A Palavra Mais Humana
por quê?/why?/pourquoi?
[remorso, "desejo de voltar atrás", saudade, pretérito, futuro]
elas picam os olhos, oscilam como cordas, dançam e hipnotizam -
"por quê?": dessa forma e não dessa, por que aqui e não outro lugar;
o por quê do remorso, da consciência, da vida.
Certa vez li que o tempo, na verdade, não "corre para frente": assim
como os olhos não veem as cores verdadeiras, não enxergam sequer
todas as cores que (existem), da mesma forma, a vida não é linear;
em algum lugar todos os seres humanos escolheram que tudo parecesse do jeito que é, mas na realidade, tudo já aconteceu, nada aconteceu e
tudo está acontecendo; de todas as intricadas chances do "agora",
escolhemos justamente essa, que achamos estar vivendo.
O espaço de um ano, 365 dias é pouco; já experimentei, com estranheza,
dias que não pareciam pertencer a esse 2015, dias fora do calendário, ajustados a outro lugar,
outra sensação, e que se fosse colocar no "ano" que mais lhe parecesse adequado, não seria esse ano.
[adeus, até logo e todas as despedidas, santo, entidade, virtual]
...As escolhas, mesmo aquelas que não foram feitas, são brutais;
as despedidas existem e não sei o porquê - se fosse uma entidade gigantesca, pondo a Terra em
sob minha percepção, eu e todos os humanos, pareceríamos colados um no outro; as distâncias
pareceriam ridículas de pequenas, tão pequenas; elas, as despedidas ficariam desprovidas de sentido, dada a proximidade com meus entes, mas espíritos podem estar muito afastados apesar da proximidade física. Não tenho mais certeza se despedidas existem.
Pensar, repensar.
animais pensam, humanos pensam, tudo pensa, talvez, mas procuro a palavra Mais Humana, uma palavra tão humana que me cause arrependimento, mesmo não sendo exclusiva de nossa espécie; adornamos nossos olhos com as cinzas de nossas lágrimas, e uma chuva
de facas de maus pensamentos estilhaçam o coração; pensar precede o "por quê?"; é bem possível
que por pensar ter certezas, estas se desmanchem e pensando bem, pensando na tristeza, no sexo, na alegria, na brevidade, pode ser que tudo se resuma a isso, a um suposto pensamento; (D)eus diz:
"Eu sou alfa e o ômega,
o princípio e o fim,
todas as coisas pertencem a Mim;
faço Eu como quero,
Minha vontade é assim
seja em todo lugar
em tudo está Meu olhar
sou o Deus...
(Jhva)"
ora ora, a cristandade perdida se ergue a partir do pensamento: um espelho quebrado que retrocedeu ao simulacro
de seu estado anterior. Nada disso passa de um breve pensamento, de um sonho. Estou aqui pensando sobre minha vida
que já passou; sobre a máscara do anjo Lúcifer, retratada num desenho sombrio;
penso em um possível sentido mais básico, que é sobreviver para que seja possível haver mais "cópias" de nós.
Um dia, a Terra para de girar;
um dia não terei que explicar que não é autopiedade; fotos serão
tragadas; penso e lembro, torno a pensar: no sexo no escuro, no sexo triste, a dissolução de algumas certezas, altas esperanças, confusão, inércia, letargia, dor. Despedidas que não
foram feitas; orgulho e queda, humilhação, músicas.
Talvez Caos seja a palavra mais humana, talvez seja crença, talvez seja desespero. O coração aperta de novo: ainda não disse "adeus", e na verdade, nem sei se quero. Quando anoitece, profano a tumba de algumas lembranças, muitas delas, nem tão boas assim, outras, verdadeiros santuários. Desejar e esquecer; proclamar a mensagem de um Cristo revogado: de fato, grande deve ter sido
sua dor; se fosse hoje, no entanto, creio que seria ainda maior, e no lugar da Longinus, teria recebido um desprezível tiro de fuzil.
desejo, esqueço, despeço, despedaço. Por quê? (D)existo sem saber


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