When I'm Sixty-Four
Não sou especialista em Beatles; na verdade, nunca liguei muito pra banda; bom, fato é que na Virada Cultural, em Abril/2011, fui assistir a banda Beatles 4ever tocar o repertório deles por 24h seguidas. Eu 'stava num mar de gente com minha namorada da época, que também adorava Beatles, assim como minha última companheira; ela estava usando um vestido claro, o dia era quente, mas não muito, e estava bonito. Já se passou pela minha cabeça que talvez, apenas talvez, naquele mesmo dia eu passei ou estava muito perto fisicamente da garota que namorei alguns anos depois, aquela pra qual sempre escrevo aqui (embora admita: fui um namorado ruim, ausente no mínimo). Talvez, se ela ou alguém tirou fotos, dê pra observar no mesmo quadro ela e eu, dentre os presentes, transeuntes e sem feridas. Minha cabeça supõe essas cenas. Enfim; faz pouco tempo, desde que comecei a usar Spotify (comecei a usar apenas agora, coisa de um mês pra cá), parei pra ouvir o álbum Sgt. Peppers; é uma retribuição tardia: quando tinha aí meus 15, 18 anos, se conhecesse um amigo ou garota, pararia pra ouvir o que ela gostava, mas cancelei esse hábito, sei lá quando, mas tem tempo. 'stou fazendo de forma retroativa, e Beatles entra nessa toada, assim como Alice in Chains, Rush, Faith no More (eu ainda acho meio bizarro uma banda se chamar "Fé Nunca Mais", e não executar uma música mais extrema, mas beleza), entre muitas outras, algumas ainda pra conhecer, mesmo que não entrem no status de "alimento musical"; mas uma das músicas desse disco, me invocou algo da adolescência, que nem lembrava: a música "When I'm Sixty-Four"; eu não sei se o compositor principal foi McCartney, mas recordo de ouvir um comentarista de TV, a época dos 64 dele (2006 pelas minhas contas), falar que as coisas não estavam indo como a música sugeria: na época, pelo pouco que pesquisei, casado com Heather Mills, supus que as coisas estavam ok, embora, se ele e eu tivermos algum traço de personalidade comum, certamente mesmo casado, ele ainda devia estar perturbado pela partida de sua parceira anterior, Linda, com a qual permaneceu até seu falecimento, em '98. A música poderia ter sido sua imaginação com ela. Quatro anos após, 'stava com Heather, que pelo pouco que li, parecia ser algo conturbada a relação dos dois. McCartney, assim como muitos fazem, fez uma canção pra Heather, e nem disfarçou: pôs o nome dela direto mesmo, como nome da música. Eu não fui conferir, preciso ouvir mais coisa, mas ele me parece ser um grande músico: baixista, e tocando piano sendo canhoto, suponho que ele saiba trabalhar muito bem as notas mais graves, de forma a não embolar a música - é o tipo de mentalidade que você encontra num organista: duas claves de fá e uma de sol, sendo a mais baixa pra execução dos pés; Bach, que revolucionou a música, se não me engano, era organista, então de novo suponho que deveria ter uma mentalidade assim.
... mas voltando ao "64": pra ele, se é que foi ele que escreveu a música, os 64 não devem ter sido tão bons quanto imaginava - Lennon morreu muito antes disso, e ele pela minha lembrança dos tablóides, 'stava começando a ter suas surpresas desagradáveis com sua companheira nessa idade. No meu recente caso, relendo coisas de pouco antes do fim, eu fui uma surpresa desagradável pra minha companheira que imaginava que "com quatro décadas de vida, as coisas seriam tranqüilas". Eu fui uma tormenta; por vezes imaginava meu pai como isso, uma tempestade extremamente poderosa e destrutiva sobre a vida de minha mãe, e eu me colocava a parte disso - o que a vida me mostrou até esse ponto, é que às vezes podemos nos tornar aquilo que não gostamos. ... minha imaginação também criava essas imagens, mas para uma idade inferior, da qual já passei: pensava, quando era criança, que aos 27, talvez 32, eu já estivesse estabelecido. Apesar de todos machucados, sou grato por todo sofrimento e ferimentos de 2020 pra cá: eu acredito que caráter é algo moldável, que se o seu é frágil ou deturpado, você pode trabalhar pra ser um ser humano melhor; se não tivesse havido a pandemia, talvez eu estivesse com ela, e ganhando bem no meu antigo emprego, e teríamos ido pro Chile em 2021. Eu adoraria isso, mas não seria justo: eu não era uma pessoa que merecia isso, e não só por ter sido um homem não-confiável - mesmo no trabalho, apesar de minha entrega, faltava com minha palavra várias vezes, e não entendia o quanto isso colocava em risco minhas relações, e em última instância, vida. Pra mim, era algo à toa, de pouca importância e tals.
É comum eu refletir se quero chegar até certa idade, e são pensamentos que me acompanham desde a adolescência, e que nunca mais foram embora; mesmo nos momentos mais interessantes, continuo dando pouco valor a essa vida de certa forma. Não há garantias de um "após", e é pouco tempo; paradoxalmente, eu adoro muito do que experenciei até aqui; houve um hiato de 2013 até 2019, no qual eu sentia meu coração "transparente" e vazio, tendo havido apenas uma exceção nesse intervalo, e lá foi mais uma vez a vida e me põe uma fã de Beatles pra me mostrar que sim: andar pelo solo de um coração, é uma das melhores coisas que você pode fazer por aqui. Não caminhei com a devida reverência ou respeito (nem ligava pra isso), mas repassando tudo, entendi. E apesar de toda minha dor e vergonha, foi uma versão ruim minha que era atrevida e solta o bastante pra puxar assunto, que permitiu o acesso dela a mim e vice-versa. Essa mesma versão destruiu tudo, não a conhecia nem atualizei a mim, apenas dissimulei, mas sou agradecido pelo Lucas cachorro e dissimulado por ter me proporcionado o advento dela. Em anos anteriores ou posteriores, esse tipo de coisa não teria acontecido, meu padrão de acesso às pessoas era muito diferente. Meu demônio ironicamente, me trouxe um anjo.
...Aos 64, se a vida não me pregar mais uma peça, como foi comigo mais jovem, como eu fui pra minha companheira aos 40, como foi ao McCartney, imagino que as coisas serão calmas, espero que sejam, ou se não o forem, que seja turbulento e cheio de desafios, mas ao lado dela. Talvez eu me torne powerlifter sênior, pianista, professor, ou apenas alguém comum, trabalhando numa lojinha. Pra ser honesto, hoje em dia, ligo pouco pra isso. Mas se aos 64, "você estando mais velha, disser que 'eu posso ficar com você' ", me darei por feliz, e que Deus me faça lembrar desses dias atuais. Felicidade é um treco tão sutil, que você nem nota que tem. Aguardemos. Se tudo se resolver, ainda tenho três décadas pra conferir. Até lá, caso eu pague pra ver, que assim como os Beatles, eu possa ser usado pra dizer algo importante, tornar esse lugar um pouco melhor, mesmo que isso seja um Reino solitário.
Foto de: https://instagram.com/unbird_seigo?igshid=YmMyMTA2M2Y=
Ilustração de: Magdalena Kaczan


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