Meus Sentimentos

  



Minha mãe era um ser humano e tanto, e dentre tantas coisas, meu coração aperta, pois queria ter apresentado ela para cada uma das pessoas especiais que foram postas em minha vida - fora que com ela aqui, talvez tivesse ajuda em minhas enrascadas amorosas: caralho, como precisei de você me dando uns bons tapas dizendo "Lucas, acorda! Você não vê como essa pessoa é especial?! Não aja assim!"; eu sei que era seu estilo chamar a atenção e conversar assim. Isso e mais um monte de coisas. Nós conversávamos muito, e é engraçado, como após uma surra, com lágrimas nos olhos, você e eu acabávamos discutindo coisas como "a Natureza de Cristo", a existência, etc. Você fez e faz muita falta; eu lembro dos vizinhos batendo na nossa porta pedindo conselhos para você, pedindo orações. Como queria ter sua fé comigo, sua força e resiliência. Eu lembro da primeira surra, quando eu quebrei seu colar de cristais, porque eu queria uma daquelas pedrinhas pra mim, lembro dos machucados severos, do seu fervor em oração. Eu lembro, de um ano e meio ou dois antes de você ir, chegando em casa do trabalho: uma pedagoga, foi professora, mas devido um monte de percursos e escolhas, estava ganhando o pão como faxineira, recebendo pouco... Lembro que estava estudando para um concurso do banco, que foi interrompido pela doença; lembro de você deitada, a testa brilhando de suor, conseqüência do trabalho duro... Você era pequenininha, estava com um tênis colorido e macacão jeans azul escuro; horas depois, você estava falando do incômodo no abdômen - meu pai tocou na sua barriga, e disse "puxa, está duro aqui Rose", "é por causa da enceradeira; muitas vezes eu a apoio aqui". Meses depois, achamos que poderia estar grávida, o aspecto parecia, mas isso não era possível; eu lembro de você implorando para um dos médicos no corredor, com sua voz mansa, apesar da angústia na face, o jeito relativamente calmo "olha, está acontecendo algo, e eu não 'stou grávida". Devo ter puxado esse desleixo consigo mesmo de você; você era uma pessoa simples, mas sua amabilidade era tão elevada, que você sempre se deixava pra depois, sempre se deixava para muito tarde. Eu sempre quis ser como você, mas na força, na capacidade impressionante de se reerguer, na inteligência e aceitação do próximo, mas eu puxei isso, o pouco auto-cuidado, e hoje não consigo dar amor pra mim mesmo, eu nem faço idéia do que seja isso direito. A culpa não é sua, não é uma situação com culpa ou culpados, mas se você tivesse ficado só mais um pouco, sabe? Eu lembro que você estava cheia de dor, nem o remédio estava mais fazendo efeito, e perto de você eu peguei meu caderno de músicas e comecei a cantar "Stay" do U2 - só fiz isso porque achei que estava dormindo, mas você virou com os olhos abertos, e deu um sorriso bonito; fiquei com vergonha e parei de cantar na hora, rs... Se eu soubesse, teria cantado mais e sem parar, teria dito, olhando pra você "Stay, stay, stay, stay, por favor!" fica, por favor, fica, eu sei que há um trecho que diz "you can go anywhere", mas caralho... Era pra ter ido pra nós, pra algum lugar preparado por Deus para que você se recuperasse, era pra você ter vivido 150 anos, como dizia pra mim que ia viver e você era tão forte, como eu ia duvidar disso?! Eu 'stou cansado, e não consigo sair daquela cama cantando quando ninguém olha, mas ocultando a minha voz quando viram o olhar para mim, e parece que todos ficam tão pouquinho, tal qual foi com você..., só a D., que tem um coração tão receptivo como seu teve a paciência de compartilhar quase quatro anos de sua vida comigo (e obrigado por isso! Aprendi muito, e lamento eu não ter seguido seu conselho de nos tornarmos amigos... Eu hoje tenho certeza de que seríamos grandes amigos de verdade, e de quebra você me ajudaria, mas eu estraguei tudo. Ainda sim, obrigado); porém, isso se repete com as demais pessoas: ficam pouco. Isso cansa, mas se repete. Não quero fugir, eu queria que as pessoas ficassem mais, queria que a pessoa que gosto, tivesse ficado mais - não foram nem dois anos... Eu sei, tempo não é tudo, qualidade Lucas, qualidade - e o tempo que tive com você, foi de qualidade, a melhor possível; mas mesmo assim... Você foi... Sabe, eu entendo, e eu ouvi umas poucas vezes você pedindo em silêncio pra Deus te recolher. Você não me deve, mas  queria ter ficado mais, perguntado mais coisas, convivido mais com você. Talvez, se você tivesse ficado mais tempo, eu não teria conhecido minhas ex-namoradas, e essa reflexão me deixa numa posição difícil, porque gostei muito delas também. Eu acredito, depois de mais de um ano refletindo, que você teria gostado muito da última Companheira que tive, e pelo que lembro de seu gênio, também acredito que vocês teriam se dado muito bem, bem pra caralho. Mas voltando à situação da "cama", quando olho pra mim hoje, mesmo com meu esforço, parece que ainda