"A morte e a vida estão no poder da língua; o que bem a utiliza come bem do seu fruto"
Eu não sei até que ponto é uma boa idéia contar sonhos seja no lugar que for, salvo o divã, ou para uma pessoa querida. Eu não lembro onde ouvi ou li algo como "quem sabe seus sonhos lhe detém", coisa nesse sentido; claro que, qualquer indício que uma pessoa deixa ao longo de sua trajetória, pode vir a ser algo usado pra manipular ou entendê-la; ontem eu estava ouvindo um podcast, e a convidada do programa relatou sobre uma pessoa muito ligada ao "plano espiritual" - segundo ela, essa pessoa é como se estivesse sempre mais com os mortos do que com os vivos; minha vida é bem desorganizada, ou ao menos, era, mas quando eu parava um pouco pra refletir sobre o que eu gostava aqui dessa existência, dormir e principalmente, sonhar, sempre estiveram no pódio, como se em algum lugar, eu também estivesse mais pra esse "outro mundo" do que aqui, no plano das pessoas que acham que estão acordadas - lembro de conversar sobre isso com minha amada A., nunca na profundidade merecida, no meu tão amado também 2019, mas não consigo me lembrar de cabeça dos sonhos dela - na verdade, pouco pergunta sobre isso, assim como pouco perguntava sobre muita coisa que antes e após ela sempre me foram relevantes; quando olho em retrospectiva, houveram anos/períodos muito importantes nos quais habituei um tipo estranho de sono, desprovido de sonhos e/ou sensações. Hoje entendo, que conheci uma pessoa maravilhosa numa das fases nas quais estava desconectado de mim, de minha psiquê e suas camadas mais subterrâneas, nas quais correm tanto as águas turvas que escondem os monstros, como os lençóis freáticos e os gêiseres, que nutrem as florestas e aquecem a superfície. E não é a primeira vez: durante minha graduação em História, abandonada na metade, viciado em videogame, num emprego que não remunerava bem o bastante pra suprir alguma necessidade de futuro, sem planejar coisas, seja no campo financeiro ou como estudante, eu era um homem que literalmente só vivia o presente, logo, era um homem de "uma dimensão só". Ah, também era um Companheiro aquém daquilo que poderia ser, embora olhando para trás, eu conversava bastante com a D., minha Companheira na época; havia um bom trânsito de idéias e troca intelectual, ao menos eu sentia isso; ela era e é certamente, alguém de inteligência muito avançada, e nos falávamos com freqüência, embora nas ações, houvessem desequilíbrios; mas o ponto é que essa "ponte sem sonhos", que durou de meados dos 23 até meus 25, e se repetiu dos fins de 31 até pouco após os 33 completos, era uma forma não boa de viver o presente:
conheço algo de Zen, mindfullness e a atual pregação sobre o "poder do presente", e não, não ponho a eficácia disso em xeque: por não estar íntegro no cotidiano, não reparei o quanto era abençoado, fosse pelo amor, que puxa vida, sempre considerei e considero algo tão importante pra mim, mas que ao que parece, esqueci como pedi por isso; fosse em outros campos da vida, mas digo que há outra forma de "viver o presente", essa menos nobre: é a forma animalesca, do viver com o que se tem, sem planos ou expectativas e propostas para os momentos seguintes. Ao viver assim, como um tipo de animal, a vida vai perdendo suas dimensões, e então acaba por tornar-se plana, sem profundidade ou espaços nos quais a imaginação e afeto possam se movimentar. Não me parece, pelo que passei até aqui, uma boa forma de "viver o presente" - talvez o fosse para algum ancestral meu, a mais de 10 mil anos, no qual apenas a sobrevivência importava, mas aqui, nesse momento, em meio a tantas palavras e sons, com tantas pessoas, é como pedir pra que tudo dê errado; e o dará, pois não é uma forma compatível de lidar com a vida fora d'uma situação extrema. Acredito que por conta desse "achatamento" da alma, os sonhos desapareçam durante esse tempo; se faltam sonhos ou sensações advindas da navegação onírica (ante a ausência de recordações), é porque algo mais profundo, e portanto, mais interno e basal, está a "passar fome".
