"Cacos meus - cacos de meu (D)eus,
sem um lixo para se livrar, sem um forno para fundir,
os pés pisam sobre a lembrança e sobre o próprio corpo"


Certamente esses "cacos", não são apenas meus - a "geração self" parece não ter um olhar para coisas além da própria face no Face, a vida editada, contudo, esses fragmentos que parecem ser tão íntimos, perfuram as solas dos pés, e isso se repete N vezes. Atravessado pelas estacas d'outros, que no entanto concluo sob certo ponto de vista serem meus próprios espinhos disfarçados nalguns casos, constata-se a repetição. Do tempo, do comportamento, da sensação. Na mitologia, Prometeu, o Titã que deu o fogo aos homens, sabia que seu fígado seria devorado, e Erro assistiu o trajeto das almas pelo submundo e sua regência (Platão, A República, última parte) - nem sempre saber de algo vem junto com as condições de modificar esse algo; Prometeu sentiu isso em seu fígado. Uma possível forma rápida de não repetir mais o vício de trilhar o mesmo caminho, seria interromper, "dexistir"; cancelar a existência, algo que no quimerismo mental pode ser desmontado, mas que a menos que se tenha muito controle mental ou drogas, é um status difícil de ser mantido.

Lembro aqui de uma história da qual me apropriei:

Uma garota que teve sua mãe presa, e isso antes que tivesse uma década de vida, se viu diante da pilha de cartas que sua mãe havia lhe mandado; eram muitas, cheias de comoção, dureza, esperança. Ela lia e relia, lia e relia, ouvindo a voz de sua mãe, imaginando seu corpo e gestos. Acho estranho não ter reconhecido nos olhos dela essa marca - quem a vê creio que não note uma cicatriz funda como essa, no entanto, admitiu-me numa conversa, que gostava de dor (numa franqueza que poucos tem, quando se trata de verdades psíquicas); esse evento, essa lembrança já tão precoce, foi forjada num ambiente próspero como a Groelândia: pai ausente (ok, supercomum), pobreza efetiva e afetiva; uma pobreza daquelas de ocorrer 03 dias seguidos sem ter o que comer ou moedas para pão; falta de endereço fixo, ingenuidade ante a vida. Nesse panorama, criança ainda, cogitava se matar - achei impressionante, pois me pareceu uma vibração de Adrian Finn*, não pela análise técnica da vida mas por alguma coisa não dita em ambos, escondida na escuridão que o mar de tinta preta disfarça dentro das letras desenhadas; mas que minha amiga parece ter sentido algo de uma tonalidade próxima a auto-extinção de Adrian, isso parece-me.

Os cacos dessa garota entraram em minhas solas, e as vezes me sinto assistindo a história dela, sinto que essa história crepita dentro de meu peito.

Ninguém quer se aliar a perdedores e excluídos, não sob essa óptica de apuro e apreço; de modo geral, acho que quem não quer ser um "vencedor", quem está na zona de mediocridade, deseja eventualmente que os perdedores desse mundo, aqueles que não tem casa, que dormem em cortiços úmidos em colchões mais úmidos ainda, que fracassam por fracassar e se contentam pois sabem em algum lugar de suas sensibilidades comprometidas que, partindo-se de vetores econômicos, não, não há espaço para todos, alcancem uma ascensão social/econômica longínqua de suas realidades.  Quem se alia aos "proles" enrustidos em máscaras a ostentarem sorrisos?

Um sujeito "quebrado" nem sempre fica "mais forte" como reza o ditado clichê - dependendo do golpe, ele pode ficar desfigurado, cego, idiota, paralítico. Isso não é o mesmo que ficar mais forte. O jogo é de convencer o perdedor a deixar de ser "perdedor", acreditar nisso, acreditar na conversão da perda em força. Ok que Raskólnikov**, Gregor Samsa***, Andriéi Ráguin¹, Wiston Smith², Tamina³... Todos notáveis perdedores, se tornaram em suas perdas, cravos numa coroa hedionda e bela, feita de vazio, a ornar o crânio d'algum "cristo" deificado pela natureza pensante. Meditando na perda de minha amiga, costuro uma história entre retalhos e cacos que riscam as mãos:

pegando cada carta, imaginando dezenas de centenas delas, imaginando que todo pensamento de sua mãe no presídio, direcionado a ela (e tenho certeza que não foram poucos), se tornasse carta, cartão-postal, bilhete, foto, relatório; imaginando que os elos que se criassem disso fossem linhas, costuraria então um paraquedas com as cartas, cheio de quadrados coloridos em tons de branco, esperança, cinza(s); roxo, vermelho, luto; caminharia com ele sendo arrastado mas preso as costas, até um abismo qualquer, mas cujo fundo não fosse visível. A paisagem em volta, um cânion, desolado e deserto, com vento forte e fuligem, e daí, na beirada ao entardecer, um salto, um salto para o espaço, para "O" Abismo (Lucas Cap. 16), no qual talvez algumas condições pudessem ser assimiladas, assumidas, dissolvidas, resolvidas.

Essa história envereda labirintos em plena queda descendente: na tentativa de "reter" a própria queda; na tentativa de congelamento do momento que precede a abertura/criação de feridas, na tentativa de assistir a si, como sendo outra coisa, um terceiro, uma entidade.

Da reclusão, estado estático, para queda dinâmica, para os cacos das cartas como estado pós-estático. Se cacos são resultados de uma aniquilação, então esse é um estado que se encontra além da paralisia e da prisão; lugar não localizado, pois a aniquilação não cabe no recipiente limitado de algo como uma lixeira. Talvez seja um estado extático, alimentando-se de sua própria miséria e arruinamento.


Referências: *"O Sentido de um Fim", Julian Barnes / **"Crime e Castigo", Dostoiévski / *** "A Metamorfose", Franz Kafka / ¹ "Enfermaria nº 6", Tchekov / ²"1984", George Orwell / ³"O Livro do Riso e do Esquecimento", Milan Kundera


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