VIII/XXVI



   Passaram-se cerca de três anos, indo pra mais; espero como um náufrago olhando para o mar e seu contraponto infinito que toca os céus; águas calmas, mas algo tensas, pesadas; me alimento dos vestígios que o mar devolve - eu lembro, algo em torno dos 10 anos mais-ou-menos, caso minha memória não 'steja a mesclar fatos, pai e mãe conversavam de madrugada na cozinha pequena, mas aconchegante da casa alugada, uma das melhores dentre as várias pelas quais passei; lembro da frase "o mar devolve", proferida por algum deles. Creio que isso teve algo com a morte/desaparecimento de duas pessoas famosas que se minha memória não falha, ocorreu naqueles anos de final da década de '90/começo 2000, ou por alguma razão que ignoro, meus pais na conversa relacionaram os dois eventos, talvez por envolverem morte e mar ambos. Fernanda Voguel, promissora modelo, havia feito pouco antes uma campanha de prevenção ao suicídio no oceano - tocava uma música do Portishead na propaganda, "Glory Box", hit do primeiro álbum, talvez a mais famosa deles; Fernanda caminhava em direção ao mar, cada vez mais a dentro, até desaparecer nos braços de Possêidon. E tempos depois ela morre no mar...; o outro, que também sumiu, foi Ulysses Guimarães, que bom, eu deveria saber quem foi com mais detalhes, e sua importância, dado meu envolvimento com História e Política, especialmente até algo como 2018/19, mas que desde '98, mais-ou-menos, já me era um campo de interesse; vinte anos após, 2018, comecei a ser cético acerca da Política, e nesse intervalo todo não elaborei um comentário mental sobre Ulysses; pai e mãe não pareciam gostar dele, pois lembro de uma frase como "o mar se recusou a devolvê-lo"; então, aqui temos no mesmo parágrafo, que o mar sempre devolve, mas às vezes não. A última é a verdadeira: "sempre" é um intervalo grande por demais, não é o tipo de palavra que coisas que vivem menos que um século deveriam usar em seu vocábulo. Nos traímos por demais, e "sempre", é só mais um termo, cujo gume afiado nos corta ou perfura quando menos esperamos, pois somos todos inábeis.


   ...Espero como algo que olha para um mar, que as ondas tragam-a novamente. Acerca de meu luto: certo é que haviam problemas estruturais severos, antes do eclipsar: na gênese, encontrou minha morada compartilhada e humilde, e um colchão sem cama, apesar de ter mesa e cadeira, num quarto e saleta, que divisavam o quarto vizinho por meio d'uma estante alta, com minhas fotografias autorais e ilustrações de fábulas de La Fontaine, coladas na parede; deve ter pensado que aquilo era algo "no meio do nada" talvez, até porquê, com efeito, era esse o estado das coisas por muito tempo quando ela se apresentou, e continuou sendo. O oceano da vida a levou, da morte ela fez bote salva-vidad, e ela não enxergou minha orla durante a tempestade, não porquê essa não existisse ou distante 'stava, mas sim porquê não desejava pisar nessa terra novamente. E bom, também cometi minhas cegueiras e absurdos, falhei bastante, me cortei com o "sempre", sem querer. A vida dela seguiu, como as correntezas do Oceano, para águas quentes, provavelmente. As ondas me trazem de vez em vez, algum legado, vestígio: uma música perdida do Rush, Joss Stone ou Alice in Chains, Kid Abelha, etc, quando deixo no aleatório do Spotify vez ou outra; ou uma foto nas recordações do celular, um vídeo no noticiário da orla de Santos à noite, que me transporta diretamente para certos dias, no começo de tudo, antes que tivesse acumulado uma quantidade insuportável de erros, ou na memória, uma risada com meu sobrinho no colo rindo ao seu lado, ao passo que comigo se punha a chorar d'espanto. Aquilo foi muito engraçado. Faz tempo que as coisas estão perdendo a graça. Será que é assim mesmo? É natural?; Bom, parando pra pensar, se o mar a levou, logo em minha vida, já não está mais viva - faz quase meia-década afinal, isso é mais que uma décima parte do total de minha expectativa de vida restante; essa minha postura ante o oceano, esperando o ceifeiro, não é razoável, é auto-destrutiva; d'outra forma, se na remota hipótese dela ter algum tipo de existência que permita meu envolvimento, essa 'stá alhures; Ela já tem outra vida, apartada de mim e daquilo que exerço influência. Já me disseram "vá em frente". Ela foi "em frente", não devo ser mais do que uma terra que gostaria de esquecer. Dei trabalho demais e frutos de menos. As ondas se agitam.

