Pensando
Acabo de chegar em casa - são 03h25. Caminhei quase 40'; é algo que voltei a fazer após muito tempo: caminhar; no fim de minha relação com A., algo entre novembro e janeiro, estava ensaiando voltar a andar, e o fiz esporadicamente - mas nada como o hábito antigo que tinha; durante a adolescência, alguns me chamavam de "andarilho", em tom de brincadeira - muito devido o fato de que de segunda a sexta por alguns meses, andava 08 quilômetros a pé, isso aos 16, e qualquer atividade que fosse fazer, fosse um curso ou aula, etc, se realmente não fosse distante, fazia o processo a pé - eu era meu próprio meio de transporte, e agora tenho tentado andar muito também; durante os meses de fevereiro até maio, muito do que fiz que necessitava de transporte público, também fiz a pé, fosse pra buscar presentes que havia encomendado para o dia 26/02, fosse pra encontrar algum amigo do Magic ou pra entregar algum currículo; andei, andei e acabei voltando ao mesmo trabalho que tive em 2016~2019, o mesmo trabalho no qual me tornei uma pessoa diferente (pra pior em muita coisa, pra melhor em outras), o mesmo no qual conheci ela. E enfim, caminho, ando, passo após passo, depois que o ônibus me deixa no terminal.
... Hoje, peguei uma outra rota, que segue o sentido contrário ao qual 'stou acostumado: passei pela rua de minha antiga casa, que adorava; vi a padaria na qual às vezes parava pra comprar pão, o posto no qual meu amigo e eu às vezes descíamos pra comprar salgadinho e coisas assim, após noites de Altered Carbon e Perdidos no Espaço; passei pela rua e vi minha Amada com seu malote verde - no dia na qual a convidei pra casa pela primeira vez, tinha retornado de viagem, e a vi chegando; mas quis brincar: a vi chegando pela mureta, e então mandei uma mensagem dizendo que iria demorar muito a chegar - não sei porquê achava graça nessas coisas; hoje em dia quando penso nisso, me parece uma brincadeira desrespeitosa; mas enfim, passei em frente minha antiga rua devagar; tudo me apareceu e vi como se fosse aquele fim de tarde, daquele dia em março/2019; a vi com seu shorts jeans azul e óculos no cabelo, esperando, vi minha casa, meu quarto bagunçado pelas moradoras novas, aquele vazio pela ausência do Renato, que mudou de país, ela entrando e brincando com o Darwin, e aceitando meu suco de manga por educação (mais de um ano depois, descobrir que ela detestava suco de manga, e que aceitou por educação).
Com o passar dos anos, troquei o caminhar pelo sono - se até 2009, aos 21, era uma pessoa que andava bastante, após esse ano, mesmo sendo alguém que gosta muito de dormir e sonhar, esse, o sono, tomou conta de minha rotina de forma muito intensa e quase que abrupta. Não posso dizer que um adolescente tem clareza mental, isso seria mentira, mas minha transição pra fase adulta coincidiu com essa mudança de preenchimento do tempo, da caminhada para esse estado, e o que acho interessante, é que a época na qual mais tive noites "em preto", sem sonho algum, foi justamente nesse período, e esse se estendeu até poucos anos atrás, com alguns hiatos apenas. Onde quero chegar é que talvez, se tivesse preservado esse hábito, teria ficado menos cego pra mim mesmo e para os outros - sempre que caminho, sou atingido ou por lembranças, ou por reflexões, e sinto que isso ilumina aqui dentro de algum jeito.
