Apagamento

 

   Muito de minha vida parece se organizar a partir de lembranças, e de seu movimento mental de ir e vir; recordo de projetar as coisas e situações em cinco, dez, vinte anos pra frente, somente quando era criança, algo na faixa dos nove até os doze ou treze anos de idade. Em 2002, aos quatorze, já era alguém memorioso, e após a partida de mamãe, isso se agravou e passei a me lembrar ainda mais das coisas; depois veio a solidão e fome após a prisão de meu pai; anos depois a rua; depois minha namorada artista, e vieram outros "depois", entremeados por períodos de luz e alta esperança e expectativa. 

... quatro anos atrás, nesse mesmo dia, numa noite igualmente linda e gelada, enquanto o gatinho Darwin 'stava em casa na companhia de meus colegas de república, com a luz amarelada e incandescente da cozinha, eu 'stava atrasado pra ver minha então companheira, embora, sendo bem honesto, não a dedicasse de forma geral o tratamento cuidadoso que ela merecia, visto eu ainda ser muito "solto" na época. O tênis que a dei de presente, mesmo eu não considerando a nós como namorados, ficou lindo nos pés dela. Dei mais algo, mas não recordo o quê. A cafeteira que ganhei, está aqui até hoje, embora pouco usada desde que os gatos filhotes derrubaram a jarra dela no chão. Eu 'stava feliz naquele dia. Eu 'stava feliz quatro anos atrás nesse mesmo dia. Em retrospectiva, fui alguém menos memorioso ao lado dela, mas isso não bastava, era necessário eu ser alguém com uma disposição mental diferente para que aquilo tivesse dado certo. Começamos como um encontro casual, coisa na qual era muito versado e baseado na época. Ela era e é certamente, um ser humano resplandescente, que vale a pena ter ao lado, mas mesmo assim, após esse dia dos namorados e vendo-a sentada na praça do shopping, me vendo passando pelos bares lotados, atrasado demais pra conseguir um lugar e sentar ao lado dela, lembranças indo e voltando: se minha consciência viajasse até lá, atrasado ou não, perguntaria "hey, vem cá: ... por quê você quer ficar? (ao meu lado no caso). Por hora, não consigo oferecer em troca de seu amor, que sei que é muito, algo muito mais substancial do que entrelinhas e sangramentos. Acredito que podemos ser incríveis juntos e uma bênção um pro outro, mas tenha ciência de que isso vai demorar. Eu tenho que quebrar primeiro, e usarmos as mãos um do outro. Eu quero tentar, mas isso vai demorar, e pode sair caro. Você entende isso?".

... por quê? Por quê eu não tive essa noção enquanto havia tempo?; você precisou ir embora, e eu repassar tudo em minha cabeça quase todo dia, até conseguir entender. ... por quê?

   Hoje, nesse dia frio, sem mim, construindo ou com algo já erguido com outro alguém, sobre nossos escombros, talvez tenha tido uma refeição divertida e pontual, um presente caro, e um pouco mais de cuidado, e não um atraso com alguém cheio de ferimentos. Uma amiga da época, ao me perguntar sobre você no ano passado, disse que à época, eu 'stava apaixonado, mesmo com todo o caos. Eu não recordava disso. Sempre fui "torto" demais, e míope para os sentimentos do presente. Na nossa época, eu precisava de "óculos espirituais". Não consegui vê-la direito.

   Eu a visito mais do que visito mamãe ou a quarta série; se me desafiassem a caminhar dez mil milhas pra ver você, eu iria. Eu sou bom em caminhar. Na estrada entre lembranças e sonhos, sou especialista; pelo caminho dos dias, vejo flores: meus olhos ficam marejados ao tentar lembrar qual é a sua favorita, e não conseguir recordar...

   Obrigado pela companhia que me fez. Espero que 'steja bem hoje.

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