Hoje, como um sonho vitrificado, como uma claridade quase infinita em pleno alto mar, vertendo d'olhos água tão salgada quanto a do oceano, é como se me desse conta da paralisia do tempo, de meu tempo. Em "A Linha de Sombra", de Joseph Conrad, meu coração ficou apertado com o navio que não conseguia de forma alguma sair para o mar preso num trajeto que não oferecia nem ventos, nem rotas. Não li Moby Dick ainda, mas imagino, graças às canções do Ahab, a banda de Funeral Doom alemã, o próprio capitão Ahab, em alto mar, sol pleno e mais que quente em todas as direções, uma desolação, um deserto de água e ar, e ele parado esperando a tal baleia. Bom, não sou herói de coisa alguma, e sei lá o que caralhos Moby Dick capturou do Capitão Ahab, pra que ele ficasse tão obcecado. Em meu caso, algo foi capturado de mim - talvez nada demais, talvez seja algo trivial, que ocorre com todos, mas percebo d'outra forma, com esses contornos exclusivistas. Duas criaturas da água: Ahab e Moby Dick; eu também, ao me metaforizar, várias e várias vezes, me denomino como algo da água, pertencente ao Universo da água e daquilo que ela representa, com suas dádivas, monstros e tudo o mais. "Ela foi embora", é uma frase que penso todos os dias; como uma isca jogada, as marolas ecoam infinitamente em seu padrão de onda, cada qual maior por sua vez. "Ela", nesse momento que falo, está mais quase que pra uma entidade, do que para uma pessoa em si, embora, quando essa vem, de algum lugar abaixo, e vibra e repercute em meus tímpanos e peito, faz tremer meu coração de âncora, cause que me venha à mente uma pessoa em específico. Aí, se eu sento na cadeira, me vêm outra pessoa, depois uma época, depois, uma capacidade que deixei de exercer, e depois tudo fica turvo, como se essa vibração fosse para algum lugar "acima", e logo se precipitasse, como numa chuva contínua e massivamente cinzenta. "Ela foi embora"; quem? Moby Dick? O objeto de furto dela? Ou outra coisa? 

... e se nesse verter salino proveniente da fonte da visão, não viesse a solução para a mecânica fluidos, já que falo tanto em água? ... mesmo que viessem soluções, uma vida é muito pouco, e essa, não raras as vezes, me parece já acabada. "Redemption Lost".

   Ao me afogar deliberadamente no riacho da consciência, até perdê-la quase, próximo do sufocamento e violência surda, achava que a escuridão era a camada protetiva pra luz; é lá nas profundezas, que a baleia se esconde e caça, e quanto mais pra baixo, menos luz - e então fico confuso: se ao descer, a luz esvanece, não seria essa a camada de acesso a escuridão? E se fosse o contrário: a face do oceano um breu, e a medida que se afunda, aí sim a luz se torna maior, até cegar no núcleo?

   Mas ela foi embora, talvez tendo engolido o Sol que habitava o fundo do oceano; talvez ela não seja quem eu pense: talvez a luz, escuridão, noção das coisas, ou algo que o valha, isso sim tenha sido capturado. A visão fica turva, eu inerte; não queria admitir, mas a sensação de naufragar tem algo de muito bom; meu corpo se entrega, e as correntes da âncora rilham, a medida que perco essa de vista no final do oceano.

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