14th April: Too Cold for Tears

 





"To them you are the bringer of grief
But you will lead me to hope
Into the arms of winter frost
Will you release me
And silence those fears
I wait for your arrival
And soon it will be too cold
For the tears, for tears
"



[23:43]"Vc não vai chegar onde precisa se não avaliar seus sentimentos"

"Eu avalio eles"

"Não parece"

"Não vejo nem leio seus sentimentos em nada do que escreve, com exceção da culpa"






   Eu 'stava ouvindo Swallow the Sun, o disco "Songs From the North - Pt 1", em específico, que dos três, lançados em simultâneo, é o que eu mais gosto, depois a Pt 3, e a #02 ainda não me cai lá muito bem nos ouvidos. Gosto muito de StS, é uma das bandas mais importantes de minha vida, tendo sido minha trilha de grandes esperanças e de grandes tristezas, dias que não queria que houvessem acabado, e dias que apesar de densos e tensos, carregavam consigo uma luz muito especial e diria que forte até. Eu nunca havia visto o encarte do álbum em questão, e hoje, parei para ver - é engraçado como a experiência de ouvir música vai mudando com o tempo: havia um tempo no qual ouvir o álbum como algo "inteiro", estando totalmente atento nele, como se fosse um livro, lendo as letras no encarte, vendo as fotos ou desenhos, e aquilo que te transmitia, fazendo todo um trabalho mental de relacionar a música com a parte gráfica, era a regra. Fazia um tempo que eu não obedecia essa regra, e me senti submerso na melancolia dos finlandeses. Talvez realmente me tornei uma pessoa que "nunca está 100% em nada", nem na música que amo, durante certa fase. Desse disco gosto muito de "Memory of Light", "Heartstrings Shattering" e "10 Silver Bullets". Foi o último álbum com o excelente (ok, ele é "normal", mas gosto muito do trabalho do cara), tecladista Aleksi Munter. Parece, pelo pouco que li, que a morte de Aleah, que além de Companheira do dono da banda, era amiga da banda como um todo, mexeu muito com ele, e foi um dos motivos do afastamento. Cheguei a ouvir os dois discos que vieram depois disso, mas apesar de bons, ainda não me adaptei, o som está bem diferente, e as linhas de teclado, mais ainda, mais etéreas e tals, me fazendo lembrar o trabalho de sintetizadores do "Night Is the New Day" do Katatonia, porém bem mais discreto, beirando um Gótico-Pop. Mas lembro desse álbum por outros motivos também:


   Estava ouvindo ele muito entre novembro/2018 até março/2019, e era minha escuta obrigatória. Ele era minha trilha das altas esperanças, que foram tão presentes nesse período e um bom tempo após ainda. Em casa, apesar do caos com as moradoras novas (morava em república), tudo parecia estar num ponto de relativo equilíbrio. Chegava em casa pelas 05h da manhã, e o gato, Darwin, sempre vinha de longe, do fundo do quintal miando me receber, e eu o pegava em meus braços; toda quarta jogava Magic com camaradas na Vila Mariana, e a viagem de ônibus sempre era gostosa, boa, como uma noite límpida e morna. Estava saindo com umas duas ou três garotas ao mesmo tempo, e apesar de quem eu mais queria que estivesse ao meu lado, ter ido embora sem parar pra conversar um pouco, e trocar algumas palavras, o clima geral, a forma como me sentia, era como se eu estivesse finalmente dando conta do meu final do ensino médio, que eu não vivi e "finalizando" ele, ao menos no aspecto social - ok, eu já era um homem com mais de 30 anos, porém parece que tudo daquela época passada do Ensino Médio, me tocou de tal forma, que não consegui ligar os pontos e finalizar ainda. E foi ouvindo entre outras coisas, Swallow the Sun, que Ela apareceu. Tudo terminou como sempre: muitas feridas e uns buracos profundos no solo; aliás, minto: sempre machuca, mas esse caso foi sim diferente, no entanto, tal qual os demais, sem palavras, sem conversas. Eu olho as fotos e lembro daqueles dias de grandes esperanças, quando meu peito vibrava com "Lost & Catatonic". Acho que daria qualquer coisa para ter um "2019 - parte 02" e, refletindo, passado pouco mais de um ano, desde que Ela se foi, naquele momento, e por muito tempo, mesmo após o fim, eu ainda era só um garoto, e no fundo, ela também: uma garota machucada e um garoto machucado, cada qual com os olhos manchados de sangue e altas esperanças, alegrias ocultas e decepções, tudo bem misturado, procurando respostas um no outro, tateando, com o sangue um do outro se misturando ao das feridas não-cicatrizadas. Fomos um casal com pouca visão, baseados apenas no nosso sentir confuso.