Eu imagino a A., olho bem fundo em seus olhos claros e temos uma conversa imaginária; eu imagino que 'stou num bar ou que acabei de tocar e ela estava na platéia, público, e claro que meus olhos estão marejados, porque certamente é assim que ficariam; quando desço e vou na direção dela, pergunto se está bem; seu cabelo está lindo, ela está muito bonita, mas seus olhos me parecem um tanto tristes - pode ser reflexo meu, e 'stou me projetando neles; pode ser que seja isso mesmo, e no fundo ela esteja triste, ou ela sempre foi assim, mas só passei a prestar atenção a pouco tempo, então só reparei agora - de qualquer forma, na minha imaginação, eu entendo que não tenho essa resposta, não ainda pelo menos. "Sabe, 'stou feliz de ver você aqui. Você me mostrou muitas coisas bonitas, não esqueço dos filmes e dos gestos. Espero que tenha gostado do que viu"; ela hesita um pouco; ela tem uma energia masculina bem forte, não no sentido ruim, mas quando ela rompe algo, é parecido com a forma com a qual um homem, algo masculino faria; eu não tinha refletido sobre isso em nossos quase dois anos, mas sim, nesse ponto, temos pólos trocados: ela com um masculino forte, e eu com um feminino forte; aquela relação acabou, mas se me fosse permitido reescrever ela, teria sentado e feito esses ajustes - mas naquela época não sabia e sequer tinha experiência pra isso - enfim... "Hey, posso te pagar uma cerveja?"; ela novamente hesita, pensando se isso seria uma boa idéia ou não - me tirar de sua vida trouxe a ela coisas boas, na verdade; pode ser que ela tivesse conhecido os mesmos músicos e pessoas, com ou sem mim, mas como foi sem (apesar d'eu ter filmado e fotografado o primeiro ensaio dela, e ter apoiado e ficado feliz pela entrada dela numa banda, que hoje deve fazer as vezes de família e amigos), certamente dentro dela, a impressão de que isso só aconteceu porque eu saí de cena é extremamente forte; a ferida que causei (e que demorei mais que dois anos pra compreender que tipo de dor é essa), era ardida, doída; ela está reticente ainda, face séria, olhando pra baixo; "olha, não quero exatamente falar de passado, mas veja: sei que fui péssimo, e que isso doeu; mas acredite, eu não sabia: sei que você falou, escreveu uma carta de 04 páginas, mas não tem como entregar ou corresponder algo que você não sabe de verdade, entende? Eu não entendia a fundo, direito, o que era aquilo, não de verdade; eu não tinha a bagagem pra entender; você não é responsável, mas não tive a experiência pra entender; a parte experiente da relação, era você, eu era só um menino 'brincando' de namorar, de fazer as coisas nas coxas... - é algo básico, eu sei, mas eu realmente não sabia. Me perdoe. Eu daria meu sangue pra reparar e fazer diferente, mas eu estava perdido até de mim mesmo, apesar de todas suas tentativas de me ajudar e fazer entender. ... Ainda sim, sem compromisso nenhum, ficaria feliz caso você aceitasse uma cerveja minha". Ela levanta um pouco a cabeça, olho de novo em seus olhos, e como se um sorriso suave se desenhasse em sua face, ainda que numa máscara de seriedade, ela acena que aceita.
... E já 'stou a mais de dois quarteirões de minha antiga casa. A hamburgueria na qual queria levar ela na noite de terça na qual terminou comigo, está aberta novamente parece - uma pena só estar aberta agora; poderia ter me ajudado muito se naquela terça tivesse ido comer com ela, e aqui de novo minha mente reescreve aquela noite. Naquela terça, após o veterinário, quis levar ela na casa de amigos, mas ela recusou, com certa veemência até. As palavras ficaram todas dentro de mim; se fosse reescrever hoje, diria "puxa, eu conheço todos os seus amigos, tudo que fazemos envolvendo outras pessoas, quase sempre são com eles - e eu, infelizmente não tenho muitos; estamos a quase dois anos juntos, e acho que seria importante você conhecer algumas, dentre as poucas pessoas que chamo de amigos; fará bem pra nós, me deixará feliz, e é justo, pois eles são importantes pra mim, e adoraria que você os conhecesse. Será divertido, vamos?" E então, o incenso que dei de presente, teria sido o que ela achou o mais cheiroso, não o que que eu escolhi; ela teria bebido licor comigo e com o Thomas, teria visto a gatinha Noah e o cachorrinho Bud (ela adora cachorros); nossa relação teria saído mais fortalecida naquela noite, se as palavras tivessem saído e se organizado, ao invés de traírem ou estarem enterradas - isso seria um "olha, eu sei que isso demorou muito, bem mais do que você merecia ou do que seria justo - eu sei, e peço perdão; mas veja, essa é a vida que tenho - ela é pequena por enquanto, não tenho muitos amigos, como bem vê, mas adoraria que você os conhecesse, pois eu adoro sua presença nela [minha vida]; adoro compartilhar ela com você". Não foi o que aconteceu, mas imagino que ela toparia, iríamos felizes pra lá, e a noite terminaria com ela contente, e eu massageando seus pés, até ela cair no sono, e aquele beijo de boa noite.
