24/Novembro, quarta-feira
São quase 03 da madrugada, a rua está deserta, e venta como se estivesse em 2019 de novo. A um ano e uns dois ou três dias atrás, estava no estúdio e te ajudei a montar sua bateria - eu o fiz meio que correndo, pois ia pro trabalho na seqüência; acho que na semana seguinte, você me ensinou um ritmo básico na bateria, e nossa, como fui ruim naquilo! Eu te disse que os dois melhores amigos que tive na vida são bateristas? - nesse dia, devo ter ficado menos que meia-hora lá; nos despedimos com um beijo breve e um abraço apertado, e te desejei um bom ensaio. Eu estava feliz, foi após nossos piores momentos, e parecia que tudo iria ficar bem, mas não sou alguém muito inteligente quando se trata de relacionamentos/afeto; dizem que o primeiro passo pra mudança é reconhecer, mas caralho... Precisava ser com você isso?! Sério?! ... Penso em todo esse tempo como um "Ontem", afinal eu tenho que ser um pouco otimista, e acho que ao menos nisso, eu posso por um pouco de risada, não? Tudo está uma mistura de suspense com "horrível" - e que coisa engraçada, parece que isso, esse dia, foi a um milhão de anos atrás também; eu lembro que eu costumava matar formigas, aquelas da parede que vinham pegar o café e o biscoito doce (eu ainda ouço sua voz dizendo a frase "eu não como sem bolacha doce", numa certa manhã; não foi grosseira, foi "doce e seca", do seu jeito, mas eu descobri que tenho uma regra besta que diz que se eu gosto de algo/uma atitude, de alguém que eu gosto, devo guardar, e só falar em ocasiões especiais. Raramente elogiava colegas de trabalho, estudo ou moradia. Devo ter puxado de meu pai, por mais que desgoste disso: eu nunca o ouvi dizer pra minha mãe 'nossa Rose, você está linda!'; já ouvi pelas costas, eu acho, ou depois de morta, nunca na frente. É triste ver como somos similares a nossos pais nesse tipo de coisa, não? Eu nunca havia feito essa reflexão, até você ter aparecido e desaparecido. Meu pai só reconhecia a bonança na desgraça, em contraste, como se o terror fosse a luz que iluminava e deixava as coisas boas visíveis; tentei, tentei fugir dele, mas acho que ele é forte demais. Bom, toda ocasião é especial, e isso é umas três vezes mais verdadeiro quando relembro de você, você tem as qualidades que pedi numa Companheira e não, não 'stou inventando isso, apesar de minha psiquê nesse ponto ter certo aspecto de criança; sabe, olhando agora, em perspectiva, comemorei quase nada com você e a pus num lugar que não merecia, escondido e pouco cuidado), e me lembro que você me dizia "que não matava nada, exceto pernilongo"; hoje, passados meses, eu entendo; eu, assim como você, entendi, e agora eu também não mato nada. A rua está cheia de formigas aladas, está quente, e é época de acasalamento - eu ainda tenho aflição da sensação de muitas delas caminhando por minha pele: hoje mesmo, vendo algumas dezenas delas dançando ao redor do poste de luz, isso me deu certa aflição - não sei explicar, mas isso me causa tanto medo quanto um domingo vazio. Eu as observo contra a luz, dançando em espiral; se você não prender muito a visão, cada uma delas parece um feixe vivo, como uma fibra óptica num comercial antigo de TV. Eu gostaria que cada uma delas fosse um milagre, ou um dia nosso, mas refeito, reescrito, bonitinho, sem palavras guardadas, e com mais cuidado, carinho. Saca? - Quanto aos domingos de desespero "oco", eu não sei dizer se isso começou aos 16, pouco mais de um ano após a partida de minha mãe, ou se foi aos 17, mas os domingos se tornaram insuportáveis pra mim; eu não tenho certeza sobre isso, novamente, mas não sou alguém que tem exatamente algo como "medo" do vazio, eu o respeito; no entanto, a partir de certa época, algo entre as idades que mencionei, quando me encontrava solitário nesse dia, domingo, especialmente durante a tarde, e saía de casa, tudo fechado, a sensação era maior que apenas de medo ou vazio: era algum tipo de opressão; tudo era pesado, e a realidade parecia uma prisão falsa, mas ainda sim uma prisão; eu acho que foi isso que me levou a trabalhar em lava-rápido, e de lá pra pizzaria, e de lá para museu e de lá para pub, shopping e pub de novo, de forma que eu nunca ficasse com uma tarde de domingo desocupada. Essa sensação é tão insuportável, que houveram dias nos quais ela passava em branco, disfarçada no meio de meu sono, espreitando meu despertar. Será que você tem sentimentos parecidos? Tanta coisa importante que deixei de perguntar, e agora meu coração se afoga em palavras guardadas. Lembro que a D., minha primeira Companheira "a sério", odiava o fato de ter os domingos ocupados por um trabalho, sendo que havia ela e a igreja, duas coisas que poderiam fazer frente a