VIIII/XXVI
Num lugar ermo, assolado pela inconstância d'uma terra pouco fértil, como um oásis, um dos lotes teima em dar frutos. Uma mão aparentemente sábia, passa de geração em geração, a semente da abundância; observa os ritos necessários para tal exceção. ... se em troca de uma Vida, você conseguisse salvar duas? E se em troca de uma, salvasse centenas? Se o segredo da Prosperidade, fosse uma taxa de vida paga para ancestrais?
... essa terra hipotética não é uma lenda lá muito rara: se os mitos são um tipo de expressão, assim como a lingüagem, esse "mitema" (análogo a "fonema", um relacionado aos mitos, com unidade de significado mínima, e esse a lingüagem cotidiana, unidade de som dotado de significado), embora pouco comum, é algo encontrado ao redor do mundo. Uma oferenda humana, em troca de alimento, chuva ou condições favoráveis para a subsistência: vezes para um deus espantalho ou agrário como Pã, para Moloch, e outras formas de vida, inclusive para Iavé - mas creio que não necessariamente algum tipo de deus faça petições dessa categoria - pode ser conseqüência de algo que já não está exatamente no reino da vida, e de volume muito menor se comparado a um deus, mas algo que permanece, como um vírus benévolo de alguma forma, se você tiver generosidade em sua análise. A Vida é um fenômeno muito particular: talvez essas flutuações, de oferendas que se misturam com Prosperidade e alguma forma de Adoração, ilhadas em meio a ermos, seja um subproduto de um entrecruzamento com os veios da própria Vida. Ao entregar uma existência, essa funciona como "adubo", para uma correnteza de Essência que de alguma forma, se movimenta por debaixo de nossa casca de Realidade. Esse se avoluma com a correnteza, e a Prosperidade rompe um pouco da casca.
O zelador da suposta aldeia do começo, passa ao seu sucessor detritos de vida, que são entendidos como o estimulante para a seara - como nós fazíamos no começo do século XX com coisas radioativas, brincando com a morte sem saber, e na verdade o que consome a vida, não era um deus, mas sim nossa ignorância. Mas se de fato fosse possível pegar em mãos um grão, uma semente da essência da própria Vida, e a ingerisse, certamente, já não seria mais algo Humano propriamente após isso. Para além do invólucro, algo além de si mesmo, vivo, mas também num estado que não é exatamente isso. Capaz de vagar e apreender tudo, qualquer colheita que fizesse e tocasse, seria um milagre. Um ceifeiro caminhante de mais de uma Realidade, a nossa, e outra muito mais fundamental.
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