XXV/XXVI
Eu não enxergava - ao contrário do que as pessoas pensam, cegueira não é escuridão: já ficou tempo o bastante sem comer? Após alguns dias ou semanas, é como se você não sentisse mais necessidade de alimento, é estranho, mas é tipo isso; estar sem visão é mais-ou-menos assim; pra comparar, é como se sua Vida começasse nesse estágio de não-conhecimento, não-necessidade; aí troque "alimento" por "luz", e então terá por alto idéia do tipo de sensação sobre a qual 'stou a falar. E eu passei MUITA fome, se é que me entende - eu não tinha essa noção, nem sentia. Isso mudou - um milagre ou antes, um parasita, tomou meus olhos inertes pra si, e como efeito colateral, passei a enxergar; aconteceu quando era adolescente - 'stava no jardim, na relva e meus olhos devem ter apontado para a coisa que portava essa praga; começou com uma luz suave, se abrindo como uma rosácea, porém tinha um aspecto que não sei descrever bem, era como algo bidimensional, um desenho, tipo uma flor, e isso d'alguma forma após algum tempo, é como se tivesse aberto à força meus olhos, deu-lhes um "tiro" de luz, e conforme a cicatriz foi secando, fui enxergando mais e mais. Esse mundo é mesmo bem estranho, nem em sonhos conceberia isso.
O que são flores, cores, corpos? Aprendi já tarde, fora da fase infantil. Foi maravilhoso ver meu pai, o céu, a grama, gatos e coelhos, aves, meu prato enquanto comia, as pessoas com as quais falava. Mas uma bênção de parasita vem com uma maldição junto. Passei a ver demais, mais do que dava conta: com a evolução de meu quadro, além de todas as coisas que uma pessoa comum enxerga, passei d'algum jeito a ver o Passado, Presente e Futuro; os rumores se espalharam e pessoas vinham até mim para saber de seu Destino. Por um tempo, achei que falando isso, as pessoas poderiam mudar sua Trajetória, fiquei razoavelmente feliz até, mas me equivoquei: a fatalidade era implacável, tudo acontecia exatamente como previa, sem mudanças. Fiquei sem amigos. Todos vinham apenas para saber como e quando teriam seus epílogos ou tinham inveja ou medo de mim. Cansei de enxergar assim - e no entanto, meu próprio futuro era nublado como nuvens antes da tempestade para mim.
Meus olhos apodreceram com o passar do tempo, como frutas num cesto; é engraçado pensar que algo tão poderoso, capaz de trazer uma cura para a cegueira fosse também, por sua vez, tão perecível. ...Talvez os nutrientes de meus olhos tivessem acabado, aí a praga foi procurar outra vítima - mas uma pessoa que posso chamar de amigo, prendeu um deles escapando de minhas órbitas; analisou com toda diligência pra entender o que 'stava havendo e do que ela se alimentara durante todo esse tempo - dos globos oculares apenas? Meu sangue, alma? Que diabos era isso?
Mas tive uma visão sobre o que haveria com eles, uma das últimas: não sou indígena para ter meu coração enterrado na curva de um rio, mas a escolha de meus parasitas seguiu um sentido relativamente próximo; enfim, de certa fórma, me disseram o que queriam: as esferas brancas deveriam e seriam enterradas num pequeno vale; num dia ensolarado, mas não demasiado quente, uma raposa ou guaxinim olha para a terra; tudo claro de repente, uma rosácea de luz pálida com aparência de flor a tomar conta de tudo que esse bicho vê e então seus olhos serão a morada nova dessas coisas estranhas. Fiz o que foi profetizado, o enterro, o local, e deixei pra lá. Não tentei mudar esse Destino - agora nunca saberei se isso era imutável ou não, mas tudo bem.
Já me perguntaram se não tive pânico ao perceber que voltaria à escuridão - eu não esperava enxergar, entender o que isso significa um dia, e quando me ocorreu vi mais do que devia, mais do que uma pessoa comum. Fui de um extremo ao outro. E um mundo de luz ofuscante não me agrada; prefiro a memória da luz, ainda que viva em trevas profundas, do que um mundo no qual nada possa ser mudado, apesar de toda clareza.
Hoje voltei à Escuridão, sua proteção. Sei o que é claro e breu, as cores, e tudo o mais, e guardo essa lembrança preciosa comigo - ainda hoje, quando sonho, tenho também imagens. Perdi meu pai, Conforto e uma bênção momentânea; adquiri uma Vida peregrina semi-permanente. Mas estranhamente, após esse tumulto todo, não 'stou infeliz.
... Eu não pedi nada disso, não pedi bênção, maldição, dádiva, nada - era uma pessoa comum, com uma Vida mais qualquer-coisa ainda, ninguém ligava pra mim e também fazia pouca questão das coisas, só queria continuar meus dias, como todo e qualquer ser vivo dessa Terra. Mas me aconteceu, e agora eu também sinto que me tornei outra coisa. Tudo foi muito intenso, sem preparo algum, mas também foi maravilhoso. Acho que prefiro isso a nunca ter conhecido a Luz.
Agora, de volta à cegueira, mas com essa lembraça, caminho a esmo até que meus dias também sejam memória para esse mundo. Terei meu corpo enterrado e esquecido, sem parasitar ninguém, sem querer prolongar uma Vida que não deve ser prolongada; enfim 'starei no seio das Trevas indefinidamente, sem nenhum dos sentidos.
Comentários
Postar um comentário