Dia do Templo
"Eu acendo o incenso e confio, de forma despreocupada, como se não estivesse fazendo nada de importante; faz muito sol, está quente, a fumaça evola com alguma reverência aparente - o irônico é que eu não gosto de incenso, mas talvez em minha cegueira espiritual, em minha ingenuidade e modo automático de ser, acredito (ou "acho", como eu costumava dizer), que desse gesto possa vir alguma benção (ou vantagem, como uma barganha com espíritos ou o Cosmos, para ser o menos nobre possível). Coisas boas aconteceram, algumas sequer percebi que o eram. Mas seria infantil de minha parte, apontar como causa disso um ritual de acender incenso. Se alguém ora todo dia, por exemplo, como saber qual foi o dia preciso que trouxe seu pedido?"
Contou-me uma história - já não recordo! Mas as palavras se tornaram luz, enterradas em meu espírito, como uma árvore persistente - Ora, quanto afeto e braços delicados!; O calor emanava de sua mente, e os grafemas a alteravam profundamente. Era outono. Nada que fizesse poderia ser tão interessante quanto a queda/sensação:
Eu me perdi em suas mãos. Tentei dissimular - duas naturezas: a que queria ficar e a que queria fugir. Me perdi em seu domínio, não sem antes ter-me perdido em mim.
... Das mais belas que vi, embora não tenha gravado o traçado das linhas que dizem o Destino abaixo dos dedos, sulcado nas palmas suaves; sonhava com o seu ser, noite a noite, e com a forma como iria comprimi-la contra mim, palavras suaves e retas, um momento de prosperidade, matando toda diferença, abismo e restrição.
Paguei tributo, sofri, esqueci; atravessei o dia - fiquei sem palavras então, e me revisitei. Acho que provavelmente haviam outras alternativas, mas não as visitei. Nem passado sonhei com dispossessão, e depois acordei no silêncio, após a visita e toque, como uma intrusa gentil nos riachos subterrâneos da consciência, como faz, semana após semana - na cama um vácuo, quase precipício de sua ausência; pele e enlace: preferiria estar morto do que trilhar esses momentos intermináveis. Passaram-se horas agudas e dores excruciantes. Nada que tocasse seria igual, Nada que tocasse, Seria.
[Estas horas em Ausência têm sido mais escuras do que gostaria.]
*****
(31/03/2022):
Meu sangue corre devagar a lembrança de seus braços
Eu acordo e o som do seu nome é o idioma de minhas palavras e mentalidade
Os dias nos quais sonho contigo, ganham uma estrela negra no calendário
Sinto meu nariz encostar em sua face suavemente, sinto o brilho cálido e energia, como um raio de luz alaranjado na água que encontra a areia, e meu sonho logo se desmancha como tal: não está aqui; é como um fantasma em meus braços.
imagem:
https://instagram.com/mrs_white_photoart?igshid=YmMyMTA2M2Y=


Comentários
Postar um comentário