"Gostaria de ter Sido um Sonho, no entanto, Não Pude Sê-lo"



Ele foi embora, como um gigante trôpego com os pés enlameados, tendo nas costas o peso das regiões mais inóspitas. A imagem dele não era fúnebre, mas, dia após dia rindo, o seria dentro de minha cabeça - a mesma imagem, diversas e diversas vezes, como um  disco riscado, retrocedendo e avançando o tempo inteiro. Era quase fantasmagórico e perturbador.

Inicialmente a despedida dele fora, ao menos para meus sentidos, branda, com aquele odor de laranja e sol de fim de tarde; mas numa mente obcecada por códigos e símbolos, uma despedida nunca é somente uma despedida: antes sempre há o oculto, algum sinal, a cabala...; Disse que cada momento, suas costas se tornaram rasgadas como a terra arada e nos ombros, planícies com neblina; tenho certeza que significados que, não existem e nunca existiram, criei, virando e revivendo uma única cena - é como aquela síndrome do espelho: você se olha tanto e tão fixo, que não parece mais com você: aí vem a perturbação e o medo, sensações desagradáveis; de modo análogo, comecei a ficar perturbado - a cena fixou-se como plano, imagem de fundo das minhas retinas.

Logo comecei a sentir medo, e parei de conjurar os mais poderosos pantáculos de proteção que o racionalismo pode forjar.

Acho que nunca enlouquecerei. Salvo quando remeter-me a isso.

(~ 2011)


PS: imagem de postagem retirada desse blog: https://baijucs7.wordpress.com/

Comentários

Postagens mais visitadas