"Um golpe numa parede"
Escapismo
Está aí uma palavra que gosto, mas que não atribuía rosto a ela: contêm 9 letras e duas ideias implícitas: movimento (para fugir ou escapar) e irrealidade, fantasia, espaço. Vazio talvez também esteja ali incluso. Escapismo seria a arte de se movimentar num lugar que não tem correspondência precisa no plano "real". Segundo a Wikipedia e alguns dicionários, é diferente: seria a fuga dos problemas que a realidade traz, mas não considero que seja bem isso nalguns casos - diversas vezes é justamente uma fixação em problemas da realidade que vem a ter seus desdobramentos no escapismo ou causá-lo; a Wikipedia também menciona o afastamento do desagradável - e mais uma vez, digo a direção oposta: algumas vezes é para um recanto do desagradável, elaborado exatamente para destrinchá-lo e vivê-lo, para onde o escapista recorre.
Talvez com alguma margem de engano, posso dizer que é uma dimensão de anti-sonho, na medida em que possa ser uma relação do indivíduo com um inconsciente "mediado", regido pelo "consciente próximo" (se tal existe), e com um "escurecimento" dos motivos que de fato são inconscientes: os fatos inconscientes profundos, enraigados, são dissimulados por uma mitologia semi-pronta, não tão exclusiva, pessoal, do sujeito com suas ferramentas e seus elementos de constituição, mas em contrapartida, bem desenvolvida no sentido de "movimentação" desse cenário já feito. Ok, de forma mais simples: um sonho é como uma casa sendo construída, com seus tijolos: você os carrega, há a elaboração, a construção; o escapismo seria algo mais parecido com dirigir um carro - ele já está pronto ou quase, provavelmente você tomo-o emprestado e apenas personalizou algumas de suas partes, mas o diferencial está que você dirige, viaja nele ao invés de repousar; ainda que seja uma tarefa individual, acho que pode ser uma emigração para outro recinto numa tentativa de por em detrimento alguma faceta do suposto real ou do onírico. Ou, como apontei no começo, uma corrida rumo o real, mas percorrida na psique. Uma idealização do onírico, se tal é efetivamente possível.
Escapar ou não escapar é o que o homem faz o tempo inteiro quase: a humanidade trabalha para escapar das doenças, da morte e da própria Terra; individualmente para escapar de traumas, das dificuldades entre outras coisas. Para escapar, virar uma verdadeira máquina de escape, munida de argumentos, sistemas defensivos, somáticos, etc, etc.
Certa vez me disseram que os drogados são escapistas. O mesmo para piscianos (pra quem acredita em horóscopo), certos artistas, gamers, nerds, viciados de diversos tipos, colecionadores...; Quanto a mim, me pergunto quão escapista sou. É fato que várias vezes tentei fugir de situações, e ainda hoje, quase com 30 anos me vejo tendo o mesmo comportamento às vezes. Por quê? . Não consigo compreender muito bem. Não ainda.
Lembro de uma vez, lá na 5ª série; era 1999, o ano em que se daria o início uma nova era, segundo Nostradamus, e tinha aula de artes. Eu nunca fazia os trabalhos de artes; a princípio me concentrei em todas as disciplinas que favoreciam um pensar em primeiro plano, em detrimento das disciplinas que privilegiavam o fazer, e essa escolha foi inconsciente de verdade. No primeiro trabalho que não fiz, a professora fez eu e mais três alunos que não o haviam feito ficarem de pé para a sala inteira e explicar o porque de não o terem realizado. De birra (ou era litost?), daquele dia até meu penúltimo ano no ginásio, mal fazia os trabalhos de artes; somente no último ano me tornei um aluno decente na disciplina e com a professora, que acompanhou minha turma durante o ginásio todo. Ironicamente, adorava e adoro artes, cogitei fazer graduação em artes alguns anos atrás, e hoje aguardo resultado de uma prova de técnico em processos fotográficos... Vai entender...; Mas bem, sobre o escape: numa das muitas vezes em que não havia feito o trabalho, não estava querendo encarar a humilhação pública, que hoje entendo, nada mais era que a consequência do meu não-fazer; na época não me era claro isso. Naquela manhã, parei na frente do portão, olhei a inspetora e hesitei em entrar; fui vendo meus colegas de sala entrarem e fui me distanciando, me escondi atrás de um carro, mas não havia como voltar para casa, visto que morava longe da escola. Tampouco era "malandro", fiquei querendo fugir, mas apenas pensava em minha fuga, permanecendo estático enquanto pensava em como iria fugir..., Uma adulta, amiga me pegou, e me pôs para dentro momentos após o fechamento dos portões (!), me encaminhando pra minha professora coordenadora. Acabei humilhado do mesmo jeito (rs).
Hoje, passados 15 anos, ainda hesito em entrar na "escola" sem estar com a tarefa feita, coisa que ainda acontece. Na minha mente ela está feita muitas vezes, várias vezes, tem detalhes, e é bem elaborada. Normalmente a terefa acaba ficando lá pelos meandros psíquicos mesmo.
...O esforço mental é como um golpe numa parede: ela não irá rachar, ela não esmorece com meu soco, mas eu sei que o golpe ecoa dentro da parede, através dela; essa vibração faz tremular a parede, ainda que de forma imperceptível. ...
E eu sei lá o que isso pode implicar, em termos "reais". Mas deve ser útil.
Hoje vejo, revejo, prevejo como escapei de uma série de coisas - escapar é basicamente tentar sobreviver, e acho que isso vale mentalmente também. Tive um amor "torturado", faz já um tempo; ouvi falar que são relações afetivas que "coroam" um ciclo de mudanças, elas são catárticas; nesse ínterim, entre o soco dela em minha parede e o meu, sei lá onde, vejo que tentamos sobreviver, garantir sobrevida mental e afetiva. Hoje olhando para fotos esquecidas, acho que o que mais tinhamos em comum, era o desejo de escapar, e de fazer com que com um golpe, alguns muros ruíssem. Foi uma das coisas mais nobres que fiz, apesar do fracasso e de meu "sentido de fantasma". Ou talvez o empecilho tenha sido ele, o escapismo, e continua a ser.
Na semana passada, escapei do trabalho; faz quase um ano, tento escapar para um amor, mas da parte dela falta reciprocidade, uma "vaga" - ainda sim, faço do sorriso dela um refúgio, e aguardo afeto para a catarse, e tento escapar do fato de que tanto ela quanto eu temos grandes (talvez enormes), reservas afetivas; escapei de casa, de tarefas, de uma meia-dúzia de possíveis amores, algumas, mulheres incríveis e fortes; logo, escapo da tentiva de escapar.
Pode ser que a parede seja de aguilhões e adamantium; ou que não esteja socando parede alguma. Vai saber.
PS: Ilustração do início: Terese Nielsen; foto do fim do texto: poster da série "The Leftlovers"


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