Two Winters Only
Hoje fazem dois anos que foi embora. De noite, chegando em casa, um carro com uma placa com os quatro algarismos de seu aniversário, estaciona perto de mim. Eu lembro da manhã, a luz bonita do dia chegando, dois anos atrás; naquele dia você não saiu em cima da hora, havíamos dormido juntos, pela última vez. De noite, enquanto eu olhava você dormindo, acendi apenas a luz do banheiro, pra fazer anotações no planner que você me deu. Eu não queria dormir. Queria adiar aquela noite pra sempre, assim como a Sherazad adiou por 1001 noites sua morte para o sultão - a luz indireta, sua expressão do sono; naquela noite você esteve muito gentil e doce, exatamente como nos primeiros meses nos quais nos conhecemos, exatamente como em nossa relação toda, com exceção do final. Eu lembro d'uma vez na qual disse que eu era "doce e seco" - eu não sei se é coincidência, mas agora que 'stou voltando a usar perfume, justamente no período que nós não compartilhamos, comprei um exatamente com essa característica. Será que você teria gostado dele?; eu acho que normalmente nós espelhamos traços: numa tarde de maio, tomando Dry Martini, cheia de gatilhos que eu evocava, você era doce e seca, como uma folha de plátano anunciando uma mudança de estação - eu, como a cigarra imprudente, agi como se só existisse o verão. Lamento. E eu um idiota cego, incapaz de ver que o que eu queria e precisava, estava na minha frente. Talvez se tivesse ficado acordado naquele 31/Janeiro, teria descoberto que aquela situação toda, inclusive as mancadas minhas, eram fruto de um sonho perturbado e ruim, como o que tive hoje (você, seus amigos e meu homônimo cozinhando na minha casa. Eu lavava a louça e cortava vegetais ao seu lado na pia, enquanto você cortava a carne com uma faca bem pontiaguda. Nenhum olhar direcionado a mim...; engraçado nós dois preparando o alimento: eu no espírito, você na materialidade. É a única coisa boa desse sonho de hoje). Acho que se fosse hoje, eu diria "olha, eu sei que você já tem tudo pronto, mas por favor, não vá. Falta hoje, vamos no parque, vamos andar, vamos tomar um café juntos, mas não vá por favor. Deixa eu te encontrar no seu trabalho quando terminar, se for o caso, vamos ao McDonald's, vamos fazer as pazes. Não vá. Eu não tenho orgulho para você, só humildade. Eu falhei, mas acredito que dá pra escrever outra história, outra vida. Por favor"...
Minha dança, entre o orgulho e o não orgulho, é como um equilíbrio no gume da faca, cortes finos nos pés, frutos de hesitação. Por vezes me sinto como algo "morto em vida", numa casa cheia de bichinhos, tal qual um de seus elos nessa Terra. Acordei hoje, após dois anos, mas ao invés de você, haviam 13 gatos na cama. Essa é a página de número 730 desse livro; ela supera em folhas nosso primeiro tomo, uma história de ausência. Eu queria dizer que meus pecados já foram pagos, mas não consigo pronunciar isso; eu sei em algum lugar que ainda falta, ainda faltam coisas. Eu que já tinha a mente em abstrações, após tantas dores e hipocrisia, tornei-a minha deusa e obsessão. Talvez tivesse mais chance de me curar sendo ateu. Sua voz me marcou tanto..., porquê coisas impronunciáveis foram ditas, porquê eu não a asssumi, porquê eu falhei tanto, porquê tanto não-dito. Se eu pudesse dissolver minha alma, e transformá-la num escudo que a protegesse, pra que você vivesse 200 anos, se eu pudesse ser algo que olha por você, eu seria. Adoração. Nesses 730 dias, devo ter produzido tanto cortisol, que até meu cérebro deve ter encolhido. Até me acostumei com a dor. Muita dor. Agulhas no peito, pulmão, cérebro. Minha libido quase ausente, apesar de ainda (infelizmente, e detesto isso), saber flertar; eu me sentia desafiado pelos comentários sobre meu gosto musical; eu entendi o que é tomar a frente, entendi que certas coisas têm que ser feitas. Lembro do Logan, de suas dores antigas, contadas no final. Lembro, lembro, lembro. Um sorriso suave e doce, nos olhos, a compreensão de algo celestial. Este sim, nosso ponto comum: nós dois viemos da Luz, capturados para fora do Sol.
Desses 730 dias, se cada lágrima fosse uma gota de sangue, eu seria hoje um punhado de ossos, uma Catrina mexicana, sinistra e se recusando a morrer de verdade, como aquele símbolo que carrega. Eu nunca fui adepto da caveira como símbolo, apesar de ser roqueiro, logo, não entendo bem a associação com coisas boas que você e muitos outros fazem; talvez não entenda, porque eu sou uma coisa morta, morta em vida, semi-viva, logo, não tenho a distância de mim mesmo necessária para compreender isso.
Há dois anos, segurava o copo vermelho que você comprou, e olhava você repousando um sono talvez sem sonhos, a pele macia, a ternura e risada despertas acenando na minha mente. Hoje, tudo se torna você, como diz uma música do Faith no More (Fé Nunca Mais, rs... não é irônico?!). No sonho de hoje, você me desprezou. Ainda acontece isso, e um sonho, semana a semana. Eu não sou um verme, não sou fraco, nem louco. Eu apenas sinto sua falta. Como os ossos sentem da carne.


Comentários
Postar um comentário