Projetada para uma vida compartilhada

 






   Sempre bate a angústia: uns dias esquecidos, uns indiferentes; os estóicos dizem que cada dia deve ser vivido, como se fosse o último, mas no meu caso, apesar de gostar de matemática, o que me parece é que de certa forma, repito alguns dias, eles são assimétricos, como se cada ciclo de quarenta fosse um único dia mais-ou-menos, então as semanas são horas e os meses são dias. Eu cresço num ritmo deplorável e inconstante; o sorriso, mesmo eu não querendo sorrir, acontece espontaneamente, e os olhos se abrem, e uma torrente cai delicadamente mas contínua, até tornar meu travesseiro, um ponto de alagamento. Minha mão esquerda vai até a consciência, num movimento involuntário 

"Lucas, quando é que você parará de colecionar arrependimentos? ... eu sei que você adorava colecionar coisas quando era criança, mas vem cá: você não acha que a essa altura, não é demais não?". Às vezes é minha voz interna que fala isso, às vezes é a voz de minha ex.


   Eu colecionei cartas Pokémon, fichas telefônicas, e depois quando vieram os cartões, mamãe me convenceu a colecionar esse item novo junto com ela - dei minhas fichas pra que ela trocasse por cartões, no ano de 1996, eu com oito anos, ela, em sua vida paralela, mas também na zona leste de São Paulo, dezesseis (me refiro a minha ex. O que sera que se passava na vida dela nessa época? Como era sua vida aos dezesseis?, vira-mexe, me faço esse tipo de pergunta, acho divertido); esse foi o ano se não me engano; e assim que acabou o uso das fichas, esses cartões telefônicos foram os primeiros de minha coleção; colecionei imagens pra postar em meu blog, colecionei arquivos de EPs e Demos das bandas que eu gostava, como Anathema, Katatonia, Khanate, Novembers Doom; colecionei tazos, colecionei imagens de mulheres, colecionei spells textless de Magic the Gathering; colecionei encontros ilusórios, colecionei paixões não correspondidas - hoje eu coleciono as conseqüências de minhas más escolhas, coleciono as imagens mentais das ações erradas que tomei, coleciono remorso, coleciono lembranças, coleciono culpas que me derrubam no chão quando 'stou só. Eu queria ir embora. Me parece que "Wanderlust", é um termo do alemão que designa uma pessoa que possui sério desejo de viajar, tão sério que desperta ânsia; será que existe um termo pra alguém que quer pra caraca sair dessa existência?

... descobri o preço da beleza e o preço do orgulho: se sentir contente por achar que se é desejado, um sentimento feminino, manistado numa potencialidade que não se manifesta, mas risca a Realidade por meio de palavras; meu último grande erro não foi um orgulho ferido, foi uma ausência que feriram. Ao contrário de você, minha amada, me parece que eu não fui projetado para uma vida a dois - eu não sei pra que porra de vida eu fui projetado, pra começo de conversa, nem vivo eu queria estar, mas apesar disso, de toda contradição e lamúria, meu último remorso, posto na minha coleção foi o de ao invés de ter me humilhado, não ter dito: "olha, eu não sou bom nisso, como póde ver. Eu não fui um bom companheiro até aqui, com ninguém, nem com você que sempre foi tão generosa e doce; infelizmente, e eu me envergonho disso, especialmente com você, que é um amor. Mas se a pouca reserva de paciência que você tem nesse momento permite, eu gostaria que você me ensinasse isso. Não é como algo que cai na grade de pedagogia, mas será que não lhe serve?... eu não quero que você saia da minha vida, eu quero caminhar com você, caso seja possível e eu não a atrase por demais."

... eu imagino que vc esteja bem agora, com seus projetos e finanças; talvez seu amor atual seja calmo, e você havia mencionado algo sobre "paz" nesse intervalo de vida, que vai até os 50. Eu fico satisfeito com isso, mas ao mesmo tempo, gostaria de te ver, trocar umas palavras, dar um abraço; gostaria de poder caminhar ao seu lado novamente. ... lá no começo de tudo, esse título foi uma frase que você soltou numa conversa, uma das primeiras. Eu não sei se é porque você viveu mais tempo que eu, ou por ser mais experiente, ou simplesmente por ter mais noção, mas você cuidava bem; tinha um jeito sério, mas ao mesmo tempo doce, que eu gostava bastante. Talvez hoje não seja assim, talvez nosso rompimento tenha mudado isso em você, mas me parece, e aqui falo apenas supondo mesmo, que ao contrário de suas palavras lá no final, sobre aceitar seu karma e os homens quebrados, é... essa sua versão feita pra uma vida a dois prevaleceu sobre essa. Eu ainda 'stou lá, em janeiro/2021. Por quase dois anos, estive em abril/2019, no comportamento e mentalidade. Uma pena que só agora enxergue as coisas assim.