Como já relatei em outros textos, algumas de minhas memórias mais antigas são sonhos, e os anoto ou gravo o áudio com alguma freqüência. Aos 16, tive um muito marcante, e o anotei com alguma riqueza de detalhes. Eu não acho que contar essas coisas me levarão a algum lugar especial, não tenho essa expectativa; o que penso de quando em quando, mas ainda não elaborei uma resposta, é sobre "quem eu quero ser quando morrer". Tenho um tipo bem estranho de paixão pelo tema, e não, não acho que isso se resume a egoísmo ou coragem ou o que for. A única questão filosófica relevante em nível imediato é se o suicídio é algo válido ou não, sem moralismos ou doutrinas, li certa vez. No entanto, falecer é algo muito caro pelo que pude constatar durante o ano que passou (2021), e eu odiaria olhar "quem eu me tornei quando morri", e reparar que mesmo morto, dei trabalho, como se ter dado trabalho em vida, para pessoas que amei não tivesse sido uma tortura mais que suficiente. Sendo assim, cada coisa no seu tempo, e talvez relate alguns sonhos como algum tipo de laboratório ou experiência ou confessionário. Já ouvi que "quem está com as horas contadas nada tem a esconder", e de certa forma, há esse "morto" aqui, que voz escreve - não não, não sou tão arrogante a ponto de querer bancar o Machado de Assis, com suas Memórias Póstumas, mas eu acho isso aqui curioso: não sou grande leitor, mas li alguns clássicos; enquanto Borges, o argentino vai em direção ao fantástico do absurdo ou daquilo que é extraordinário seja por um tipo de capacidade mental estonteante ou num "tocar de dedos" com as mitologias antigas e clássicas, um brasileiro, como eu, fala do lugar de morte, de observar e avaliar sua existência quando nada mais é possível fazer sobre ela, como um jogo perdido ou empatado de futebol - e aí para nós resta um tipo de "pragmatismo espiritual", que busca os entes nos Terreiros e Centros Espíritas ou, tratar como algo trivial, comum, quase esquecível após realizada a Missa de 7º dia. Nós não respeitamos nossos mortos, talvez em partes porque para nós os vivos, são como posições num campo de futebol, são substituíveis; e não me parece que outros povos agem assim, a despeito de uma suposta rigidez, frieza ou o adjetivo que for. Quando li Kundera, Dostoiévski, Safran Foer, Stendhal, entre outros; quando ouço My Dying Bride ou Swallow the Sun, a partida, a morte, sempre parece algo cheio de algum tipo muito especial de solenidade, que por aqui, e falando com as pessoas, pouco noto (ou 'stou apenas viajando, e não tenho uma noção lá muito precisa da realidade). A frase "os latinos não brasileiros têm um 'senso de fatalismo' que nós não temos", ecoa até hoje em mim, provenientes da boca de uma instrutora da Bienal que teve a oportunidade de viajar e conhecer os países vizinhos. E voltando aos sonhos, mas sem deixar "a morte" de lado, me toca muito a imagem, o símbolo de minha Amada, com sua tatuagem, inspirada num filme que tem como tema morte e esquecimento/lembrança (embora toda a aventura do protagonista, ao despertar, teve o aspecto de sonho. O sonho é o mais próximo da morte que podemos chegar em nosso dia-a-dia). Eu poderia partir, claro, após ter cumprido algumas metas, numa noite: meu coração me aparenta ser um tanto frágil, apesar de meu corpo no todo ter alguma resistência - poderia ter uma parada cardíaca enquanto fazia amor com Ela, e eu estaria nos braços (ou antes pernas), da morte, a tatuagem de caveira como arauto - mas até aí, já teria contado e espalhado meus sonhos pela Terra, então poderia olhar com alguma satisfação para aquilo que fiz durante minha trajetória, e como diz The Trash of Naked Limbs, e seu majestoso violino fazendo as vezes de guitarra solo, "I could die now, and die happy" ...Imagino isso, porque as mortes não parecem ter o mesmo significado que algum lugar em mim insiste em apontar que não era assim que deveria ser, ou por pura inveja do que na literatura d'outros países, parece ser um tratamento mais adequado para esse fenômeno do que aquele que dispensamos por aqui. As pessoas que vi mortas, não pareciam mortas, pareciam antes algum tipo de manequim, uma farsa - ah! Deve ser por isso que quero ser cremado ou "virar árvore" (há um tipo de caixão que usa seu corpo como base para a raiz de uma futura árvore); ninguém terá dúvida de que parti, ou ficará me esperando devido esse mal-entendido visual/estético: se virar cinzas, posso ser posto numa ampulheta, e aí a expressão "o tempo é precioso", poderá ganhar um contorno diferente para meus descendentes e para quem fica.
"Lucas de Jesus Santana: 16/03/1988 - xx/xx/xxxx"
"Amou profundamente sua esposa e família; honrado, sonhador profissional, contador de histórias, ainda que imaginárias; um tanto cínico, lento; escreveu, cantou, compôs, fotografou, amou, sonhou, sonhou; ingênuo, perverso, sonhou, sonhou; amante do Magic, música e de sua Companheira: deixa como legado suas tentativas de fazer desse Mundo um tipo de Arte, e o relato (ou antes anseio), de como é fina a barreira entre a 'Realidade' e onírico.". :)
(Pensamentos semi-dedicados para a A.G; R.T.J; e tantas outras pessoas que compartilharam momentos de sonho comigo)
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