07/Janeiro/2011, Sexta-feira 


   Só espero que dê tudo certo esse ano. Sabe, há muita expectativa, mas há muita desolação também. Espero tornar-me um homem melhor; talvez esteja sendo hipócrita, mas que Ele me ajude - tenho que me dedicar mais a (ela) também.

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07/Janeiro/2014, Terça-feira


   O breve texto acima, tem três anos. Ela em mais de uma vez me elogiou e deu-me como atributo, a dedicação; no entanto, não sou dedicado - dedicação é um atributo dela, não meu, e talvez esse um dos motivos pelos quais mais goste dela. Quero ser mais dedicado, sempre quis, mas parece que é algo não natural em mim. Talvez daí a rigidez que afirmava notar nela: alguém dedicado, rijo, nunca compreenderá certos comportamentos ou flutuações. Hoje sofro; meus miolos se debatem como crianças cancerosas com convulsões, parece que um hemisfério toma distância e se choca com o outro. Coração estrepado, pele sarnenta, pés carcomidos. E então eu bebo minha dor, sorvo gota a gota até que o cálice esteja vazio. " - Aqui está um cálice, 'O' cálice: a própria perdição, a própria loucura".

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   Aguardar, melhorar, meditar, andar, transformar; seu sorriso continua o mesmo (?), você pareceu-me grávida ou foi impressão? Lá estou como sujeito oculto nas fotos excluídas, nas lembranças despedaçadas, dias embaçados - em cada palavra não dita; ora, tudo vai para algum lugar, para onde fui quando você jogou fora os cacos, onde estão esses cacos? - Pessoas são feitas de lembranças. E falsos discursos.

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21/Janeiro/2022, Sexta-feira

   O vaso, o laço. As pessoas não escolhem as palavras que usam para designar as coisas por acaso: se você usa a metáfora de algo sólido como um objeto assim, de vidro ou cerâmica, significa que uma relação pra você é uma forma que segura o conteúdo; e uma vez que a forma se quebra, como você irá conter o que quer que seja? Possivelmente, tal qual Tereza de "A Insustentável Leveza do Ser", se trata de alguém pouco ou nada afeito a modelos alternativos: uma forma têm que necessariamente suportar o conteúdo, é quase uma barragem para o afeto.

   O laço ainda 'stou a estudar, mas um laço amarra algo garantindo a segurança para que essa coisa não se solte, pode ser uma âncora, um tênis ou um presente numa caixa, garantindo que a surpresa seja uma surpresa. Um laço também serve para unir duas coisas relativamente distantes, ele tem uma aplicação muito variada: numa arma como uma boleadeira ou kusarigama, num guindaste entre peso e contrapeso. Sem pensar muito, ele é algo que se preocupa com o quão útil a coisa feita o é, ou quão "operacional" o laço está sendo. Esse signo, suponho, se preocupa menos com a capacidade de guardar afeto e mais com o equilíbrio desse. Um bom laço prescinde de equilíbrio de forças. Eu ainda não consegui identificar qual signo uso mais, mas mesmo que ache, pensando friamente não me considero experiente o bastante para dizer as vantagens e desvantagens de algum modelo, caso seja diferente desses dois, que exista dentro de mim. Sem pensar muito, novamente, afeto tem a ver pra mim com observar, é algo mais como um hábitat, algo já estabelecido; já ouvi que deixar uma pessoa querida na casa sem ficar interagindo com ela, é uma forma de egoísmo, mas eu lembro de amigos que tive que se comportavam assim, e eram muito queridos: não é justamente por você apreciar a presença da pessoa, mesmo sem lhe dar contrapartidas verbais ou de alta interação, um sinal de que a pessoa lhe agrada em essência, apenas por ser, e não algo em execução, ativo? Ainda 'stou a estudar isso.

... Sobre laços, todo laço pode se valer de nós ou se fechar em nós. Houve no passado quem dissesse que a coisa mais fundamental no espaço, na física, são nós (eu ADORO, essa palavra: pode designar o objeto ou pode ser a primeira pessoa do Plural; com efeito, um tem ligação com o outro, em certos contextos; e ainda há quem ache Português chato), ou seja, laços enrolados em si mesmos. Eu não sou um bom fazedor de nós, mas curiosamente, desde pequeno tenho um fascínio em desatá-los: desde novelos de tricot e crochet de minha mãe, até barbante das caixas de quando trabalhava como monitor cultural. Eu achava isso uma característica legal, e pode até ser, mas simbolicamente, transferindo para o amor, me parece a porra de uma maldição. Houve um momento, setembro/2021, talvez, tentei pela 4ª vez fazer bons laços e nós na porta para que meus gatos não fugissem. Usei sacolas plásticas enroladas finas, para dificultar de roer, fita adesiva, pano, papelão... NADA que fiz foi eficiente. Então fizeram, com barbante, após um momento de revolta; demorou menos de 45' ("segura os gatos, EU faço isso!"), e não foi um fechamento, uma obstrução completa da fresta da porta; não: tem espaço para o ar, e está intacto até hoje. Como isso foi feito? Várias vezes olho para esse detalhe da porta, desde o começo, e tenho admiração. Eu não sei fazer isso; como fez isso?! Só uma aranha teria feito algo melhor; jamais vi laços tão "sólidos", se é que posso usar isso como adjetivo para me referir a laços e nós. Agora entendo como na mesma música, "Cure" do Tristania, "teia" e "cura" podem estar no mesmo contexto, e agora entendo porquê isso é um atributo feminino, e não de qualquer feminino, é um feminino advindo menos da água e mais do fogo, tanto que foi feito nutrido d'um ímpeto de indignação, como se dissesse: "Incompetente!!"; isso é como uma Lilith. São laços tão fortes, que mesmo de longe ou rompidos em cessões, é tentador transformá-los em nó corredio. Tal é Lua Crescente, eu, Minguante. Literalmente.

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