   Me assombra que nós dois tivemos problemas sérios com nossos pais, e em como esse fantasma paterno acredito, mexa com algumas de nossas bases, talvez mais em mim do que em você: com efeito, hoje, passados quase mil dias de sua ausência, me sinto similar ao seu: a casa cheia de bichinhos, o silêncio, o arrependimento, a casa suja. Meu pai também era muito próximo disso. Morto em vida, como você mesma atribuiu, e só a poucos meses, repassando algumas de nossas conversas pela vez de número 2 mil em minha cabeça, isso parece ter se tornado claro pra mim. Eu sonhei contigo hoje e na sexta passada, nos dois dias, estávamos a conversar - meu pai também é um morto em vida; a última vez na qual eu o vi, ele parecia realmente um louco, alguém que perdeu a sanidade, e me deu um pouco de dó... papai parecia ser meu forte quando eu era criança; em 2016, além desse olhar desencontrado, me lembrava uma criança frágil e machucada.

   Eu fiz e conduzi mal muita coisa, mas eu juro que era porque ou eu não sabia ou 'stava desconectado de mim. Certa vez me perguntando sobre nosso futuro, disse que "as coisas se encaixam", enquanto você, sempre preocupada e protetora, fazia efetivamente planos. Naquele momento eu não conseguia ser melhor, eu não entendia. Eu não entendia a noção de escolha, de conseqüência, de nada disso, eu achava que bastava "viver", um dia após o outro, que tudo daria certo, tinha um raciocínio meio "mágico" pra vida. Hoje, me sinto como um simulacro de nossos pais, mas fundidos em seus pesadelos. Os dias são cansativos e a esmo. Nesse momento o que eu lhe ofereceria além de um abraço e uma casa suja e cheia de gatos? Sua vida está refeita; você a refez em cerca de 5 meses após a sua partida. Eu caminhava quilômetros pensando em você,  e em como poderia estar assistindo filme x ou y no cinema com você, tipo "A Liga da Justiça", mas sua vida já 'stava em outro lugar. A minha parece que acabou - sempre teve um aspecto de ruína, mas agora parece pior. Eu nunca mais pisei num cinema ou num Habib's. Também não como mais tapioca ou cuscuz. Se tenho que passar a Paulista em frente a Gazeta, meu coração dói. Elton John, Beatles, AiC, Rush: coisas difíceis de ouvir, embora admita que ouça às vezes: vai que numa dessas, eu a encontre de certa forma, sua essência, espírito,  saca? Alguma mensagem ou segredo, escondido nas músicas que você gosta. Eu não queria ter perdido você, e não falo isso porque sou orgulhoso ou narcisista: eu não sei se você notou, mas apesar de ter meus amigos, e ter me conhecido numa república, não tinha muitos laços - e os que tinha mais importantes, não eram presentes na minha vida, na mesma proporção que na sua. Minha vida sempre foi repleta de espaços vazios, e bom, eu também não sabia disso, não havia me dado conta. Talvez se tivesse me dado, 'staria cozinhando com você agora, ou você 'staria me dando bronca, dizendo que 'stou atrasado para o ensaio de minha banda. Você, apesar de alguns trejeitos, e talvez justamente por conta desses, quando apareceu, trouxe mais açúcar pra minha vida, mais do que meu paladar se lembrava que existia; mas eu nem notei, e ao mesmo tempo, adorei. Sabe quando você bebe tanto álcool que mal sente os gostos? E não só isso... Era bom conversar com você; muitas, a maioria das conversas, não foram ao fundo, ao limite, mas senti até onde ia. Ao mesmo tempo, você também me passava uma aura de criança, que eu gostava bastante, mas que na época, não consegui corresponder ou entender. Hoje, quase mil dias sozinho, a casa na qual você morava, deserta de novo, mas ainda com seus adesivos: caveira, tulipa, alguma coisa viking; peguei uma caveirinha sua da janela empoeirada e pus em meu celular; a sensação de um vazio cortante nos pulmões, quando vou estender roupa num clima como o de hoje, semi-nublado e outono: num dia como esses eu recolhi sua roupa, dobrei com o carinho que nunca te demonstrei, e deixei em cima de sua cama numa pilha. Senti seu cheiro, vi seus enfeites. Vi você deitada, e uma das poucas vezes nas quais fiquei deitado com você em sua cama, ao invés da minha. Senti sua temperatura, a manga curta da camisa que fui buscar pra você na zona norte, terminando e então meus dedos deslizam em seu braço. Eu a habitei pouco. ...Eu imagino como meu pai se sente agora, pensando por mais de uma década em minha mãe; eu sei agora a dor de papai. O seu também deve passar por vazis assim. Quanto mais velho, mais pesam as lembranças?

   Hoje, sou um fantasma, uma dívida não-paga, uma página virada. Talvez sempre fui isso: um fantasma, e por isso tudo tão ruim entre nós e em outras coisas, eu sempre fora do tempo. Talvez você se veja feliz e pense que não precisava ter passado por mim. Você talvez, passou "através" de mim. Os meus dedos dóem e não consigo a tocar, por a mão em sua Fênix, dizer um perdão, sinto muito, não sabia. Eu poderia ter sido melhor, mas na época, não consegui. Eu penso "puxa, eu me tornei melhor, por quê nós não fazemos as pazes?" - mas se sou um fantasma, como ouvir?

... meu sonho continua. Pensei em só escrever novamente aqui em outubro, que é quando farão mil dias, mas não agüentei. Eu penso em você todos os dias. E de fato, 'stou atrasado. Como sempre.

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