  "Wipe away your black tears"


   Minha primeira camiseta do Sandman foi dada por Ela, e Ela, esperta mais que sábia, foi procurar algo a respeito - é do tipo que pesquisa as pessoas, e bom, eu gosto muito desse traço nela; no entanto, hoje, passado esse inferno todo, e eu voltando a ler, fico me perguntando se, em algum momento da vida Ela dedicou algumas horas pra ler um livro de Sandman inteiro, ou um arco inteiro que fosse; se lesse mais sobre essa parte "negativa" da vida e um pouco menos sobre metodologias, talvez seria uma psicóloga ou a melhor pedagoga que já pisou por essas bandas, se somar isso com o seu senso de organização primoroso; mas, seu senso de busca e de melhora, supera esse, e a ajudou a ter a vida que tem hoje em contrapartida, o que não é pouca coisa. Minha arrogância em relação ao seu "Quem mexeu no meu queijo", me faz supor que entende as relações como um "queijo", algo estável e que deve ser confortável e de certa forma consumível, que ao "acabar", você busca outro, trilha outro caminho, supostamente, à frente; eu posso estar grandemente enganado em minha tendência de crer que no fundo, Ela não faz uma distinção entre pessoas e estados/objetivos: eu por meu lado, entendo que pessoas não são um "queijo", não são "consumíveis"; pessoas são pessoas, para te darem umas dores de cabeça, umas reflexões, e no final das contas, juntos irem procurar o tal queijo - afinal, todos estaremos debilitados, seja em alma ou corpo em algum momento, não é mesmo?; ... É uma sensação muito estranha: a pessoa te conhece mais que qualquer outra, o bastante pra fazer um estrago em sua vida se assim o quiser, e ao mesmo tempo, não te conhece. Qual o nome dessa sensação?; Quando nos reconciliamos pela última vez, me deu de presente um livro do universo de Sandman, mas ainda não tive coragem de lê-lo; vira-mexe, quando a gatinha Yuna está roubando sacolas do puxa-saco com estampa de bolinhas que Ela comprou pra nós, olho para a estante e o livro está lá. Me dá um pouco de medo pegar ele - inicialmente minha idéia era começar a ler e falar sobre a história do livro com Ela, algo que devido meu timing mais-que-ruim, não aconteceu. Mas gosto de pensar sobre o que poderia ter acontecido.


"Memory of Light, is all we have"


   


"Blessed be the ones who do not feel//For you the heavens are open//Such is the nature of the heartless"


