Frágil (?)
Faz um tempo tento traçar um olhar perspectivo: parar, olhar o retrovisor, ou noutra
analogia, sair do carro e olhar para a parte "da estrada", que percorri.
Na cabeça, tento recuperar os detalhes, que já de início, sei que não serão fiéis: deslizes, paisagens boas, aparentes bifurcações, paradas pra abastecer. Acho que posso comparar eventos e pessoas com as cidadelas ou pousadas que fazem parte do percurso: há cidades nas quais queria ter ficado mais tempo, outras pensei em visitar, mas não visitei. Por um momento me parece que boa parte dos quilômetros que andei foram como água, que tentei reter nas mãos, mas caíram no chão aquecido e evaporaram. Que coisa doida: tento definir pra mim mesmo, o que é um "dia"...; parece algo simples, mas assusto-me ao pensar no tema. Acho que me dei conta de que os dias são coisa ferozes. E voltando a analogia do carro, gastei bastante combustível até aqui.
Agora paro e olho, e tento remontar até onde posso. Não consigo por isso num único texto, mas eu me lembro do "nada" - não com a mesma vivacidade de quando tinha 10 ou 14 anos, mas me lembro disso, me lembro do escuro, um escuro mais antigo que qualquer outra lembrança; por um átimo, acho que senti ou vi (os sentidos se misturam aqui), meus pais na concepção; e me lembro do pavor que tinha da escuridão numa certa época. Hoje esse medo não faz sentido.
De onde vim? Essa é uma daquelas perguntas de 1 milhão de dólares. Durante um bom tempo ignorei os efeitos dessa e outras perguntas nos cérebros de outrem, mas
hoje várias vezes me pego simulando como o pensamento de outras pessoas deve funcionar, e como é a lógica delas, ainda sim, mesmo tentando "emular" outras mentes, essa pergunta clichê é um dos vários buracos negros que venho encarando, um dos vários aterradores. Quanto medo as pessoas sentem? Será que todos lembram (ou acham que lembram), do breu e da foda dos pais?
Há alguns que me parecem simplesmente não pensar. Em nada. Outros cobrem as perguntas/ausências com a companhia de outras pessoas, com religião, família, sexo, jogos, animais de estimação... De minha parte, acho que paralizei.Tipo estátua de sal. Não consigo "engolir" esse mundo, que talvez seja apenas "meu mundo". Estou confuso. Não consigo "me engolir" muitas vezes. Me parece que pessoas são, entre outras coisas, "máquinas que dóem". Isso é estranho.
Uma amiga recém-feita, postou no FB que "A Vida é Frágil". Ela me parece meio "goth", ou algo próximo; me pareceu levemente melancólica, ou melhor, os olhos dela, meio cansados, mas até onde isso é uma tentativa de colocá-la numa "caixa de estereótipos"? Ou uma projeção do que quero ver e não dela mesma? Se for isso, não ultrapassei meu egoísmo. Posso estar enganado sobre isso, mas ela me parece certa sobre a vida, e me parece meio abatida também, apesar do riso fácil, mas desconheço o que a motivou, ou o que quis dizer; talvez eu esteja apenas divagando, usando-a como "fetiche" intelectual para tanto - não a "emulo" de qualquer forma, e talvez, de novo, esteja sendo apenas um imbecil metido; no entanto, a postagem dela me lembrou do tempo em que eu ouvia mais som goth, no caso, goth metal, e lembrei do Tristania, banda que adorei até seu quarto disco. O 3º deles, "World of Glass", tenta falar justamente disso que ela postou: aspectos da vida e a fragilidade deles - crença ("My Loss of Faith, Replace by Doubt"), derrota, desejo... Acho que esse "World of Glass", é o retrovisor pelo qual observo antes da paralisia. Ela é uma cidade importante pegando meus fatos recentes.
Por que isso me pertuba?
Talvez devesse guardar apenas pra mim essas impressões; é bem cedo se for parar pra pensar em outras formas de visualizar toda essa informação, posso estar me precipitando ou ofendendo pessoas, que não deveria expor.
Agora que estou parado, não consigo mais lembrar o que é ter

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