sou um garoto, sabe? Parece que meu coração não tem muito mais que 16 ou 17 anos, de certa forma. Todo ano você fazia um bolo pra mim e pra minha irmã, e eu gostava muito; eu lembro que em 2003, dias 22 ou 23 de março, os dias da visita no hospital, mas agora não lembro qual deles, você chorou porque não fez um bolo naquele ano. Eu recebi com doçura aquilo, apesar de minha droga de expressão ser como uma parede, já naquela época, os sentimentos se escondendo de mim, ou pior, desligados, apartados, mas ao menos, estava com a doçura que aprendi com você, disse algo como "tudo bem"; eu diria hoje "hey, está tudo bem, meu presente é estar aqui com você, fica em paz" ou "obrigado por todo esse afeto...; não preciso de bolo, preciso ser um ser humano como você", mas caralho, olha pra mim... Olha minhas falhas... Eu sinto uma mistura de tristeza com vergonha, porque eu não sou ainda nem metade do que você foi. Você parecia estar num tipo de Plano diferente, não sei se por causa da religião, mas quando lembro, e mesmo na época de viva, a sensação que preenchia uma parte da minha mentalidade sobre você, sua aura, me passava algo de espiritual - essa não é a palavra, mas é algo assim, como uma monja ou uma madre Beatificada. Meu pai, em uma de suas faces mais proeminentes, e infelizmente você sentiu na pele isso, tinha um aspecto violento e caótico - me parecia uma força da natureza as vezes, como um tornado que vem, destrói tudo e passa, e com efeito, ele era assim, várias e várias vezes. Parecia um gigante, mas trazendo a destruição nos braços. Como você foi parar com ele? Sabe, eu acredito que conhecer uma pessoa em um nível muito profundo é um presente, porém demanda muito tempo e dedicação... mas ele era destrutivo demais - era óbvio que você estava pondo sua vida em risco. Mãe... Você foi um ser humano muito acima da média, mas você errou em parar com ele, e logo... Eu sou um Erro. Eu custei sua vida, de certa forma, fosse pelo enlace com meu pai, fosse pelas vezes que você tentou se separar dele, mas me viu lamentando quieto, mas você com seus olhos de coruja sentia que eu sentia falta dele, e isso a fez ponderar algumas vezes, creio, em reatar. Não se reata, mãe... Ou se constrói algo novo, mesmo que seja com a mesma pessoa, ou se vai, mas a estrutura de vocês, era destrutiva demais; ele era a tempestade, você o pomar - ele teria que ser alguém com um pouco de consciência, não uma criatura feita quase que apenas de instintos, para que vocês se dessem minimamente bem. Cara, não teria sido melhor eu não ter nascido e você ter tido uma vida? Você nem viveu direito. ...Eu fico pensando nas pessoas que tentaram compartilhar um pouco da estada nessa Terra comigo... Talvez por ser um Erro, eu esteja sempre perdido; talvez eu fui uma droga de armadilha para elas - por um lado, eu achava que seria um baita Companheiro, pois meu pai foi um exemplo negativo, por outro, por ser um suposto "Erro", eu não posso ser amado, tenho que ser um asceta, algo assim. Essas duas coisas e muitas outras, guerreavam aqui dentro, como um massacre urbano, com a diferença de que por serem conceitos, a Morte não costuma agraciar esses. De certa forma, eu a 'stou imitando, mas em aspectos não positivos. Se você tivesse se recuperado do câncer e da leucemia tardia, se o transplante de medula tivesse rolado, como teriam sido as coisas? ... Eu imagino que teria aprendido a tocar baixo e teria entrado na banda thrash metal de meus amigos, e talvez, isso tivesse me acompanhado até hoje; não teria repetido o 2º ano por falta, porque você iria perguntar da escola pra mim, atenciosa, como sempre; talvez teria terminado a escola com minha turma ou ido pra Penha fazer técnico no Aprígio, como comentei algumas vezes. Quando você se foi, toda a estrutura de sentido, que já era precária, porque só se baseava em você, e eu e minha irmã não tínhamos noção ou condição existencial pra lidar com isso, logo se dissolveu, e então, a partir dali, quase todos os dias foram uma mistura de ausência e improviso, com alguns lampejos de ordem, de quando em quando; talvez, eu teria tido meu primeiro namoro de verdade e com uma garota mais velha, que conheci no Telecentro, meses depois de você ter ido. Me encorajar a ter esse relacionamento, me soa coerente com o tipo de coisa que você faria com sua risada de "olha que bonitinho!", que você dava às vezes. Você era dahora... Caralho, você podia ter ficado mais um pouco - e sabe mãe, eu ando meio cansado disso das pessoas não ficarem; eu sei que toda ação tem conseqüências, mas eu não sou perverso por ter agido como um animal em algum trecho da vida. Eu posso ser burro, animalesco, mas perverso não. E sinto que você me deu outra coisa, como o cajado que Buda dá para seu filho: perdão abundante. Parece que essa capacidade não acaba, mas não consigo exercer isso sobre mim, a própria idéia de "se perdoar", me soa absurda:

   O perdão é algo que vem de fora, é um tipo de ponte entre o pecador e a vítima. Não faz uma gota de sentido, Cristo se perdoar pela lança que o atravessa ou pela tortura. Agora Ele perdoar os que falham com Ele, isso existe e é possível. O perdão é um exercício crístico, um movimento de si para o próximo que falhou, como riscar na areia algo e dizer "quem nunca pecou, atire a primeira pedra", é dizer "olha, sei como é, também já dei mancada; não sou melhor ou pior que você, sou um Igual"; se você errou consigo, não é necessária ponte, porque você já está em você, ou ao menos deveria estar. Uma parte de mim, não entende o auto-perdão, devido isso. Eu deveria ter ponte com as pessoas, mas me parece que faltando três anos para ter a idade de sua partida, não tenho mais laços, e conseqüentemente, pontes, para poder me coligar com as pessoas com as quais falhei, mas me importo, quero por perto.

   Você se foi, estava cansada, e na boa, merecia, pois as coisas não estavam boas por aqui. Apesar de todas minhas palavras e pensamentos, eu não sou uma criança da guerra, que teve que se esgueirar pra obter comida e não levar tiros ou acabar mutilada, por exemplo - minha infância foi feliz até, apesar de ser a fase da vida para a qual menos ligo ou liguei. Você fez tudo que estava ao seu alcance, tenho certeza, e resistiu... Eu ouvi quando disseram que você tinha uns seis meses, mas, forte do jeito que era, permaneceu nessa Terra por um ano e meio. Foi muita dor, e ao lado, algo que não era sequer apoio: meu pai era uma ameaça, antes fosse algo neutro.