Mas não, não a acho insensível ou desprovida de coração, nada assim, muito pelo contrário; todo mundo têm gatilho de fuga ou de não-merecimento, ou qualquer coisa assim. Ou de auto-destruição: pode ser preguiça, cigarro, vícios, letargia; a lista é imensa, somos máquinas estranhas, com uma tendência mais ou menos sutil de se corroer conforme a existência vai ocorrendo. Eu listei, com base em conversas antigas, minhas falhas, 'stou a fazer um mapa delas; ainda 'stou no processo disso, cerca de um ano refletindo sobre; no entanto, com as mãos no queixo fazendo o trabalho espiritual sobre isso, me pergunto: como eu poderia ter controle disso com a pouca experiência que tinha? Meus olhos também estavam manchados, não enxergava com clareza, mesmo com toda a luz que Ela forneceu de coração pra mim; precisei de tempo para perceber que aquele nublado não era minha visão de verdade, mas sim uma alteração. E Ela não se deu conta como pretensa semeadora, de que essa terra aqui é funda pra caramba. Seria necessário mais tempo até que os caules percorressem toda extensão e vissem a luz, para que colhesse os frutos, no entanto, não quis esperar, com direito a isso claro, mesmo admitindo que se fosse noutra época, mais cedo, haveria de esperar mais, e que reconhecia minha sinceridade. E que isso não era o suficiente. E Sandman? Bom, se o tivesse lido antes de me dar a camiseta, saberia que o mundo se tornou um lugar bem ruim durante os anos nos quais ele esteve encarcerado e de forma análoga, eu 'stava bem ruim e sem sonhos, com um bom coração, mas olhos maus, corrompidos, segundo sua própria percepção, que hoje, me olhando pelo retrovisor, puxa vida, eu concordo: estava certeira em sua conclusão. Eu estava sem sonhar, mesmo com todo seu esforço, suponho, de inocular sonhos em mim, talvez na esperança de que dessa atitude, brotasse alguma luz para seu próprio ser também, para sua própria visão. Será que teria feito o paralelo com isso e minha psiquê, caso houvesse lido Sandman? Não tenho certeza. Ela é sagaz, sem sombra de dúvida, mas sagacidade está para a mente como destreza para o corpo: é habilidade de manejo, e nisso, é invejável; mas algumas coisas somente força, bruta e extrema resolve, e essa característica costuma ser lenta para se adquirir - e Ela não é uma pessoa lenta, a menos que isso seja necessário. Repetir ou falar de forma infantil algumas palavras fáceis não iriam fazer eu perceber essa coisa enterrada tão fundo. Em decorrência disso, desse buraco, eu, que já era uma pessoa faltosa em coisas como escola, e depois emprego e relações, teve esse traço agravado de tal jeito, que só agora, muito tempo depois, ando conseguindo desatar os nós. Ela não tinha que me dar mais paciência, embora, era a coisa que mais desejava; em dezembro/2020, o olhar nas fotos que eu tirei de seu rosto bonito, me incomodava um pouco, estava diferente; até nas selfies desse mês, havia algo estranho - hoje eu vejo e sei o que era: estava triste, até o sorriso estava manchado de tristeza; estava cansada e queria algum alento, não ser a alentadora, queria "fazer o que tem que ser feito". Passou a dizer em certa época, menos de um ano atrás, que eu "nunca respeitei seu espaço" - isso não é Verdade. O que mais houve em nossa relação, foram espaços vazios, vários deles, alguns por sinal, disfarçados sob o manto do cotidiano; esses espaços vazios estavam presentes fossem nas noites que não perguntava se queria descer em casa, fossem nos compromissos não acertados, promessas não planejadas e cumpridas, que se perderam no turbilhão de meu caos espiritual e mental e criaram ressentimentos. Foi tanto espaço, mas tanto, que quando tentei esticar a mão para a segurar em meus braços, e dizer "não vá, por favor", ou esticar para a segurar em minha mão, meus dedos não a alcançaram, eles tocaram o vazio que deixei se criar entre nós, e parece que nem o eco de meus dedos chegou até seus ouvidos. O que mais houve entre nós, foi espaço, fosse nas conversas enquanto voltava a pé do trabalho e desejava boa noite quando chegava em casa, mas separados por quilômetros, e ao chegar no