As Inscrições




A princípio as palavras feriram a tábua de argila não muito profundamente. Parecia magia: sob um Sol cáustico do deserto a "caneta" fumegando e aquilo que somente os espíritos e os xamãs guardavam dentro de si, tornou-se externo e inteligível pelos símbolos.
Na placa estava escrito "cá está". Óbvio demais, mas era apenas um teste e minhas mãos tremiam. A argila não inchou, de forma que a menos que se destruísse ou derretesse a placa, sempre seria possível saber que lá estava escrito "cá está".
Me empolguei com o forno, com a forma, com a cunha. Narrei em muitas placas coisas memoráveis: contei sobre Gilgamesh e sua ânsia de viver para sempre, mas que um oceano sulfúrico não permitiu; falei de Babel, Sodoma, Ló. Pesquisei também: por muito tempo procurei a Fênix para fazer um relato detalhado, mas não obtive sucesso. Na verdade, o que queria também era descobrir sua natureza, para que eu fosse imortal também; procurei Ziz, com suas asas que obscurecem o Sol. Jamais a vi.
Passei meus dias sob a égide do Sol e do fogo que iluminando a mim e a tudo com suas luzes quentes, me tornou um homem sábio, sereno e observador. Meu coração batia ao ritmo da areia que levemente é empurrada pela brisa nos finais de tarde calmos do deserto. Me abstive do conhecimento de mulheres, mas era feliz, apesar disso.
Numa noite, sob a luz fraca de minha lâmpada, lia sobre mistérios ancestrais e métodos de adivinhação; na escuridão noturna, uma mulher, a mais bela que jamais imaginei ver surgiu. Emanava uma claridade imensa, como um pequeno Sol e tive um pouco de medo, mas o fascínio me fez chegar mais perto. Suas túnicas cheias de dobras, com alfinetes soberbamente confeccionados reluziam mais que ouro no meio-dia. Tinha cabelos mais compridos que véu, em cachos suaves e tinha asas com penas pretas e brancas de águia.
"-Vamos", disse-me.
"..."
Olhei a minha volta, senti o cheiro da terra, o sabor das vidas que poderia ter vivido e não vivi. Não eram muitas, mas haviam duas ou três especialmente agradáveis. Senti alegria por conta do conhecimento que acumulei e depois de hesitar um pouco ainda, meu coração apaziguou por fim.
 Foi meu último dia na terra.
 As dobras das rugas em meu rosto permaneceram coradas muito tempo, meu corpo inerte encostado na rocha, na areia, em frente a gruta, fazendo o ponteiro de um relógio de luar. 
 Me tornei o que pratiquei: uma letra na tábula da terra, um signo com muitos significados dentro. E lá, mesmo que tenha definhado, uma parte de mim segue sendo uma testemunha, com a inscrição "cá está" sulcada em algum lugar nas minhas mãos petrificadas.


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