isso; e bom, eu a entendo perfeitamente - mas mesmo com ela, ainda tinha medo disso. Com você, esse medo passou de certa forma. Incrível não? Ainda não entendi tudo, sou um homem lento, mas tem um esboço de resposta do porquê, isso foi assim aqui dentro, iluminado pouco a pouco ao longo desses meses. Acho que nunca disse, mas era comum eu estar semi-desperto, e minha mente repetir "preciso de ajuda, preciso de ajuda, preciso de ajuda...", era infinito, o corpo doía, as pernas e braços em particular; a ajuda veio, e ela atendia pelo seu nome; depois que nos estabelecemos, isso cessou totalmente, mas eu me tornei um folgado, me tornei pior; agora que você não se encontra mais tão perto quanto (eu) gostaria, muitas vezes o que minha mente repete agora, é seu nome, e o que dói são meus pulmões e coração - às vezes, lembrando de nossa primeira viagem em 2019, eu lembro do terminal rodoviário, o clima nublado, a vista da orla, e então eu respiro e sinto as paredes dos pulmões doerem no ponto no qual a inspiração está mais alta. Agora que você se foi, finalmente colocaram em nossa antiga rua a placa indicando que essa é uma rua sem saída, o que é parcialmente verdade, e verdade total, caso você seja um carro - ou ao menos, é a primeira vez que noto essa placa, como um monte de coisa que demoro a conseguir enxergar.
O som das formigas me lembra chuva, e isso me dá arrepios; elas se afastam da luz em nuvem, e quando olho, me lembra uma constelação; ainda 'stou do lado de fora olhando a lua, é madrugada, e ainda lembro do som de seus passos subindo as escadas - ainda tenho seu DVD de "Lucas no Formigueiro", que você disse que eu deveria assistir, e infelizmente, não vimos juntos, ou ao menos não lembro disso; quando fui ver suas coisas, e reparei que sua caneca do Queen estava comigo, fui pegar o DVD, e ele estava infestado de formigas - isso na ocasião, também me deu medo, e pareceu algum tipo de mal agouro; mas limpei o DVD, lavei a capa de plástico, e o guardei, aguardando A Noite dos Escolhidos até então.
Desde pequeno ouço que a vida é um livro, um navio, um trem, uma benção, uma estrada, uma peça de teatro sem ensaio, uma jornada, uma missão, uma brincadeira, uma mulher promíscua, que só quer que você passe a mão nela e mais um monte de adjetivos; que ela é pra frente, é cíclica, boa, irônica, cômica; mas até aqui, quando ponho a mão na cabeça, não acho que seja nada disso, não acho que exista alguma palavra que possa descrever esse fenômeno, ou algum adjetivo que possa fazer sentido, sem que em protesto apresente uma evidência contrária. Se me permite contrariar o que disse antes, a vida pra mim até aqui, é algo estranho; não quero ser um falso humilde, mas acho que nada que meus miolos possam cogitar, dará conta de resumir o que isso tudo significa. Mas até aqui, a vida contém coisas lindas, tão belas que hipnotizam - e contém falta, muita falta: muito espaço vazio. Eu não tinha reparado, são muitos fenômenos ao mesmo tempo, e como já disse uma centena de vezes, eu estava acomodado - mas durante os dias que compartilhei contigo, essa sensação meio que sumiu, e se tornou mais suportável para mim. Eu gostei muito, apesar de ter sido um ingrato. Obrigado por isso A. .
Tive um sonho - sim, de novo sonhos - em 2004; quando achar o caderno, se ele tiver a data precisa dele, irei pô-la aqui; tenho ele anotado ainda, o caderno está em algum lugar - nele, eu esfaqueava meu pai, pelas costas, num cômodo minúsculo e escuro, provavelmente uma casa de força e registros, e dizia pra ele "que eu sofra três vezes mais que você"; eu tinha 16 anos quando sonhei com isso, e foi a partir dessa idade que comecei a anotar meus sonhos; a impressão que tenho é que quis tanto entender as dores de meus pais, de meu pai em especial, que isso veio até mim. Hoje, tenho certeza que a dor e remorso de meu pai, tinha algo de parecido com o que sinto nesse momento em relação a você. É uma dádiva assaz estranha, um presente doloroso, uma benção a espera de um milagre - mas lembra da metáfora de bicho marinho, de quando nos conhecemos? Na ocasião você se comparou a uma ave marítima - pois bem, tem alguns que transformam toxinas em coisas boas, como calor, ou areia e sujeira em pérola. Acho que de alguma forma, tenho tentado fazer algo análogo, com minhas falhas, dores, pecados, erros, etc, etc. Deve sair algo bom disso tudo. Estar com essa sensação, e com você viva, é um tipo de tortura, um tipo de celebração da ausência: não posso tocá-la, fui afastado como um pária; no momento no qual entendo as coisas, tudo parece distante e até quase impossível; isso soa como uma festa de aniversário para uma pessoa morta, uma canção de amor para um coração desencontrado.