   Em breve fazem 19 anos que você foi. Pra ser honesto, não recordo mais se isso aconteceu no dia 26 ou 28. Eu não entendo muito bem o que aconteceu até hoje - viver é isso? ... Tem muita coisa legal aqui conheci pessoas que me aquecem até hoje, fiz coisas legais, vezes amo minha vida, vezes desprezo; mas aquele seu pedido para ser "recolhida", me pareceu algo sábio. Não 'stou doente, pelo contrário, mas há um certo tipo de vazio, os erros pesam pra caralho, o tempo corre de uma forma que parece distorcida. Talvez quando meu dia chegar, consiga parar e conversar um pouco contigo, uma conversa de uma vida inteira, se é que isso é possível. Nesse período 2020~2021, senti muita falta sua. Precisava de você pra me dar um sacolejo. Fez muita falta, mas veja como isso é egoísta, falo pensando em mim, e eu sei, que dado o tanto de situação ruim que você viveu, e o sofrimento interminável da doença e do tratamento, partir foi a melhor coisa. Você me pôs na Terra, não temos dívidas, mas eu me sinto confuso com os termos que usam nesse lugar: nós temos "laço", mesmo você tendo ido, ou isso é um privilégio dos vivos? ... Uma pessoa disse que você tinha cara de que viveria pouco. Como Ela aferiu isso? ... Quando Ela disse isso, era então em tempo nessa Terra, dois anos mais velha que você, que o tanto que você viveu. Eu lembro da expressão dela, da voz, sedosa e com um tom que não sei explicar, acho que só ouvi esse tipo de aplicação da voz vindo dela, porque realmente não recordo de ninguém que tenha se referido as coisas com a mesma entonação - Ela usou o mesmo tipo de sentimento/entonação (cara, realmente não sei como chamar isso, é algo muito único, expresso na voz. E ainda há quem me diga que pessoas são substituíveis), quando teve que falar a frase "ele descansou". A foto que mostrei era uma de você comigo no colo, minha cabeça no seu ombro, e você estava olhando pra câmera com um sorriso delicado. Aquilo foi bonito e extremamente dolorido ao mesmo tempo, pois sei que só falou aquilo porque se importava comigo. Eu queria ouvir uma conversa entre vocês duas, mas uma pena isso não ser possível.

   Esse lugar é meio confuso. Caso exista mesmo algum tipo de vida antes ou após aqui, e caso haja a opção de planificar essa passagem, foi por saber disso de antemão que escolheu ficar pouco? Eu não lembro de nada mãe, quanto mais volto minhas memórias, a coisa mais anterior que existe pra mim, é um tipo de "escuro" ou "nada". Quando criança e eu acordava gritando no meio da noite despertando-a, porque o escuro me trazia a tona essa sensação, eu tinha terror absoluto de sentir aquilo; e hoje, fico pensando se aos 37, não será minha hora de retornar a isso, tal qual você, e talvez, quem sabe, bater um papo contigo de alguma forma.


   Somos só isso né? Você é enorme para mim, mas quem se importa? Quem lembrará de você em trezentos anos? Ou de mim, ou da garota para qual escrevo às vezes? Penso que a lembrança é essencial aos vivos mesmo, que você tem que se lembrar bastante, o tempo todo, porque quando você se lembra, você toma decisões melhores, fica mais atento. A lembrança trás um tipo de desconforto, mas isso é bom... Todas a vezes que recordo de ter estragado minha vida, foram em momentos nos quais me sentia confortável. Se eu tivesse lembrado muito de como meu pai foi ausente e descuidado contigo, não teria replicado ele, mas por aqui parece que quanto mais você foge de algo, mais esse te persegue, e pra piorar, a própria vida é instável, ela vai erodindo as memórias. Como Ela conseguiu bater o olho em você e ver que você tinha pouco tempo de vida por aqui? Isso funde minha cabeça.


   Eu 'stou cansado mãe. Você ficava um ou dois meses fora internada, tomando tratamento. Eu 'stou a quase duas décadas com um tumor na alma, que está foda extingüir, que me fez perder pessoas preciosas. Isso cansa. Eu 'stou farto disso. Gostaria, hoje, de sentar contigo e receber uns conselhos seus, talvez como naquela casa bonitinha da Patriarca, na qual moramos em '98, com a cozinha estreita, e azulejo bege mas bonito, tomar café num dia nublado olhando as plantas e os nossos coelhos, falando coisas novamente que não recordo, mas sei que são boas, eu lembro da sensação. 


   Eu não gosto muito daqui, apesar das maravilhas, mas obrigado por ter me trazido até aqui. Não teria escolhido outra pessoa, mesmo que fosse alguém que vivesse mais. Se eu escolhi isso, saiba que eu não me arrependo, e que foi uma honra.




[1965~2003]




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