destino, nós não estávamos um em face d'outro. Havia muito espaço, espaço demasiado, espaço pra caralho; essa nota, de que eu "invadi" isso, é uma observação descabida, que só faz sentido na narrativa criada pra "seguir em frente", para servir de combustível para alguma busca, pondo o afeto na caixa de reciclagem, como sempre faz, se enganando um pouco no processo talvez. Nada inédito. É o individual "direito a mentira". Ao contrário de mim, que ao cair nesse tipo de situação, não tem outra opção a não ser estar frente a todo meu terror, vergonha e angústia, sempre tem, e continuará tendo por muitos anos, a opção de fugir ou escapar, sem precisar fraturar pra isso. E por um lado, fico feliz com isso, Ela não merece segurar tal peso. Acho e honestamente, torço para que nunca saiba o que é ser esmagada, dia após dia pelo peso da angústia; pode até se conformar com a tristeza, aceitá-la, mas sua mente nunca ficará paralisada ou cega ante o tamanho desses sentimentos, seus sentidos nesse ponto, são menos sensíveis que os meus. No entanto, narrativa é uma coisa, Verdade é outra; esse argumento foi uma dose de morfina, um analgésico talvez necessário; eu sei que ficou muito triste com tudo, e talvez, em algum lugar, ainda esteja, talvez mais decepção que tristeza, pois me parece mais suscetível a primeira que a segunda, afinal, se tinha algo que havia em relação a mim, esse algo era expectativa, e essa talvez tenha se tornado apagamento ou aversão. E ficou magoada, com razão, pois pôs muito coração em minhas mãos, e eu o deixei cair no chão, vezes demais pra ser tolerado. Sentiu algo como uma injúria - eu te digo, querida: era cegueira e inexperiência. E tudo bem. Seria bom a conhecer depois dessa dor toda, como algo novo, mas reconstruído. Se no começo a honestidade era uma primeira impressão, que logo se tornou lama, como a pintura num animal que vai ao solo com a chuva, acredito que agora ela é Verdade, ou ao menos, está em vias disso. Levando em conta Sandman, que teve que descer ao inferno buscar um pertence seu, coisa que por analogia deveria ter feito para estar ao lado dela, e um monte de projetos desatados, minha seqüência de incertezas, era óbvio que aquilo, o "nós" estava se construindo sobre uma base pouco ou nada firme, com as sementes abaixo do cimento fresco e pondo o peso de estruturas sobre esse. Eu sei que tentou as por com carinho, cuidado, as vigas do que seria nossa vida futura, fosse nos utensílios comprados pra nossa vida a dois, fosse nas noites de strogonoff, o que por sua perspectiva, hoje, talvez soe como uma brincadeira, um passatempo que fizemos, mas que me era precioso. Talvez não fosse por acaso seu disfarce de Delirium, a irmã de Sandman que outrora se chamava "Deleite"; não por acaso, talvez, fora a segunda com essa mitologia a me visitar, e talvez, apenas talvez, sua busca seja deixar de ser Delirium, pra voltar a ser Deleite. É uma bela busca, com ou sem mim, se for o caso. Mas tudo bem, eu sei que seus olhos estavam manchados também; voltando a vida material e deixando os símbolos e suposições de lado - símbolos tanto ou talvez até mais manchados que os meus, além de sua natureza: ser um humano mais "veloz" que eu, menos contemplativa e mais executora. Se estivéssemos melhores, com mais sabedoria, o coração teria sido nosso aliado, mas como quase tudo foi feito apenas com ele e uma boa dose de inércia, no meu caso mais inércia que coração e no dela, o oposto, ele sozinho não deu conta do nosso peso, nos desvencilhamos e cedemos sob o peso das expectativas. Nós somos pessoas que nos levamos a sério demais, às vezes, paro para analisar e considerar essa suposta tendência. Não falo do brincar, das piadas, falo do que Nosso Ser vibra para ele mesmo, quando estamos sós, a qualidade dessa manifestação: nós somos pessoas mais "pesadas", nesse sentido, ao menos me parece hoje; a vida para nós não é um desenho animado, embora em algum lugar, até gostaríamos que fosse, ou talvez um filme de aventura, e isso não foi levado em consideração, mesmo com suas brincadeiras atrevidas e eu com as minhas brincadeiras bobas.