... mas não é tão simples: não funciono assim, eu não acredito em "Vida nova", por mais que me debruce sobre o Conceito - acho que se trata d'uma balela pra disfarçar feridas.

   ...Todas as vidas se cruzam ou correm em paralelo, como fios de um tecido, uma tra(u)ma - é impossível ver a dimensão total das causas e efeitos, não é possível estender a rede e calcular seus fios. Vira-mexe, vejo nos posts aleatórios nos status e stories, que "todas as almas se encontram por um motivo"; pois bem, então qual foi a porra do meu motivo?!?!; Parece qu'eu nunca existi, ou fui insuportável. Me tornei a porra d'uma cicatriz incômoda. Por quê isso? - fico a pensar "puxa, eu era uma boa criança; será que eu era? Dei minhas mancadas, mas era um menino bom - eu tendo a achar que sim, não era uma criança sádica ou má; então, quando foi que me tornei disfuncional? Quando foi que tornei capaz de fazer mal a outra?" - ... eu não entendo. Se Ela fosse minha filha, e bom, eu sempre disse que se fosse ter filhos, queria ter uma menininha, será que eu gostaria de ter a mim como genro? E sem parar pra pensar a sério na questão, a primeira palavra em minha cabeça, é "não". Pareço-me muito "quebrado". Por quê esses ferimentos feitos na filha de outrem? Eu não entendo; como as coisas se traçaram até aqui, como isso ficou ruim desse jeito?

   ...Boa parte do funcionamento de minha mente, após entender que existe uma regra de Causa e Efeito, que não era algo tão claro assim pra mim (pois acreditava num certo "automatismo" da vida), desde que me recorde da semente dessa noção, se baseia em tentar projetar em alguma tela, os Caminhos, como um afeta o outro, fazer algum estudo disso. Entender. Isso machuca. Muito. E gruda nos pensamentos como maresia na alvenaria. Não é algo fácil, mas lembro de como minha mente vomitava uma colcha de lembranças costuradas, boa parte de meu dia, na faixa dos 20, tudo misturado; sem querer dava risada ou ficava abatido, porque alguma memória vinha e "puxava a barra da minha calça, querendo atenção". E eu me rendia, dava risada, ficava desolado ou qualquer outra coisa, conforme a lembrança, e as sensações subiam até a máscara da face; quem me visse num reality show, deveria concluir que sou maluco ou algo assim, mas eram lembranças, muitas lembranças. Mas obviamente, como uma tarefa que exige energia absurda, mesmo inconsciente, uma hora esse mecanismo parou de funcionar, e segui apenas um dia após o outro, até me encontrar em meio ao nada, em meio a praia erma que citei no começo do texto, mas que começou como uma tentativa de navegar rumo uma Vida Diversa, melhor. Talvez algo dentro dEla, mesmo sem querer, tenha reparado que era esse o estado das coisas, e me chamou de "peculiar", no início de tudo - mas resolveu ficar, seja por ter encontrado naquele momento algum alimento para seu afeto recém-machucado e faminto, embora sem desespero ('tah aí uma coisa que acho que jamais iria atribuir ou imaginar nela: desespero. Consigo e a vi ou imaginei nos mais diversos humores, seja triste, brava, indiferente, preocupada, contente, mas não consigo a imaginar em desespero, não parece natural ao seu gênio); mas falava do tecido da vida e Causalidade: há eventos de todas as formas que se misturam e acontecem conosco ou a nosso redor, aparentemente alheios - coisas que estão nos "céus", nas idéias, elevadas como montanhas e coisas das profundezas, remorsos, medos e inconsciências das mais abissais, que de tempos em tempos, como o movimento das placas tectônicas, se chocam e misturam, umas se elevam, outras cáem, e por fim dão como resultado esse tipo de fenômeno. Todos somos alheios ao saber profundo disso, mas há vezes na quais isso nos arrasta dentro de sua correnteza. Eu fui arrastado, e algo meu ficou lá, dentro do redemoinho. Naquele momento inicial, o orto, eu 'stava contente; apesar de todos meus problemas intrínsecos, vinha de uma maré alta, apesar de algumas situações em afeto que pouco antes haviam me aborrecido; Ela me veio numa época muito legal, apesar da mancha de algumas pequenas tristezas recentes, e meu subseqüente descompromisso enrustido - foi ela pois, uma presença de calor, numa tarde ensolarada e bonita, porém gelada de outono; Ela, me parece, e bom, posso 'star a me enganar, vinha de uma maré baixa. Ninguém é culpado ou responsável por isso. Eu não tinha discernimento, era o famoso "Sem-noção" e com efeito, sem piada alguma, era disso que se tratava; Ela tinha por filha, a esperança, parte dela querendo a mim como ponto para anCORAGEM, e eu, por filhas, a inabilidade e displicência, um jeito "solto" de viver. Dessas duas, procedem esses, essa prole, que se manifesta nos grafemas aqui expressos, mesmo que talvez os Criadores, Ela e eu, mortos 'stejamos um pr'outro. Esses se elevam até mente e coração do que lê, como algo alado e severo, que adormece no raciocínio e consciência. Há muita Morte nesse lugar, e vários, vários espólios. Você sente como se passasse rápido, tipo três dias, mas quando se dá conta, foram três anos. Aqui o tempo passa de fórma diferente. E ruínas, porém essas, para minha surpresa, podem ser extremamente mais resistentes do que supunha. Com efeito, há ruínas que duram mais que qualquer vida, é possível que eu afunde nesse mar, mais uma vez braçadas e uma captura para o redemoinho, mas as ruínas alheias a isso, continuem.


