XVII/XXVI

 



   Existe um lance japonês do qual agora me foge o nome: é sobre um fio vermelho que liga duas pessoas; isso não significa que serão elas um casal, irmãos, amigos, inimigos, nada assim, porém, indica que essas duas pessoas em questão, têm conexão, algo diferente, aparentemente mais profunda, talvez até espiritual, e que a ausência ou presença as afetam mutuamente, mesmo que não saibam, ou que tenham tomado conhecimento uma d'outra ao longo da vida. Assumindo que isso se trate d'algo Real, pode ser que o seu par desse "fio-vermelho-que-esqueci-o-nome", esteja muito longe, e passa-se alheio ao longo da Vida, mas há uma sensação, talvez de "conexão fantasmal", ou algo que o valha. Ao menos é assim que me recordo disso. Tive contato com esse conceito durante um curso de fotografia, entre 2014/15; uma colega de sala fez o TCC dela baseado nesse tema, e tempos depois, ao acaso, acabei assistindo uma animação curta-metragem que abordava o mesmo tema; ... na época na qual tive mais interesse sobre o assunto, me pareceu que apesar desse elo ser com qualquer pessoa, se não 'stou a enganar-me, freqüentemente era sobre irmãos e casais - talvez esses formatos tenham tendência a experienciar isso mais que outros formatos, devido a natureza de compartilhamento e sobrevivência mútua e até interdependência que esses têm em seu âmago maioria das vezes.


... no pensamento de hoje, imagino que esse fio, como o fio que constitui o casulo durante sua transformação, é um invólucro nutritivo desmanchado e aberto, uma ligação entre duas transformações de um mesmo possível Ser, pelo viés da religião grega clássica, logo, talvez esse fio ligue essas duas Vidas às suas possibilidades comum, por mais distantes que 'stejam, esticando até onde essa for necessário; talvez, como um entrelaçamento quântico, esses dois entes se influenciem de forma imediata, mesmo que um deles 'steja nos confins do Universo.


... mas, mesmo com esse fio, é possível se perder - se é como o material de casulo, embora desmanchado e ligando duas pessoas, esse já não consegue envolver e proteger das vicissitudes; penso: talvez ao puxar o fio para perto de si, na direção dos olhos úmidos, ou do peito perfurado, tentar encontrar a outra ponta, e de quebra, tecer um casulo com o fio, uma morada, seguindo-o até o encontro da outra parte; ou, de forma autômata, seguir o fio, a Vida a atravessar-me no percurso.


   Segue e caminha, portas e portais, solo e céus - não basta o fio ser por demasiado longo, as passagens também constituem obstáculo: cada porta aberta, ao se fechar, constitui e apresenta um mundo completamente diferente, e o inverso também é verídico: se fechada, ao abrir, o Mundo apresentado é muito diferente do da vez anterior. É difícil viver, fácil se perder. Por isso é melhor tocar o mínimo possível nas portas.


    Qual minha surpresa! Há um ponto muito especial, abaixo d'uma velha casca d'árvore, no qual muito dos fios se encontram, e quase entrelaçados, quase se encostam; o núcleo, que lembra um coração humano gigante, e eu não sei o que há após, porquê há pontos que uma vez passados, não há mais como voltar. Observei.


   "Se foi, essa parte se foi; já fazem cinco anos...; Siga sua vida, antes que seja tarde"; o guia disse-me, ao ver-me seguindo o fio até esse limiar, uma ponte impossível, estrada para perdição.


   Não acho que em Verdade, 'steja de fato a puxar os fios, ou seguir Destino algum; olho para o que deveria ser um fio, algo que pudesse puxar e sentir que há algo na outra ponta, mas não sinto, não sei se porquê está longe demais ou porquê inexiste. Se o Mundo caísse de sua órbita rumo ao vazio do Cosmos, se desprendendo do Sol, esse fio não serviria nem pra me segurar, nem pra me enforcar, provavelmente seria apenas uma queda seca, sem Esperança ou beleza, e órgãos rompidos no processo; tal qual são os planetas e seus fios ligados ao Sol. No entanto, após dar meia-volta e estar longe, ainda reticente sobre o conselho, sinto que um fio se solta de um pequeno casulo, e desse palavras que não compreendo se libertam com algo entre calma e confusão.

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