Nos cosmos, muitos corpos visíveis como estrelas e galáxias partilham seu peso com partes que podemos deduzir que estão lá, mas que jamais as percebemos com certeza. Matéria escura. Acho que dentro de nós há coisas análogas - um coração para a vida perceptível e uma continuação desse para a vida invisível, um orbitando ao outro, como estrelas duplas, sistemas binários.
Há muitas coisas invisíveis que nos movem, que me movem e sabe-se lá para onde. É difícil entender esses desígnios. Orbita-se ao redor de coisas das quais pouco ou nada se sabe.
A órbita não é um círculo perfeito.
No céu, o tempo não é da forma que pensamos, talvez nem mesmo exista; não existe embaixo ou em cima, e o espírito pode ter uma lógica similar, tendo a destruição como referência no lugar da estabilidade, o aparente aleatório no lugar do óbvio, e por aí vai.
Na semana de 05 de junho desse ano (2014), compartilhei que há pessoas, eventos, coisas, traumas que simplesmente desaparecem; se fossem como estrelas comuns, suas mortes simbólicas ou não, seriam matéria para mais vida, mais estrelas, nebulosas, planetas e afins; as estrelas mais densas, quando morrem, implodem: tornam-se estrelas de nêutrons, minúsculas, extremamente pesadas e pulsam como um relógio - são como aquelas dores que lhe afetam o andar, mas que ainda podem permanecer temporariamente esquecidas, apesar de vez ou outra vibrarem e nos rememorar aquilo que as desencadeou; e há as estrelas REALMENTE grandes. Elas explodem e aquilo que elas foram, seu cadáver, se torna negativo, impossível de ser substituído por vida. O buraco negro suga tudo o que está a volta, é um sumidouro celeste. Uma estrela muito grande além de morrer, faz de sua perda uma degeneração para o que está em volta.
Na mitologia é comum ler que do corpo inerte d'uma deidade é que se faz um universo; e se uma divindade fosse tão importante, mas tanto, que de seu corpo não só não fosse possível criar nada, como este passasse a drenar a vida em redor?
Algumas perdas não são superáveis.
Minha amiga exclamou "nossa! Eu sou um sumidouro!"
Fiquei reticente com a frase naquela noite gelada de junho.
"Qual o tamanho da importância que ela teve na vida de alguém, para que ela ouvisse a teoria e se visse no sumidouro?", pensei comigo. Acho que na mesma noite, disse-lhe por escrito "lembre-se tb dakilo q disse antes: somente as estrelas REALMENTE gdes no universo é q viram buracos negros. Talvez pq elas façam mta mta falta". Imaginei um sorriso do outro lado da tela. Creio que ela tenha ficado contente, espero ao menos; imaginei e imagino a claridade da tela fazendo contraste com a luz apagada e um movimento leve se delineia nos lábios. Mas mesmo essa memória, recente e rica em detalhes, com o frio, a atração afetiva e seus diálogos, agora orbita ao redor de meu peito. No lado direito dele. Talvez ali se esconda o sumidouro e a lembrança de algo que de tão importante já não sei nem mesmo nomear ou lembrar.
PS: a foto para este post foi retirada do site http://www.labfoto.ufba.br/gallery2/main.php?g2_itemId=11512 . Visitem-o, é muito bom - é de um ensaio fotográfico/projeto de 2009!
PS²: ouvir Orgy - "Fiction (Dreams in Digital)", é uma boa pedida de trilha sonora!

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