A noite está cristalina e gelada, o ar parado como uma doce lembrança, e com efeito é disso que se trata. Parece muito com o mesmo outono de cinco anos atrás, com o de quatro anos atrás. Eu era um perfeito idiota, mas lembro de estar sentado na cozinha de minha amada república, um solzinho de fim de tarde com aquele amarelo bonito, o gatinho Darwin deitado noutra cadeira - hoje ele está sumido: fugiu de casa têm uns dois meses, ele, genioso e doce, você "asseverada" e doce. Eu era um perfeito idiota, as imagens ruins na tela do celular, mas 'stava ao seu lado, e trocava palavras, boas palavras com você. Era muito bom.


... faz exatos um ano que escrevi isso, após tomar café e lembrar de você devido o clima - mas você também é praia, é sol de fim de tarde, é o cheiro do café recém feito, e o peso de suas pernas apoiadas nas minhas enquanto comemos. Muita coisa, comida, lugares, etc, me lembra você cotidianamente.


   Bom, comecei a reler tudo, desde o início - eu nunca deletei. Dei umas boas risadas - você também era uma piadista besta; chorei, entendi meu lado, o tipo de pessoa que era, mas também fiquei chateado, comigo, com você; comecei a entender melhor que tipo de pessoa também você o era, e torço para que o término desastroso não lhe tenha tirado os bons traços, deixado "dura", coisas assim; só não posso dizer que foi algo "à toa"; fato: nada é pra sempre, e talvez, apesar do trauma que possivelmente lhe deixei, eu realmente espero que haja algo bom disso tudo. Eu também tinha meus traumas antes, e tive depois: passei quase dois anos sem me deitar com ninguém, entre muitas coisas que mesmo hoje, não consigo fazer mais. Certa conversa, comentou que um de seus companheiros tinham que aprender a se relacionar, mas olha... de meu ponto, todos temos; mas prefiro ter passado pelo trauma do que ter tido algo inócuo ou mesmo descompromissado: eu a abraçaria de novo, veria sua expressão brava de novo, discutiria de novo, iria até sua casa pedir desculpas de novo, caso a única forma de revê-la, fosse repetir; lavaria seu tapete, assistiria filme cristão, erraria. Erraria de novo. Se pudesse ter feito outras escolhas, ou agido melhor, teria o feito.


   Eu não tenho palavras, ou um adjetivo pra retribuir você por escrito, talvez nem falado, logo eu, que sou tão cheio de palavras. Mas, nas raras ocasiões que alguém me pergunta algo sobre você, sempre falo com uma nostalgia enorme, que você era muito, muito legal, a pessoa mais "gente-boa" que passou por aqui - e olha que nesse ponto, eu posso agradecer, pois só me envolvi por mais que uns dois ou três meses, com gente muito, muito legal, mas você... bom, você me intriga; eu a imagino encolhida na coberta essa noite, meias nos pés, do mesmo estilo que ainda há dois pares aqui na gaveta na qual guardo perfumes; deitada de lado, um sono tranqüilo, e eu aqui lembrando de ti enquanto volto pra casa de bus do trabalho, em plena madrugada, escrevendo, uma lua crescente no céu, falando para essa tela, tudo que deveria ter dito a quatro, cinco ou seis anos atrás. Talvez quando esse texto for publicado daqui a um ano, em 2025, tudo 'steja muito diferente, mas não tenho ansiedade, só saudade de sua pessoa.


   Que bom que você apareceu.

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