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Que saudade de você! Seu sorriso castanho hoje ruivo, a hera de seus cabelos a época lisos como convicção, hoje, um tanto diversos disso, tortuosos como a vida, ou talvez não. Voz, calor, determinação; conceitos e traumas, com suas mãos escavando minha alma e peito rebeldes e indisciplinados. Hoje, como nunca, como em tempo algum, passaram-se mil e um dias de distância de minha porta - e eu não contei boas histórias de lá até aqui. Eu espero que essas poucas palavras não machuquem ninguém: o Sol não tem culpa de arder, e eu, como um Sol eclipsado, de histórias oblíquas, não tenho culpa das lágrimas que a lembrança de suas mãos me fazem derribar ao solo - o aperto cálido em busca de segurança ante chuva e trânsito, voltando da praia; minha obsessão, tristeza e triunfo. Que disparem contra mim, que me soquem por causar-lhe asco: tudo está em paz, contanto que tenha a lembrança de suas pernas apoiadas em meu colo enquanto tomava café, em minha vida pequena, casa pequena, coração pequeno. Calor e Sol contra palavras duras e gélidas; a queimadura completa de sua passagem por sobre meus campos de centeio - uma geada ou um calor sem fim? Não dizer!
Hoje, fazem mil e um dias. Eu escrevo os textos de antemão, e eles vêm depois, como filhos gestando; não sei como 'starei nesse dia, se é que 'starei, mas me parece que não a terei visto, então escrevo essa memória e ponto de lembrança. Não é a mais bela, nem a mais a inteligente, perdoe-me a honestidade, mas é a que mais tocou. É a com Espírito, e esse, etéreo e penetrante como Longinus, me perfurou. Não é justo comparar, mas é a com mais Espírito. Pro meu coração, é mais que beleza, é algo que não sei descrever; é a Cathexis que incha meus olhos, a lembrança de tempos de reclusão e trabalhos amargos. Hoje parece ter uma boa vida, e fico contente por isso, pelos projetos, voz e parcerias; mas não posso, não dessa vez, negar a vida, e como suas conseqüências se manifestam em cada osso meu. Pena que não posso te abraçar, e você me rejeita. A marca Legal tatuada em minha cidadania, e meus olhos inchados e inflamados tanto por não a ver. Mais de uma vez, quis que mandasse seus amigos, que são muitos, para me matar; você tem capacidade para tal. Hoje não sei: apesar do buraco em meu tórax, consigo com clareza lembrar de seus trejeitos, voz e riso. Hoje, fazem mil dias que aquela história teve seu epílogo, e falhei em contar coisas fabulosas, como Sherazad, mas tudo bem. Que venham mais mil dias: eu não tenho medo da tristeza, sou forte, e agüento mais que qualquer amigo seu. Que venha a Tempestade. Que venha sua satisfação, meu sucesso, distância, suicídio, sonhos. É necessário um calor muito extremo para derreter um gelo antigo.
Agora eu sou o caçador para a culpa que mancha minhas mãos

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