Faltam alguns quarteirões pra casa, uns dois, mais a ladeira; começa chover, mas eu não ligo; ela deve ter ensaiado ontem ou anteontem; o lugar é razoavelmente perto de casa; eu lembro de chegar em casa e vê-la deitada e coberta na cama - e que eu nunca disse como gostava daquilo. Nunca disse. ... Na praça tem as barras, que sempre me vejo nelas fazendo calistenia, mas nunca fui até lá; lembro de sonhos muito antigos, de minha ex Dayane, de meu pai; da casinha na qual morei na Vila Ré; eu sentado no sofá de minha velha casa em Arthur Alvim, na qual sempre recebia a visita de amigos aos 14, 15 anos - quem sou eu? ..."Seja feliz na medida do que for possível"; essa frase tem me rasgado o peito tem uns cinco dias - foi do último e-mail trocado com ela; a princípio a vi como condenatória: algo que ela saberia que iria me machucar, e disparou de propósito; bom, sou um tanto masoquista, ela um tanto sádica. É uma boa combinação na cama, mas em sentimentos não tenho tanta certeza - foi pra me ferir? ... 'stou subindo a ladeira de casa, e tento pensar se "ser feliz na medida do possível", tem alguma relação com "quem sou eu". Ela sempre reclamava daquela ladeira; eu era meio gordo, mas ela apesar de ser um tanto "fitness", muitas vezes me dava o braço, brincando pra subir essa ladeira. "Já falei pra você parar de fumar", eu brincava; e ela dava um sorriso leve e bonito. Isso dói bastante, mas me parece isso: todo mundo quer ser feliz, mas as respostas sobre do que isso se trata, parecem as respostas que dão sobre coisas ligadas a espiritualidade, na qual a resposta final é "é Deus" - o que não responde nada, pois vira questão de fé; me parece que acreditam muito que ao ser verdadeiro, você se torna automaticamente feliz, mas isso não me parece ser verdade; ser autêntico e ser feliz, são coisas diferentes, e acho que ser verdadeiro pode lhe trazer bastante tristeza, algo que talvez por saber de forma instintiva, e por sabe-se lá por que caralhos me dava algum tipo de medo, me ajudou a ser um enganador em tempo integral, especialmente pra mim e pra quem estava mais próximo. Talvez eu sequer exista, e todo esse sofrimento, a bagagem pesada nas costas, essa sensação de uma faca perfurando meu peito, num momento, e de duas mãos vazias aguardando a água em outro momento, semana após semana, não passe de uma brincadeira de mal gosto; tudo em vão: sonhos, feridas, Amanda, Dayane, mãe, música; imagina se tudo não passa de uma simulação ou apenas um tipo de sonho mesmo. Às vezes acho que se algo me levará a um óbito precoce, são esses sentimentos. Eu olho pra chuva, lembro e lembro e lembro; o nome dela é como água percorrendo um rio dentro de minha cabeça, mas meu coração parece um pote vazio de vidro, que não consigo encher, apesar da chuva que está fazendo agora.
Chego em casa, está tudo sujo; não passeio com o Darwin faz dias e os potes de ração estão vazios; a Melinda, minha gata frajola, sobe em minha mochila; na lousa, escrito "eu me amo/eu te amo A.G."; calendário, lista de exercícios, um post-it com uma frase motivacional que ganhei dela na época do meu melhor emprego - ela colocou junto com minha marmita, antes de sermos vizinhos, numa noite de quinta-feira, provavelmente. 'stou em certa paz relativa, mas esse vazio é imenso.
Toda noite desejo que ela tenha bons sonhos. Toda noite desejo que isso seja reparado. É uma sensação única, se sentir vazio e cheio ao mesmo tempo, como as mãos que mencionei, aguardando a água da fonte. Eu fiquei com sede tanto tempo, que quando caiu água em minhas mãos, não notei; e agora, passo sede por displicência. Eu espero que essa chuva seja o prenúncio de que apesar da escassez, haverá água em breve.

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