Significados para Morte(s)
"(...) e o dia da morte é melhor do que o dia do nascimento" [Eclesiastes Cap. VII]
A vida não é um fenômeno mito* comum {mito =
}; não fora da Terra, ao menos 'té onde foi-se analisado, descoberto. Dentre os planetas e corpos que adornam o Sol, há os dedicados a tempestades longevas, ao frio extremo, ao calor extremo; a gases que sob tanta pressão passam a se comportar como metal; há esferas de silêncio, de caos, de gelo. Aqui, na Terra, em contrapartida, a vida "contamina" tudo: deixe uma pedra parada nalgum canto, e a vida dentro d'algum tempo conseguirá se infiltrar nela; no fundo dos oceanos, sob o peso do ar e de toda a água que precede o núcleo, há vidas das mais estranhas (ao menos para nós): criaturas que parecem ser feitas apenas de dentes, carcaça e estômago, similares a pesadelos, que predam de forma grotesca; não a toa o inconsciente é comparado ao mar as vezes, pois guarda nos recônditos mais profundos monstruosidades assustadoras, ignoradas quase sempre, mas que só querem permanecer vivas e de certa forma, também nos ignoram.A Terra também é o único planeta que "pranteia" água.
A vida nesse mundo permeia a tudo - não precisa ser religioso para tomar consciência disso. Penso, odiar é um ato inútil: quase nada sai dessa Terra, um dos átomos que um dia foi parte integrante minha, poderá certamente fazer parte d'outro organismo em união com uma parte de meu rival; mesmo a pessoa mais bela, um dia não será mais que um aglomerado de pó e cinzas. No final das contas, parece que tanto faz.
A vida é relativizável; compara-se ela a um livro, um barco no mar, uma novela televisiva; a algum objeto móvel ou imóvel; considera-se imutável pelo destino e mutável pelo livre-arbítrio; tenta-se decifrá-la e achar sentido para ela no Alcorão, Torah, Bíblia, Triptaka; tenta-se descobrir quando nossa angústia terá fim, lendo sinais "escondidos" nas trilhas das mãos, nas cartas, no movimento dos céus, nos búzios, runas; mesmo assim, nada mais natural e inevitável que a morte - mexicanos, espanhóis, antigos vikings, sabem disso e com disfarce ou sem disfarce, a apreciam, seja na imagem cadavéricas dos festivais de dia dos mortos, seja nos chifres dos touros tingidos de vermelho, na bravura e pretensão em desaparecer da existência no campo de batalha.
Já disse isso, mas "o sofrimento é indiferente para as estrelas - nos cosmos elas transitam ignorando nossos desígnios"; a própria Terra: quando observo a curvatura da abóbada celeste, não deixo de comparar nosso planeta a um aquário, sendo nós os peixes dourados que pereceram nele, seja por nossa própria fome, seja porque a morte, que vence a todos, recolherá experiências e as transformarão em esquecimento. O aquário afinal, também pode ser indiferente a seus "peixes".
Todo conhecimento, trabalho e esforço convertidos numa sala vazia, na qual não há suspeitas dos sonhos que já estiveram envolvidos nela, como na obra "O Sol me ensinou que a história não é tão importante", de Daniel Senise.
Claro que todos os momentos são importantes; o advento é imprescindível para se elaborar a memória, seja a própria ou d'outros, mas o encerramento... - usando a metáfora do livro, a vda pode começar péssima, mas um bom término o tornará interessante; um namoro pode começar de forma trivial, mas a forma como ele se encerra é crucial para determinar o impacto que será gerado na psique de cada um; num certo desenho que acompanho, foi dito que o que define o caráter de um lutador é a forma de sua morte - e na morte, um personagem que foi um traidor apático durante toda a vida, tem uma fagulha de redenção ao falecer sem trair seus companheiros.
Como a humanidade acabará? Penso nisso sem morbidez - só estatística: quase totalidade das espécies que passaram por esse aquário, desapareceram, outras deixaram sequer vestígios - somos uma exceção, de uma forma ou outra; somos diferentes, embora diferente nem sempre seja sinônimo de ser melhor (outra referência advinda dos desenhos). Ser humano é basicamente não ser natural, ser anti-natural, pensar gerações á frente e modificar drasticamente o meio, coisa sem par na natureza. É aberrante. Não existe "ser natural", se comportar de forma natural, não para a gente, e um dos paradoxos é esse, se equilibrar na linha fina, que se dilui na hora da morte, e na forma como os elos abstratos se encadeiam e se depositam em outras pessoas, outras coisas.
As maiores estrelas do universo, costumam ter uma morte espetacular, numa explosão gigantesca e brilhante, que ilumina tudo muito além de seu redor e derredor - há paralelos humanos, fundadores de religiões que o digam.
Comentários
Postar um comentário