Pra você parece algo corriqueiro talvez, mas, especialmente depois que você me escreveu "pessoas vão e vem, me trate como uma lembrança", aquilo me deu um estalo e parei pra tentar rever minha vida nesse ponto em específico; e acho que infelizmente, sei disso melhor que você, com mais propriedade, diria. O que você disse pra mim, não parece se aplicar em sua própria vida: pelo que convivi, apesar de sim, você ter sido vítima do espírito da espera (eu mesmo a fiz esperar demais por mim; me perdoe, não enxergava o que enxergo hoje, e não tinha dimensão do quanto isso machuca); você tem amigos antigos e relativamente presentes, consistentes, além de parentes e pais. Eu pensei, por quê que todo mundo vai embora? Eu não entendo isso! No seu caso em particular, sei, eu agi mal, você não tem obrigação de ficar, mas eu não entendo: Ninguém fica. E houve perdão, ao menos tentativa - no entanto, olhando com criticidade, me faltou por uma régua: "hey, vamos contabilizar as coisas desse ponto em diante, já que tivemos essa ruptura a pouco? O que você acha disso? Uma perspectiva nova, pra fazermos diferente, já que agora conhecemos as trevas um do outro?". Sabe, acho que ouvi demais "o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído". Ouvi essa música até a exaustão durante a doença de minha mãe; eu era um aluno exemplar, meus amigos pareciam eternos, e a casa vivia cheia deles. Hoje não tenho nem a mãe, nem os amigos de 2002/2003, nem terminei a escola sequer, eu que sempre fui apontado por alguns como "promessa" - e você sabe minha querida, como sou ruim com promessas. Essa droga de música é uma mentira, eu devia ter desprezado as palavras bonitas dela: talvez, se tivesse ouvido com mais atenção outras coisas, nesse período de grandes esperanças, eu teria me tornado alguém menos aéreo, displicente. Mas se o fosse dessa forma, não teria conhecido você talvez. É difícil por isso em perspectiva: se minha vida pudesse ter sido melhor até aqui, em troca de conhecer você, qual escolheria? Terminamos de uma forma muito triste, mas na balança um Caminho e uma Pessoa, qual pode pesar mais? ... Eu acredito que uma pessoa pode ser uma "casinha", mas você tem que ter responsabilidade para tanto, e se tem algo que eu não tive com você, foi responsabilidade. Não fiz o dever de casa, e não estava assim tão difícil. Isso dói pra caralho, e essa dor me nutre de alguma forma, o que é bizarro, mas se essa dor diz respeito a você, preferiria passar fome pra sempre. Eu não entendia nada disso, nem refletia essas coisas. Lamento por ter ocorrido dessa forma.
Se me fosse dado um pedido, gostaria que você não fosse embora, A., que estivesse por aqui ainda, e agora, fazendo planos juntos e eu dando de verdade meu quinhão; mas eu não tinha essa sabedoria desperta; eu só quero que tudo dê certo, e bom, eu me importo com você e com a situação toda, mas não tinha a compreensão do que estava acontecendo; de certa forma, eu estava alienado de mim. Escrevo com sono e fome em suspenso; penso e penso, e só de meditar nisso, de cogitar as coisas mais tristes e as mais felizes, me encontro acordado. Na verdade, eu tenho bastante medo: do que vai acontecer, das pessoas, dos eventos; tenho certo medo de ir cedo, como fora com minha mãe, e puxa, se esse for o caso, o meu "eu fictício" que morrerá antes dos 40 está extremamente triste por não ter passado mais dias com você - eu sei, é uma brisa, mas é um de meus medos; ou de nunca passar de um projeto falho, como meu pai, um cara com talento e entrega, mas desequilibrado; o que vai acontecer comigo? Eu sinto tanta saudade, meu coração aperta e cada pulsar se torna tantos nós, que mal consigo ver por onde posso começar a desatar; mas também não é justo tudo a qualquer custo. Existem limites pras coisas. Eu quero te ver, e trocar algumas palavras que não sejam "eu acho" e um "eu não sei" esquivo. Você conheceu uma versão ruim de mim, e eu me sinto culpado com isso, de não ter dado a sala da lareira pra você; mas também é verdade que não esperava que você fosse assim, tão a fundo, e acabei por te dar algo que não merecia: a parte de pouco brilho e dissimulada, como uma sala de espelhos; mas há mais cômodos nessa casa. Se não for pedir demais, gostaria que você pensasse um pouco nisso.

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