   ...Talvez seria bom continuar, agradecer os espólios e presentear com o carinho que foi-me legado, outra pessoa tal como uma continuação de seu afeto, como Franz fez do afeto de Sabina em "A Insustentável Leveza do Ser", tramando outros fios da teia da vida, com sua generosidade se manifestando noutra vida, alheia a sua, mas cujas raízes bebem de sua água; exercer minha sexualidade, que em Verdade, é a Sexualidade do Luto, já tem tempo. Mas me encontro aguardando um ciclo se encerrar, sem ter certeza sobre qual exatamente o é. Talvez seja meu próprio ciclo, e aí pouco tenho o que fazer antes da sensação de dever cumprido. Talvez como Sabina, que não entendeu a princípio o Universo de Franz, usou do espólio de seu afeto em outrem, ou d'outra fórma.

   ...Sabe, gosto da sensação de certo vazio nas doses corretas: estômago vazio, paisagem estéril, vida relativamente vazia; a água fria escorrendo e esvaziando minha percepção, o sono me exilando da Realidade; há certa Justiça na esterilidade, assim entendo; quando me disse que eu "voltaria para o Nada", numa breve discussão, por um momento, pensou que é desse lugar que eu vim? E que você veio, talvez, da outra margem desse mar? Como nos encontramos? Aonde os começos? O Vazio é a minha Justiça?; da terra d'onde você veio, pr'além, distante dessa minha margem, talvez as coisas fossem mais férteis, e você falava outro idioma; outra terra, outra margem. Por aqui, a Vida se apresenta, digo com quase total certeza, com outro aspecto. 


... cá 'stou sentado, observando a orla da Vida e suas flutuações, como uma pedra que chora sozinha. Por aqui tento fazer o que tem que ser feito, com muita luta tentando me abster da maior parte das esperanças que o Oceano joga em minha orla. Todas esperanças submersas.


   Não consigo, e talvez nem queira, deixar de pensar nessa visita além mar, tão distinta que foi-me feita; apesar de minha própria esperança submersa, entendo que pr'além disso tudo, sua Vida prosseguiu, e em seus campos férteis, deve 'star a colher a boa colheita, e se alimentar de bons peixes, ter seu relativo repouso e saciedade da wanderlust que durante minha estada, ficou um tanto relegada, dada minha natureza um pouco estática. A água aquece, pouca pesca, nenhuma floração desse lado - o contraste com a imaginação de sua Vida bonita, e a minha Justiça do Sofrimento.


   As águas estão calmas, nenhum barco à vista, nenhum vento para içar velas, uma Linha de Sombra. Os dias não passam. O céu está calmo e tudo silencioso e solitário, como uma lembraça antiga e apagada, uma brisa quase imperceptível sob o Sol da Fraqueza. Os dias não passam, as águas tensas, porém calmas.

  

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