Maldito Janeiro

 



   Não achei que estaria num tipo de sensação ou tempo tão estranhos; certa vez ouvi que tudo já foi feito, sentido, e para cada época que passo, tenho a sensação de que após talvez os 25/27 anos, o mundo anda tal qual uma espiral: análoga em seu percurso, seja descendo, subindo ou estagnado, porém não é o mesmo lugar que é percorrido; tal trajeto é próximo o bastante para que seja tentador chamar de repetição, mas na verdade é próximo, similar, não uma cópia. Hoje a sensação geral é muito parecida com a que tive na época dos 20 anos: um vazio entre-amores, dias que não passam, traumas auto-infligidos, e desprorpoções, tanto minhas, quanto de ex-amantes. Dias que não chegam. Errei, é verdade, mas por quê que sempre parece que apenas eu pago pelos meus pecados? ... Não fazem nem cinco anos, fui apresentado a uma teoria que diz que somos Tipo A, Tipo B e Tipo C. Acreditei que haveriam mais ensinamentos, mas não: retorno a um ponto de estagnação, reclusão, ausência. Fazia tempo que não me encontrava recluso como pouco antes de sua Ocorrência. Mas tudo bem, o que sou afinal, não? Como se nenhuma das músicas do AiC, vez ou outra, refletissem estados análogos aos meus; me parece que é pouco comum levarem em consideração o que uma música quer dizer ou transmitir, em detrimento ao ritmo, gritaria, dança e bate-cabeça. Sacrificou a mim, como oferenda a uma mandala de fogo, para que obtivesse anuência para uma "vida ótima". "Você me deu dias inesquecíveis e ótimas lembranças"; "agora ao menos você aprendeu, não erre com outra"; você se acha, né? Como se fosse uma professora severa; deve estar procurando um aluno obediente, talvez até tenha achado... desculpe minha cara, todo seu sangue e esforço, que sei que foram empregados, reconheço, no entanto, não lembro de ter pedido um workshop. Teria sido melhor você ter encomendado minha morte, você tem capacidade, ao menos virtualmente pra tal, tem contatos, um dos seus me ameaçou de que poderia "acionar pessoas". Eu estaria sem tormentos ao menos. Às vezes me pego pensando que forçar as coisas até esse ponto poderia ser bom: talvez eu esteja a apenas um e-mail de distância do tão aguardado fim. Vira-mexe, penso nisso, e me é tentador. Acredito que foi a melhor ameaça que recebi em anos. Eu 'stou cansado, Soberana de meu pavor; o quanto minhas fraquezas não podem ter sido usadas pra me ferir? Não é possível que toda sua raiva não esteja paga. 'stou cansado.


   Nesse mesmo mês, num outro ponto da espiral, seu corpo alvo, a mão macia, as palavras com voz suave, quase um conforto. Mãos deslizam aos pés, sua temperatura me agrada. Sonho. Acordei então para o meu pesadelo. A Realidade é o inferno.

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