Wave of Anguish

 



(05/Nov/2021)


Venho, caminho

Lembro, relembro


Fazem pouco mais de dois anos, 02/novembro/2019, estava no Parque da Água Branca contigo, e você me contou uma história sombria sobre o Freddie Mercury e o Marvin Gaye. Na época, não entendi bem o que você queria dizer com aquilo - olhando em perspectiva, você se considera uma mulher de alto valor, me parece, e 'stou longe de refutar isso - será que você quis dizer que era/é para os caras, tal qual essas Companheiras para os personagens que citou? - bom, de qualquer forma, eu odiei trabalhar naquele dia, queria ter passado aquele dia cinza inteiro com você - você se lembra que faltou energia elétrica e não consegui comprar o crepe que eu tanto queria?; Veja, A., o tempo não é pra trás ou pra frente, como parece acreditar; ele é uma espiral, ou uma árvore (crescendo pra baixo e pra cima ao mesmo tempo); você se lembra que no mesmo 2019, uma pessoa que gostava de ti também partiu? Eu lembro de seu relato, que ele a viu de relance, e pareceu querer falar contigo; o imaginei olhando nos seus olhos claros, uma brevidade de tempo. Uma última vez, antes que soubesse, e algum tempo depois, ele partiu. Será que agora eu sou o simulacro dele? Você a "reconstruir", e eu a arrumar as malas? Você deve estar ótima, logo, será que a história está a se repetir, mas dessa vez como farsa?


Eu não tenho nenhum orgulho de ter  machucado seu interior. Você sabe disso. Mas eu não era maduro, e você sabe disso.


Todos os dias, só penso no quanto eu gostaria de ter uma nova oportunidade, uma chance pra reconstruir, nem que fosse, não do "zero", mas do "menos um", o qual, acho que seria meu caso. Você está em outra vibe; minhas palavras não a tocam, meu sofrimento, não a comove. Se eu viesse a falecer hoje, pelo que parece, você só sentiria o que isso significa, daqui uns três anos, talvez dois. ... Uma pessoa veio hoje pra mim, e ao falar de você, disse que no fundo, você sente minha falta - algumas cervejas depois, ela disse que mentiu, que gosta muito de nós dois, mas que crê que com você, nada é possível mais. Minha casa está suja, meu ânimo oscila; sonho com você toda semana, vezes são coisas boas, vezes sonhos horríveis, como aquele no qual eu vi você olhando para o espírito de minha irmã, e dizer "não quero"; no mesmo sonho, eu caí no chão de joelhos, após ver a cena. Como eu arrumo isso? Ou devo providenciar um jazigo, para meu coração de porcelana? Dizer, finalmente, o que sinto, e como me sinto, me torna menos apto, ou menos "homem", ou menos protetor, que seja? Não é irônico, que justamente agora, que você não está aqui, esteja eu em meus dias não-ausentes? Até parece que funciono ao contrário.


Todos os dias, peço que seja eu guiado, até que consiga ser algo melhor; todos os dias, peço com humildade que minhas falhas sejam lavadas. Será que foi uma falha tão grande assim? 'Stou a pagar caro demais? Sei que mulheres não gostam de homens carentes, mas não vê que 'stou ficando árido por essa situação? Eu pedi aos Céus um sinal, e essa pessoa vem e me diz "sai dessa, vai pra outra". Eu sei que as coisas não devem ser do meu jeito, do jeito que "Eu" quero, mas caraca... Qual coisa nessa vida foi do jeito que eu queria? Você conhece meu coração, no nosso final, te relatei alguns dos problemas pregressos, e você disse "Lucas, você nunca me disse isso"; eu não consigo me lembrar de algo que foi do jeito que eu gostaria que fosse. Será que ao menos isso, esse caminho que quero traçar até refundir as coisas, não poderia ser? Pelo menos isso? Quando acordo, lembro de seu nome, ao dormir, lembro de sua cintura em meus braços; sua voz de (falsa) contralto, macia, dizendo que precisa dormir. Eu lembro de um sonho, no qual décadas e décadas atrás, você era bem mais nova que eu, estávamos vestidos de preto numa varanda - você parecia chateada comigo; eu parecia não entender direito como conduzir as coisas. Será que isso foi real? Será que já nos encontramos antes? Ou 'stou a ficar louco?


Uma ex minha disse que eu morreria sozinho, isso fazem oito anos. Falhei com ela também; - mas que palavra poderosa, que frase poderosa; será que isso é verdade? - não sozinho literal; todos morrem literalmente sós, mas no sentido afetivo; morreria sem ninguém, segundo ela. Será que suas palavras foram fortes a esse ponto?


Tudo que mais quero, é que isso dê certo. De longe, esse é meu maior anseio. Não me orgulho de ter falhado, muito pelo contrário. Fui injusto, agi mal. Só quero reescrever isso.


Acho que tanto você, quanto eu, somos "personagens" interessantes, e que saiba, todo bom livro, merece mais que um ou dois capítulos. Nosso "livro", nesse caso. Nossa história não começou da melhor forma, é verdade, mas sinto que pode terminar muito bela. Quero poder reescrever isso.


