Um dia como qualquer outro. Uma espera, uma angústia; demônios querem seu lugar semi-negado; Deus esquecido, amores suicidados. Lembranças, memórias, deserto morno; vento carregando restos de areia de reminiscências de dias mal-acabados.
Sofrer da forma que bem entender - isso também é liberdade, afinal. Escolher o dissociativo e dar uma piscadela para o destino, como quem não quer nada, apenas uma piscadela de volta.
O vazio da fome reverbera nos intestinos; é impressionante sentir o quanto dentro dessa casca esguicha e pulsa; é quase como um transe, é quase como uma decepção.
A fome espera, a vida espera, tudo espera, acontece, está acontecendo, já aconteceu e a sanidade garoa em gotas finas nessa Terra estranha. Tudo erigido sobre (ou sob) a espera: conheci uma mulher que esperava várias coisas: uma casa, uma mudança, um milagre; um homem que passava boa parte de seu tempo esperando os resultados de seus litígios. Esperei também; esperei (D)eus, Ele veio, ficou um tempo e se foi. Esperei tanta coisa que creio ter chego ao ponto de esperar a própria espera, ela vir de encontro a mim, com sua aparência tremeluzente e borrada, sussurrar para mim seus segredos.
Um homem Diante da Lei esperou; ele apreciou o próprio destino troçar dele, folheando defronte sua bagagem portas como se fossem folhas, sob a capa de um guarda e de uma pergunta não feita.
Em busca da perda, esperando para achar o desaparecimento.
Espera.
*Ilustração de Ralph Horsley
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