XXXVI





   Não sei como será hoje: normalmente nessa data eu trabalho, e não costuma ser pouco, salvo parcas exceções. Normalmente chego em casa mais exausto que o normal nessa data, e tem sido assim já a uns bons anos. Eu lembro que em 1998, ganhei de papai se não me engano (ou será que foi da Dona Ione, a vizinha querida, amiga de minha mãe? Esses detalhes me eram muito claros cerca de oito anos atrás, mas hoje, eles se misturam); um apontador que era um carrinho em bronze, réplica de uma Bugatti Royale 1927. As capas de meus cadernos eram papel com estampa de carros antigos, e eu vivia falando de uma época que não vivi: anos 20, 30, 40. Falavam que eu parecia alguém do Passado. Pensava sobre a História, e em como queria ser testemunha da História, vendo os dias da Humanidade, como se fossem um filme ante me's'olhos. De alguma forma, queria ser uma testemunha. Perdi o carrinho que tanto gostava, entre as dezenas de mudanças que realizei ao longo da vida - fico pensando, se sempre que mudamos, perdemos algo muito querido ou não. Sempre que me mudei, perdi coisas. Até o momento, desde minha última mudança, perdi meu action figure do Sarkhan Vol, o Planinauta que voltou no tempo e salvou os dragões de sua terra, que 'stavam extintos; em 2020, ganhei de uma pessoa querida um planner, cujo herói da capa era ele - ou será que foi 2019? ...Vê? Minha mente flutua: já perdi os dados que tinha tão fixados como estrelas no céu, dentro da memória, assim como o carrinho que tanto gostava. ...Hoje, sábado, será que trabalharei tanto que chegarei em casa apenas querendo dormir e desaparecer? Veremos.


... a água gelada escorre, e o ruído marrom que ela provoca, faz com que ouça as batidas suaves - e se eu durante o banho, desmanchasse junto com a água? Ah, certamente me desmancho nas areias de meu tempo: uma lembrança vermelha de poucos anos atrás, preencheu o campo de meus olhos, e hoje, mesmo que 'steja ocupado demais, a visão periférica a vê. "Ela está bem?" - o som de um coletivo de gotas cometendo suicídio ao se chocar com o chão, grãos de areia escorrem junto, e em verdade é minha pele, essência, se apagando junto com a água. Coração tranqüilo, uma arma na cabeça; uma pira com madeira e piche, Coração inquieto. Gostaria de saber com mais clareza se o que quero matar ainda existe, ou foi algo que perdi nalguma mudança; tenho a sensação de que nunca saberei, mas ao menos nesse momento tudo está calmo antes da tempestade. 


   Hoje, não 'stou contente porquê ganhei uma festa, nem porquê minha companheira me levou pra assistir um show de um Korn cover; também não tenho altas esperanças como dois anos atrás, nem desespero como em tantas outras vezes. Hoje eu só queria ser como essa água que evoco, que cai e some, ou como os pequenos grãos de uma rocha que já foi muito dura de um monumento, desistindo da História e se entregando ao pó do solo. Imagino uma escuridão sem limites, e um riacho de luz extremamente branco com matizes esverdeadas, como a fonte do milagre que é essa vida toda. Voltar. Meus sentimentos, as garotas com as quais deitei, aquela a quem sempre referencio, as músicas, os sonhos, lembranças - tudo rumando para o silêncio calmo do fim de noite, aquele que permite a você sentir o calor do próprio corpo; é bonito, calmo, aconchegante e silencioso de certa forma; penso nisso como a antessala do esquecimento, se iniciando no rio que mencionei, e encerrando-se no perfeito silêncio, escuridão e nada, à medida que se adentra para tentar lhe encontrar a nascente. É o que almejo: a calmaria de não existir, sobre ou sob águas calmas. Pulverizar minhas lembranças sobre aquilo que está porvir, enquanto d(e)xisto em paz.


   Hoje, tanto faz: bem ou mal, de certa forma, me tornei uma testemunha, mas de minha própria vida e história. Por mais que digam que há recomeços e reinícios, sempre se caminha para a própria extinção, de forma inexorável. Um belo dia, os dias de sol da oitava série, se tornaram uma foto apagada; depois minhas tentativas de banda, as aulas de canto, fotografia, o gatinho "Seu Porra", meu pai, tudo. A mocinha de cabelos castanhos que depois se tornou ruiva, ainda permanece muito viva, mas até quando?; E assim, perco minhas partes junto com essas mudanças. O Sol se põe. Hoje só queria um profundo silêncio, deveres cumpridos e minha extinção: minha fusão ao lugar de onde vim, que é a corrente contínua da vida desagüando no esquecimento. D(e)xistir. 

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