...Eu não entendo... Eu ouvi você se lamentando por perceber que eu 'stava ('stou), arrependido de verdade; a julgar pelo tom de sua voz, algo mais genuíno do que ouvira antes; cada lágrima que derramo é por você, e muito provavelmente, você sabe disso. E eu fui cerceado, como algo que nunca foi significativo, como se eu fosse um Erro. Não entendo isso. Sinto sua perspectiva, mas não entendo. Quase toda noite, passo próximo do bar no qual tivemos nosso primeiro encontro, e eu lembro: lembro de ter te mostrado Children of Bodom, e no painel, com o nome de algumas dezenas de bandas, você me perguntou "quais eu chamaria para fazer um show"; eu lembro que sua mochila, que você tanto gosta, está se gastando, e que naquela noite, eu perdi seu piercing do umbigo, e que você me mostrou a Serra Malte, que até hoje, sempre que a vendo no pub, cada vez que isso acontece, lembro daquele dia de Fevereiro 2019. O preço que pago é segurar tudo isso, sem perspectiva de reparação?; Será que sou tão incapaz assim?; É lembrar que no bar no qual trabalho, e onde nos conhecemos, você ficou ao meu lado por mais de cinco minutos, enquanto o estoque era feito? ... Eu não entendo. Parece que regredi, de alguma forma. Dois de Novembro, 2019, Marvin Gaye e Freddie Mercury, duas histórias de amor trágicas, que você me contou: a de um "cachorro", que teve UM grande amor e a de um que apesar de gay, o amor da vida foi uma mulher; e hoje tocou Queen no bar; eu devolvi sua caneca da banda, e você nem me disse um "obrigado". Três, três histórias, se for juntar minha mãe, que nunca teve um companheiro - meu pai era encarnação da ausência e mais uma miríade de defeitos, como instabilidade, ciúmes, controle, violência... Minha mãe foi embora muito triste, mas tenho certeza, que aliviada também. Talvez o destino dela não tenha sido tão ruim assim.


***


(31/maio/2021)

   Meus textos são infinitos e a cansam, nada do que falo parece a tocar ou deixar seu coração mais mole - "não tenho feedback sobre", você diz; eu só sei "lamentar, lamentar"...

   É verdade que quem está certa é você; eu quebrei sua confiança, cometi erros que a machucaram - tanto na estima, como na base do que você tinha como nossa relação. Ainda sim, não entendo: após o ocorrido, você foi mais fundo que qualquer pessoa. E isso por meses. Me fez rever coisas que estava adiando, na marra quase; viu meu pior lado, e permaneceu. Mais que isso, viu meu pior lado e ficou, e nisso foram meses; parecia que finalmente tinha alcançado a luz, e que dessa vez, haveria perdão entre nós, pelos erros cometidos. Mas não, você me deixou quase aberto e foi embora. Me senti o Johnny Lawrence, que dá um passo pra frente e três pra trás. "Seja maduro, e viva com as conseqüências de seus atos"; eu não cometi crime. Eu me sinto culpado todos os dias, desde nossa primeira conversa sobre o que fiz de errado; fiz coisas espirituais que você pediu, e você viu minhas fragilidades e expliquei os porquês todos. Por as mãos na cabeça todos os dias, e sentir dor; quase todos os dias, cogitar em ir embora (e correr o risco de ser chamado de egoísta por isso), toda noite, não existe mais a possibilidade de bater na porta de número 09 e você abrir. Toda noite, 'stou só, sem chance de subir e ver seu sorriso me aquecendo um pouco. 'stou nessas dores a meses. A conseqüência do que fiz é, além de ter o perdão revertido, ter que segurar essa dor por todo esse tempo? Que tipo de pessoa sairei dessa situação, se sair?

   Não mastigo nada faz dias. Ao pensar em mastigar, meu estômago embrulha. Não consigo comer. Quase todo dia cogito ser uma boa idéia dar um fim nisso. Toda tarde quando 'stou acordado, boto a mão na cabeça e olho a cadeira na qual você sentava, vazia. Eu que sou quase ateu, me pego falando que se isso é uma lição ou castigo, de alguma divindade, eu já entendi a lição. Não precisa estender, eu realmente já entendi. Não tem como você ter duas vidas ao mesmo tempo; se você quer trilhar um caminho com alguém, TEM que escolher. Ao querer ter tudo, realmente, eu fui imaturo, eu entendi. Mas dada toda a situação, me parecia que tinha luz pra nós, que iria respirar aliviado. Mas não: em janeiro, depois de dois dias felizes, um dos quais pela primeira vez, consegui desmanchar sua expressão severa para comigo, brincando, com humor e leveza, teve início esse pesadelo. Quanto tempo passarei pensando nisso, até pirar, ir embora ou ficar apático? Isso é conviver com as conseqüências? Não é melhor ir embora, ao ficar e ser deformado por essa dor?

   Quase todo dia torço pra que isso seja um daqueles filmes do Adam Sandler que você me mostrava, no qual após o tormento, tudo dá certo, e sempre há uma nova chance. Dizem que a vida é cômica, e talvez seja; mas isso já está a ficar um pouco sem graça.

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