I


Acho que isto estava feito já a bastante tempo; era algo inevitável, e, de certa forma, já havia acontecido. Não opto por "forca" ou "fraqueza" - aliás esses termos mal se aplicam quando uma desconstrução está se desenvolvendo. O desleixo, as migalhas, a desatenção: é como um sistema em remissão, que logo voltará ao seu estágio inicial, ou algum desejo próximo a isso. Caso estivesse por aqui ainda, a entropia, ou melhor, o número de caos possíveis teria aumentado grandemente, e não é bem o que queria. Sobre existir, sobre lidar com o próprio respirar. E sobre ações, não-ações e conseqüências.


II


Uma se foi tem 15 anos - 50% de minha vida; não a sinto mais, ou antes, acho que não sinto. Viver é mutilar-se, mutilar e ser mutilado e ter que dar um jeito de continuar agindo como se nada tivesse perdido, debilitado.
A outra faz uns 4 anos, mas desde então, é minha métrica, minha régua. Quando cogito uma parceira, confiro se é leonina ou não; se é dedicada ou não; se é levemente mais alta que eu. Vezes isso importa, maior parte das vezes pouco ou nada importa, mas por hora, é o triunfo das cicatrizes que foram entalhadas.
Elas ainda secretam segredos, embora com menos constância.

Considero bela essa dor.

Não acho que a ame ainda, mas ainda amo aquilo que poderíamos ter sido, nossa potencialidade         - amo isso com paixão e sinceridade, e isso também se tornou medida: quanto mais potencial num possível relacionamento, mais submerso. Sem repetir meus pais, Rose & Mario, seu amor fracassado e de torturas, sem repetir Dayane & Lucas, o companheiro que "flopou", o ausente;       
 ...mas preciso parar esse ciclo.
 Afogo-me em falas, imagens e gestos - ao ver o grande oceano, que não aceitei com braços soltos e convidativos: me pus a deriva, quando deveria ter submergido, quiçá afogado-me. 
Fui um naufrágo tolo.


III 


Pouco ciente do que fazer - mais que em momentos anteriores, sei que nada sei. Com freqüência penso em Magic, dívidas, pessoas, pessoas, pessoas e tantas outras pessoas - cada uma, em afagos e momentos saudosos e fictícios; penso em animações japonesas, em como ao invés de assistir séries, vive-se séries, e em como elas tiram (a contragosto), esperança e bom augúrio; músicas, aulas, gente passada, presente e fotos, me desordenando e deixando impotente e perplexo, como num acorde diminuto.


IIII


Minha memória mais antiga e o "nada". Lembro de tudo num análogo a escuridão, mesmo sem saber o que era escuridão, ausência. `té os 15 anos, meu maior pavor era não-existir, e SABER que  não-existia.
 Falei disso noutras oportunidades.
Sentia tremores e um vazio do tamanho de bala de 12 no peito, ao imaginar minha consciência vagando no vazio/escuridão/nada, ciente de seu próprio não-existir, sabendo de algum jeito bizarro que não, não tem coisa alguma. Contraditório: se nada existe, como saber? Contudo nesses pesadelos, sabia do nada. `té os sete ou oito anos, se acordasse no meio da noite e tudo estivesse escuro, gritava de pavor, gritava com pavor. Hoje com quase 30, muitas vezes pego-me sentindo uma vontade incrível e pensando nos meios de atingir essa mesma não-existência, essa própria que machucava na primeira infância. E então penso em como poderia ser meu desfecho, levando em consideração as que amei, tendo-as namorado ou não, os livros, filmes, partidas, etc. Shows que como protótipo de músico imaginei realizar e não, não aconteceram; apenas em íntimo.
Não sussurrei "Cease to Exist" ou disse o quanto minha amante é tudo em "Equilibrium" do Tristania, para uma platéia inebriada pela beleza; também não gritei o refrão de "Firewalking" do Moonspell, com todas as forças de meu peito, ou me comovi enquanto dizia que todas as línguas rumam para o vazio com "All Tongues Toward" do Leviathan, mas tudo isso, imaginado ou ocorrido, importa para pensar num desfecho - um desfecho que justifique ou torne bela essa coisa, esse conjunto de obra, seja essa morte como moldura para evidenciar vida, seja como um bom epílogo para um livro mais-ou-menos. Penso nisso com muita freqüência. Nas garotas, nas fotos, nas partidas.
Na chuva e na neve que nunca vi.
Mas por vezes, mesmo considerando que esse desejo e pensamento não passa de pura tolice, pondero que na verdade já estou falecido. Minha morte já ocorreu, e isso há muito tempo. Mas estou tão obcecado em encontrar quando isso aconteceu que permaneço aqui, enquanto a monotonia me sela ao sofá, para apreciar uma ou outra História secreta.




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