  "Forgive Her"


   Houveram pontos nos quais não houve a luz necessária. Hoje saio na chuva branda sem medo, e respiro com calma, uma calma que fora a que sentia em companhia dela, não lembro de ter sentido dentro do passado recente fora de seus braços. Darwin, o gato, pasta, e eu olho para uma pequena folha contra o céu cinza. Aquilo é muito bonito. Eu estava dando a "comida" errada para meus olhos; quando foi que isso começou?. Toda vez que o clima fica dessa forma, nublado com chuva branda, lembro do litoral que visitei em sua companhia; na praça na qual corro, há uma escola que me lembra Santos; os abraços, esses, talvez o que mais sinta falta; lembro da luz noturna contra a água reflexiva da praia ... Enfim, aquilo foi muito bonito e um alimento que demorei pra entender como me nutriu.


"Hold me//Few more steps and I will fall//Watch me, I'll take you with me, too sad to leave alone"


... É claro que isso é trauma de criança, mas pouca coisa que sonhei quando pequeno, aconteceu até aqui, e meus grandes feitos não tiveram as testemunhas que me importavam de forma sensível, ao olhar num panorama geral. Óbvio, tive amigos presentes em momentos importantes, mas sempre tem aquela pessoa que você espera e ela não está; eu lembro dos relatos sobre ter acontecido isso, a ausência, mais de uma vez, e desde pequena, segundo seus relatos, em coisas que foram importantíssimas e lamento, naqueles momentos e comentários, não a ter apertado contra meu peito, para diminuir um pouco do vazio, esse espaço todo, matar um pouco da ausência a que era tão acostumado; mesmo nesse relatar, quase sempre estávamos distantes um do outro, uma tela conectada a outra, sendo que o necessário, seriam olhos no lugar de telas. Se tivéssemos contado o que mais importa frente a frente e as brincadeiras tivessem sido deixadas para o whatsapp, como teria sido?; fico pensando "que MERDA", que coisa desastrosa é isso: falar o mais importante por um aplicativo, como se fôssemos funcionário um do outro, sem sentir o peso das palavras ou a mudança na direção dos olhos, sem a oportunidade de resolver a diferença, ouvindo mais, se expondo mais um ao idioma próprio do outro. É verdade, a configuração da vida não ajudou pra isso, e tivemos algumas vezes de palavras trocadas "ao vivo"; mas quantas engrenagens não correram escondidas ou expostas a distância, nas sombras?; Na minha percepção, teria feito diferença; a ironia sobre o estar presente em algo importante, voltando aos shows, consultas e passeios, é que por N vezes, eu fui essa pessoa, a faltosa, mas para outros, Ela principalmente; eu me tornei o diabo que queria matar. E faz bastante tempo isso, mas não notei. Se tivesse notado, quanta coisa até aqui não teria sido diferente ou melhor?


Mas dentre as ausências, muitas advindas do sono mal organizado desde cedo na vida, lembro de coisas gostosas:

 sempre gostei muito de dormir; na Bienal de 2012, eu encontrava minha Companheira da época, íamos para shoppings ou pra Paulista comer. Foram tempos de grande esperança, mas na época ainda não ouvia tanto o StS, estava ouvindo mais Katatonia, Kontinuum, Lacuna Coil (os EPs) e Daylight Dies; um dia, eu dormi numa instalação do Hélio Oiticica, umas cabaninhas, que tinham travesseiro e tudo o mais. Eu também fui muito tosco na época, em vários aspectos, e tanto quanto em relação ao meu último relacionamento, fico refletindo: "por quê agi assim?!". Eu fui um estúpido; me pergunto se fui fruto de meu contexto ou se eu era venenoso mesmo; ou se por não saber que porra é esse tal "amor-próprio", acabo ferindo as pessoas que amo, por "mal uso"; eu não entendo isso muito bem ainda, mas voltando, quando saí, acordado por um segurança, do lado de fora me esperando, ela, minha Companheira da época, deu uma risada muito gostosa e disse "eu falei: 'quer apostar que o Lucas dormiu nas cabaninhas?' ". Teria sido a grana mais fácil da vida dela se tivesse apostado. Eu gostei muito de ver aquilo, aquela risada.

