XXIII/XXVI

 



Permaneci sem voz, apenas observando o Mundo, embora sabia falar - já houve quem dissesse que tinha uma bela voz - pr'alguns não era, mas outros, aqueles que importavam, diziam que gostavam, qu'era agradável, etc, etc. Às vezes sentia falta de falar, e é irônico que apesar desse sentimento, quem tem esse traço, de ser falastrão, me desagrada, até hoje inclusive; tendo a pensar, ao olhar para meus bichinhos e todos os outros espalhados pela vizinhança, que o Homem "é um bichinho que fala", da mesma forma que pássaros cantam, cachorros latem, gatos miam; logo, é menos uma necessidade enquanto algo importante a ser pronunciado, algo modificador, e mais um tipo de coisa fisiológica, como ir ao banheiro ou dormir; ou seja, sons "vazios", falar por falar - e está tudo bem, apesar de certo enfado, não tenho inveja para com esse ponto.



   Anos atrás, em minha comunidade, as pessoas começaram a sofrer d'um tipo de moléstia: elas ficavam "duras", não sei explicar - era gradual, mas as pessoas que 'stavam mais próximas a mim, eram as que sofriam com mais intensidade; começava com uma rigidez nos joelhos e cotovelos, depois as pernas e braços ficavam mais rijos e difíceis de mover; vovô parecia um boneco na cama, mal conseguindo mover o maxilar até o seu perecer - era como se d'uma forma muito estranha, todos 'stivessem a congelar. ... Com o passar do tempo, repararam que enquanto dormia, as coisas pareciam melhorar e/ou não se agravarem. Papai pediu que fizesse um voto de silêncio por alguns dias, e então, após cerca de cinco dias, os sintomas pareciam não avançar. Foi então que me calei. O mal não retrocedeu, mas também não exatamete avançou. Era uma boa criança, brincava, falava bastante, mas ao que tudo indicava, minha voz chamava certo tipo de maldição e não adianta viver enquanto outros padecem devido você. Era muito criança pra pensar no suicídio de um jeito mais "concreto"; fantasiava minha morte, porque afinal seria bom pra todo mundo: eu 'staria livre e os demais também, eu deixaria de ser um problema, mas não o fiz, apenas me embotei. Minhas palavras deixavam as pessoas doentes, paralisavam elas. Era isso que pensava.


   

   Anos após, conheci uma pessoa e 'steve sempre junto a mim, não negando minha presença, não me tratando como pária. Natural do litoral, enquanto eu das montanhas, após muita insistência para conhecer meu timbre, não pareceu causar nenhum distúrbio. ... talvez fosse outra coisa ou não apenas meu falar: meus olhos se encheram como um lago antigo cheio de peixes; os "eu te amo" que guardei, "gosto de você", "por favor, não vá embora", "puxa vida, queria tanto esse brinquedo, dá ele pra mim?", "quero mais bolo", "eu 'stou com saudades vovô"... eu era uma barragem; me segurei porque não queria mal algum, nem pensava tanto assim nisso, era raro em Verdade, mas quando essa possibilidade se passou por minha mente, doeu tanto... eu senti como se as montanhas nas quais morava 'stivessem sobre meus ombros, eu respirava e doía, a respiração curta, sabe? ... meu coração fraco, mas parecia nesse momento fazer tanto esforço que sentia-o apartado de mim. Quase respirei minhas lágrimas nesse dia, de tanto que doeu isso.



   ... Eu não tenho cultura o bastante pra usar outra palavra, nem entendo de medicina, psicologia, nada assim; sou uma pessoa um tanto simples, mas pra mim, o que houve é que minha voz ressoava numa freqüência como a de certos espíritos que 'stavam na minha aldeia; uma fatalidade, sabe? Acaso, esse tipo de sorte maldita que infelizmente atinge alguns de nós; - noites após, já fora do círculo no qual meus entes viviam, gritei, cantei, falei, coisas sem sentido, com sentido, urros, lamentos, e caminhei rumo a um desfilafeiro, os espíritos me seguindo; aquela pessoa especial também foi na procissão; conforme ia descendo, creio que as presenças foram deixando as casas, árvores, pessoas e como a poeira que sai das janelas antigas, foram se sedimentando no chão e escorrendo até minha direção. Não tive culpa, mas se não tivessem notado, meu pai principalmente, talvez sem querer, teria matado a todos. Foi as minhas custas, mas era um sacrifício que podia pagar e fazer, mesmo com todas seqüelas com as quais fiquei. Fiquei contente com o resultado, e após isso, fui para o litoral, onde nenhuma dessas presenças me atingiria, nem aos meus. Esse tipo d'espírito teme a água, o Oceano em particular, parece, e hoje posso finalmente falar e ouvir minha própria voz.

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