XXVI/XXVI



   Creio que a maioria de nós recebe alguma herança de seus familiares, e dessa tenta-se tomar o melhor proveito. Vezes é algo mais "mesquinho", que não trará benefícios pr'outras pessoas diretamente, vezes é um animal para ser cuidado ou uma lavoura, da qual dependerá a nutrição de todo o entorno. O filho de Buda ganhou um cajado, para peregrinar. Ao longo de vinte e cinco textos, e falas sobre montanhas e solidão, o que se tornou "herança"?

  

   Herança: nós, Humanos, não vivemos como gatos ou cachorros, cujos dias têm cada um si seu fim, e o seguinte apenas se enfileira, numa lógica circular; nós andamos em algum tipo de reta ou traço tortuoso, sabendo que algum tipo de ápice ou fossa nos aguardam - é como subir uma montanha, ou descer, o cansaço aumenta gradualmente, respirar vai ficando mais pesado aos poucos, lágrimas vão nutrindo o chão, e o ciclo natural acontece, estação por estação, nos avisando do tempo, embora sigamos nos deteriorando. Deixar algo, porque afinal, não se quer morrer, e deixar, seja uma colheita, Caminho, filho, é uma fórma de triunfar sobre a Morte e o Esquecimento. Temos cerca de sete mil anos de Civilização e uns oito bilhões de pessoas vivas atualmente - certamente não chega a um milhão, aqueles que conseguiram vencer o Tempo. Mas mesmo assim, tenta-se deixar algo, nem que sejam cinzas para pavimentar o chão dos que virão.


   Legado: Como uma montanha bem cuidada, da qual ao chegar no topo, não há escapatória, pensa-se em subir sem poluir, sem degradar o entorno, sinalizar os passos, para aqueles que virão, e assim apontar qual é o Caminho mais seguro. Que hajam flores e árvores no ambiente, uma paisagem bonita, como acalento; plantar no decorrer do Caminho, sulcar a terra, regar, por tijolos na estrada e contenções para que ninguém caia. O melhor alpinista, não o será para sempre, nem o agricultor, nem o pecador, o ladrão, nem o caçador. É preciso cuidar, na medida do que se consegue, para que quando e se, o Passado te confrontar, seja algo que tenha em alta conta, e não só mais um arrependimento; para que caso tenha sido Rei, os dias de coroa tenham sido gloriosos, diligentes, as pessoas, amáveis, e para que os que virem depois, queiram ser iguais ou melhores.

   

   Caminho: Que nada machuque a Terra, que só por causa de teus esforços, os passos das gerações seguintes sejam melhores. A Vida, essa mesma, como obra, e que de seus escombros muitos possam se nutrir e seguir; as Lágrimas da Humanidade, regando a Terra, terminar em Jhator como banquete para as moscas e as coisas necrófagas, a Vida a continuar, sediada sobre os tijolos feitos com nossos feitos e ossos.


   Quando penso sobre aqueles que cedo demais, tiveram uma responsabilidade acima do que 'stavam prontos a corresponder; os que tiveram pessoas para cuidar, alimento para fornecer; todas as potências perdidas, com seus sonhos sendo passados como tochas, para o corredor seguinte; é necessário pensar e cuidar, para que nós mesmos e os que vieram antes, não tenham sido em vão.


   Que ações e pensamentos, enquanto viver, sejam bons nutrientes para essa Vida e para a Humanidade. Que ao partir, cinzas, pele, envólucro, sejam boa refeição para a Terra.

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