 Voltando ao meu último relacionamento, nas minhas memórias, Ela não era de rir tanto, não da mesma forma - ri com amigos, escancara, e é uma risada linda, mas sinto isso, e posso estar enganado, como um riso mais social, que usa porque sabe como é bonito, tanto que ele aparece mais quando está em grupo, especialmente um grupo antigo ou necessário, fazendo algo bobo ou uma atividade - por sinal, fato o qual lhe dá segurança para fazer e ensaiar tal riso, como dose de equilíbrio para o expediente sério diurno; mas aquela risada que parece vir de outro lugar, como a satisfação, contentamento ou surpresa pura e simples, pra ser honesto, poucas me vêm a memória (sendo essa muito linda também): dizem que o amor nasce de quase nada, e talvez, por não ter lembrado de onde nasceu meu amor, fascínio, apego, paixão, ou o sentimento que for, enfim, as coisas tenham ficado dessa forma, afinal, não estava "100%" na minha Conexão com Ela; quando a vi pela última vez, vi quase o mesmo sorriso que se desenhou no seu rosto de quando nos conhecemos: espontâneo, grande, os olhos levemente apertados. Quando reparei, me dei conta: "bom, é isso, foi isso"; por esse gesto passei a gostar dela, e nem notei. Eu já me acusei de ser cego nesse texto?. Foi a primeira coisa que me cativou. Fora do círculo de amigos, uma das melhores risadas foi a de quando o Darwin estava dando golpes de "MMA" na gatinha Sharuum (foi hilário). É a risada mais gostosa que tenho em minha memória, mas no geral, solitária, não é tão leve, em contraste com o sorriso bonito. Nós somos pessoas que nos levamos a sério demais, e falo no sentido não tão bom: nós encaramos nossos espíritos de uma forma mais dura, severa até, apesar das capas da displicência em mim e da praticidade pelo lado dela. Ao menos é um ponto em comum. E voltando a risada, ela é reativa, leve até quando sincera; é como o riso de um inocente, e com efeito, sua essência, seu espírito me parece vibrar assim: vibra como uma pessoa inocente, tipo aquela garota do "Fragmentado", com olhos atentos e observadores e um passado ferido. Eu imagino que é o mesmo riso de quando tinha uns 14 anos ou talvez um pouco menos: é honesto, é a expressão de sua criança, talvez seu Eu Verdadeiro, aguardando, talvez uma leve ansiedade, porém contente com algo, feliz de um modo simples, porque Ela é Ela mesma, e apesar de tudo, isso não a atormenta, como é meu caso. É o riso de uma menina que sente uma alegria honesta, suave e simples nisso, em si, e posso estar enganado, mas é a assinatura que porta até hoje. Eu aprecio isso. Quando me pego lembrando disso, me soa contraditório uma pessoa com um traço de controle tão forte apesar de contido, me parecer vibrar assim, como o riso de uma criança reagindo a eventos inesperados, e não como alguém que ri, justamente porque seu raciocínio sabia que aquilo era esperado, cheio da carga da pretensão que os adultos têm. Mas é pra lá de belo de qualquer forma e bom, todos temos contradições não? Algumas nos dão um "tempero" especial, tal é seu caso.

   Como o nome da banda que tanto citei aqui, um Sol tragado pela inclinação da Terra, uma luz diferenciada para olhos desacostumados, aqueceu um pouco esses dias de inércia e tundra. Talvez a noite perene sempre queira tragar o Sol, não como rivalidade ou aversão, mas porque esta sempre gostaria de estar sendo aquecida por esse. E então ele permanece escondido, mas aquecendo, por debaixo de vários véus de suposta escuridão.


  "And don't let the tears tame you//Rip your arrows out//and make them cut deeper//Crush my mouth, for it still sings praises to you//Run the blood out from my throat//for I'm still your's"



"Tied on the bed by hands of the past//memories too painful to be opened"



[23:41]"Estamos falando de sentimentos e isso não é uma variável controlável."



[29/Janeiro/2022]

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