"Cacos meus - cacos de meu (D)eus,
sem um lixo para se livrar, sem um forno para fundir,
os pés pisam sobre a lembrança e sobre o próprio corpo"
Lembro aqui de uma história da qual me apropriei:
Uma garota que teve sua mãe presa, e isso antes que tivesse uma década de vida, se viu diante da pilha de cartas que sua mãe havia lhe mandado; eram muitas, cheias de comoção, dureza, esperança. Ela lia e relia, lia e relia, ouvindo a voz de sua mãe, imaginando seu corpo e gestos. Acho estranho não ter reconhecido nos olhos dela essa marca - quem a vê creio que não note uma cicatriz funda como essa, no entanto, admitiu-me numa conversa, que gostava de dor (numa franqueza que poucos tem, quando se trata de verdades psíquicas); esse evento, essa lembrança já tão precoce, foi forjada num ambiente próspero como a Groelândia: pai ausente (ok, supercomum), pobreza efetiva e afetiva; uma pobreza daquelas de ocorrer 03 dias seguidos sem ter o que comer ou moedas para pão; falta de endereço fixo, ingenuidade ante a vida. Nesse panorama, criança ainda, cogitava se matar - achei impressionante, pois me pareceu uma vibração de Adrian Finn*, não pela análise técnica da vida mas por alguma coisa não dita em ambos, escondida na escuridão que o mar de tinta preta disfarça dentro das letras desenhadas; mas que minha amiga parece ter sentido algo de uma tonalidade próxima a auto-extinção de Adrian, isso parece-me.
Os cacos dessa garota entraram em minhas solas, e as vezes me sinto assistindo a história dela, sinto que essa história crepita dentro de meu peito.
Ninguém quer se aliar a perdedores e excluídos, não sob essa óptica de apuro e apreço; de modo geral, acho que quem não quer ser um "vencedor", quem está na zona de mediocridade, deseja
Um sujeito "quebrado" nem sempre fica "mais forte" como reza o ditado clichê - dependendo do golpe, ele pode ficar desfigurado, cego, idiota, paralítico. Isso não é o mesmo que ficar mais forte. O jogo é de convencer o perdedor a deixar de ser "perdedor", acreditar nisso, acreditar na conversão da perda em força. Ok que Raskólnikov**, Gregor Samsa***, Andriéi Ráguin¹, Wiston Smith², Tamina³... Todos notáveis perdedores, se tornaram em suas perdas, cravos numa coroa hedionda e bela, feita de vazio, a ornar o crânio d'algum "cristo" deificado pela natureza pensante. Meditando na perda de minha amiga, costuro uma história entre retalhos e cacos que riscam as mãos:
pegando cada carta, imaginando dezenas de centenas delas, imaginando que todo pensamento de sua mãe no presídio, direcionado a ela (e tenho certeza que não foram poucos), se tornasse carta, cartão-postal, bilhete, foto, relatório; imaginando que os elos que se criassem disso fossem linhas, costuraria então um paraquedas com as cartas, cheio de quadrados coloridos em tons de branco, esperança, cinza(s); roxo, vermelho, luto; caminharia com ele sendo arrastado mas preso as costas, até um abismo qualquer, mas cujo fundo não fosse visível. A paisagem em volta, um cânion, desolado e deserto, com vento forte e fuligem, e daí, na beirada ao entardecer, um salto, um salto para o espaço, para "O" Abismo (Lucas Cap. 16), no qual talvez algumas condições pudessem ser assimiladas, assumidas, dissolvidas, resolvidas.
Essa história envereda labirintos em plena queda descendente: na tentativa de "reter" a própria queda; na tentativa de congelamento do momento que precede a abertura/criação de feridas, na tentativa de assistir a si, como sendo outra coisa, um terceiro, uma entidade.
Da reclusão, estado estático, para queda dinâmica, para os cacos das cartas como estado pós-estático. Se cacos são resultados de uma aniquilação, então esse é um estado que se encontra além da paralisia e da prisão; lugar não localizado, pois a aniquilação não cabe no recipiente limitado de algo como uma lixeira. Talvez seja um estado extático, alimentando-se de sua própria miséria e arruinamento.
Referências: *"O Sentido de um Fim", Julian Barnes / **"Crime e Castigo", Dostoiévski / *** "A Metamorfose", Franz Kafka / ¹ "Enfermaria nº 6", Tchekov / ²"1984", George Orwell / ³"O Livro do Riso e do Esquecimento", Milan Kundera

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