo de alguém que daria tudo pra voltar a 2019/2020: o trem para o passado está partindo, ele pula da plataforma até o trem, sangra suas mãos contra o vidro, mas entra. De fato, por mais que seja irônico querer voltar para um tempo de pandemia, e eu lembro da sensação de desesperança daquele período, me parece que meu ponto de possibilidade, de mudança, foi ali. Eu tinha como companheira um ser humano e tanto, e pouco demonstrei e respeitei, apesar da admiração que ela me causava; vinha de uma ótima experiência profissional, tinha meu teclado em casa, tempo e amor. Me dói profundamente não ter reparado: em como uma garota extremamente querida, quis dividir seus dias comigo, mesmo eu sendo um problemático; eu me pergunto o que a fez ficar, por quê ela me quis; lembro como meu emprego era legal, e eu não lembro de ter agradecido por isso, ou ter agradecido de ter tido meu melhor amigo como supervisor e orientador. Eu perdi uma pessoa que pra mim era muito especial, e eu não disse isso pra ela dentro do tempo hábil. O melhor ponto foi ali, e nem notei, deixei passar.
Anos antes, perdi muita coisa: perdi casa, gatos, coelhos, pai, mãe; ainda sim, como disse, sou alguém estranhamente saudável - e conheço quem perdeu mais que isso, a saúde inclusive. Mesmo assim, ando pensando que se fosse pra voltar no tempo, poderia ser para 2002. Vinte e um anos no passado, quem deveria ter sido diagnosticado com linfoma ao sair da sala de consulta, deveria ter sido eu, não minha mãe. Eu aceitaria o sofrimento dela pra mim. E a paz do cessar-vida. Eu teria caído fora dessa Terra, na qual eu sempre me encontro "fora do tempo", mesmo sabendo que há coisas maravilhosas por aqui, mas teria saído sem ferimentos maiores e sem ferir mais algumas pessoas que poderia ter poupado de minhas inconseqüências. Eu 'stou todo cortes e sangue seco. Ela estaria viva, e eu morto, preferiria assim. Apesar de tudo, a Terra ainda não me prende. Eu ainda penso na minha ex, todos os dias, além dos sonhos, e me disseram numa conversa que ela está mais machucada que eu. Isso me entristece, não queria que fosse dessa forma. Lamento ter errado tanto. Eu queria todo sofrimento dela também, por nas minhas costas que tanto peso já carregaram, minhas faltas, e livrar ela, minha irmã, mãe e tantos outros desses fardos. Como um simulacro falho de um Cristo profano e ferido, queria que meus olhos vertessem oceanos, para lavar todas as falhas e transformar essa Terra pequena em algo abundante, a abundância que só a morte, minha morte, poderia prover.
... porém nem meus gatos têm tido o cuidado devido; eu não tenho tido comigo mesmo um bom cuidado, pouco sal para feridas, muito frio para lágrimas; a essa altura, nesse momento, a vida é um tsunami, tento submergir, mas a água começa a pesar em meus pulmões. Eu 'stou cansado. E eu não posso me entregar, pois ainda devo muito, não posso ir embora deixando minhas contas, eu não sou um ingrato, tenho que honrar as coisas, pagar as ações que fiz. As farpas da madeira da cruz, escarificam as costas.
Eu me sinto como se tivesse 15 anos de novo, sob certa perspectiva: 1° ano do ensino médio, tendo que pensar em como construir minha vida, fantasiando se irei namorar a Amanda, a Bianca ou outra garota da escola; em o que farei de faculdade; em como será a fase de exército. É como se tivesse voltado no tempo, mas sem a luz daquela época, sem toda a esperança, tendo que conduzir a esmo, e correndo o risco severo de tudo se desmanchar diante meus olhos de novo. Voltei, mas não no mesmo corpo, nem na mesma casa; voltei sozinho a esse tempo empoeirado e ermo, e sem que tenham conhecimento. 'stou sozinho, no sentido espiritual da coisa; só eu posso fazer isso, e só. É um deserto, vasto, e se grito, não há eco pra retornar minha voz. Só uma esperança surda de que tudo dará certo. Minha ex estava certa, e de certa forma, é como se eu fosse análogo a Gregor Samsa, e ela é como a irmã que saiu pra viver e tocar violino, apesar da apreciação que tinha por ele; a que tanto me amou, a primeira a dizer que "esse inseto não é ele". Ela chorou, eu morri.
Queria estar no lugar de minha mãe.
Hoje, eu não queria estar vivo.


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