Durante algum tempo, me declarei ateu, e isso foi após anos de cristianismo - não sei se é de se levar em consideração o fato da religião vir de "berço", mas bom, foi assim até os 16/17 anos. É a lei do pêndulo, não? - é raro parar "no meio" de uma situação; a tendência é você ir para o extremo oposto, assim que o evento se desdobra, para só após algum tempo, ir para o meio ou retornar para a origem, que no meu caso, é certa reaproximação do cristianismo - veio a partir de um evento extremamente doloroso, mas é assim que o pêndulo saiu um pouco do centro - isso é observado em vários momentos e lugares: quando deixei de andar muito a pé, passei realmente a percorrer qualquer um quilômetro, de ônibus por exemplo; já vi pessoas que ao se separarem de amigos, tratam-os como se fossem nada, passam a maldizer, e por aí vai. Isso me soa confuso, mas no meu caso com "Deus", também foi assim: da adoração à rejeição ou considerações como a de que "Deus é 100% malévolo, porém apenas 80% eficaz", daí ainda termos coisas boas no mundo. Passei anos a fio com esse tipo de convicção.

   Eu lembro de considerar que havia Deus, da forma como ensinam na Igreja, por conta de uma de minhas lembranças mais antigas: tenho três memórias, que são as mais anteriores que possuo, e contava sobre elas com alguma freqüência quando pequeno:

   Eu estava num vale, muito vasto, e cacete! Como haviam pessoas nele! Era enorme, a perder de vista e quase não havia espaço sem pessoas, mas o detalhe é que todas, ao menos todas que me lembro, eram aladas; minha visão não era tridimensional, era mais como se estivesse olhando ou estando dentro de um quadro, tudo meio chapado e não percebia direito cores também - tudo era em algo como um amarelo envelhecido e preto/cinza; tive uma surpresa interessante nesse ano de 2021, ao perceber como essa cena é similar as ilustrações da Bíblia feitas por Gustave Dore, nas quais esbarrei sem querer durante uma pesquisa de imagens - será que minha mãe ou pai, me deixou na frente de algum documentário sobre esse pintor quando eu era recém-nascido, e minhas retinas gravaram isso? Esse tipo de coisa, me põe em xeque quando o assunto é Espiritualidade. Muitas dúvidas, medos. Às vezes, nos momentos de maiores angústias, não deixo de achar que aqui é tudo em vão, e perco a fome; ou Deus é Gustave Dore, e portanto, não pode fazer muito por nós, afinal, está morto. Vai saber.

   Mas voltando: acho que as pessoas acreditam tanto em Deus, que ele acabou por ser criado, entende?; Ao menos, me parece isso... Não acho que haja um Criador todo poderoso dos Cosmos inteiro, e tão antigo que nem faz sentido aplicar noções de tempo: o Universo é muito grande, tão grande, que nossa mente não consegue conceber, há até um site que mostra as distâncias do sistema solar. É engraçado... . É muito espaço vazio, não é algo que parece combinar com Deus, parece ressoar mais como um tipo de Nirvana ou Inexistência. Deus deve existir, mas ele deve influir apenas sobre a Terra, surgiu junto ou logo após os homens, e ele é uma conseqüência da Fé humana ou dessa necessidade, como "a Idéia do Mal", da obra Berserk. E também acho que não necessariamente Ele deve ter algo a ver com espíritos ou vida pós-morte; a Consciência talvez exista fora do corpo brevemente ou por algum tempo, numa forma similar a conceito, ou seja, algo abstrato, mental - não se encontra nesse mesmo mundo, mas usa uma intersecção, que é proporcionada quando a engrenagem da linguagem tateia as noções na forma de alcançar expressão inteligível - mas assim como um garfo ao pegar o açúcar, deixa um tanto cair, senão o todo, acho que todo e qualquer conceito não pode ser apreendido por inteiro. Ainda mais se falamos de espírito.

    Então o conceito, a idéia de Deus, é o balão, e nossa fé é o ar quente que o impulsiona. Será que é isso? É meu palpite. O pêndulo anda vibrando para esse lado, mas não posso assumir isso, não de vez.

   Dentre as várias coisas péssimas ou ausentes que fiz na minha porra de vida, para zero surpresa, também não fui um bom cristão: claro, era novo, e nesse ponto, eu era um ser humano muito melhor, simplesmente porque eu era uma pessoa mais inocente; essa ingenuidade, me trouxe vários problemas, além de certo distanciamento do mundo e da vida prática - parece que ao menos até esses 14/15 anos, ainda era uma criança de chácara. Tinha meus pecados, é claro; coisas que odeio por sinal, mas parece que sempre tenho um delay enorme pra mudar de "fase": a chácara, que era algo dos 04 anos, me ocupou, como se eu ainda tivesse aquela idade, até os 10, 11; sendo assim, era uma criança de 05 anos, emocionalmente, porém numa casca de 10; me sentia ainda algo ligado com aquilo; os 11 de idade emocional, devo ter deixado após a D. romper comigo em 2013, com 25 de idade "real"; aí parei nos 15, e lá fiquei até a A. romper comigo, aos 32. Eu me odeio. ... E como cristão, também tinha delays: o atraso para os cultos, uma tentativa presunçosa de ser racional; mas ao mesmo tempo, quando a angústia batia, eu dobrava os joelhos - levemente hipócrita. É, acho que não sou um cara lá muito legal. Se pudesse, queria paralisar o tempo, e me mover fora dele: cristão o bastante pra que eu fosse pio e compreensivo, responsável com o coração dos outros, mas não tanto, a ponto de que minha principal base fosse a fé.

   A. me pagou um ritual de presente de aniversário nesse ano, afirmando que eu deveria olhar mais para esse lado "espiritual". Pra quê ser mais espiritual, se não posso mais mostrar ou compartilhar isso com ela? Para meu próprio benefício?... Eu dou risada: o que é menos cristão que fazer algo em benefício próprio? Realmente, a vida é engraçada, e eu só 'stou sofrendo tanto, porque me levo a sério demais - de outra forma, olhando com certa distância, isso é engraçado de verdade. Humor sutil, mas é bem feito pra mim, que passou anos e anos dizendo que gostava de ironia. Agora, o gosto amargo dessa, está entalado em minha garganta, e parece que não passará. É quase insuportável.

   Equilibrar esse pêndulo e ser amigo do tempo: deveria estar me ocupando disso - é meio mancada, a essa altura do campeonato, confiar minhas expectativas numa esperança de melhora: faço isso a anos, acho que desde os 20 de idade ao menos, e não fui parar em nenhum lugar feliz por muito tempo, com essa postura. Muitos de minha geração, de '80 até '93, levaram a sério demais a música "Deixa a Vida me Levar", e hoje, todos nós na casa dos 30 pra 40, estamos infelizes. As mulheres menos, afinal, são criaturas adaptáveis, elas se superam naturalmente, mas muitos de nós vamos mal. A vida não nos levou a lugares tão bons assim. Quanto a mim, na verdade, o que mais me pego fazendo é pondo as mãos na cabeça e me perguntando "o que que eu fiz?!". ... Um bom cristão tem que ter ânimo e parando pra pensar, nunca tive muito disso dentro de mim.

   Gostaria de estar abraçado com meu anjo, saber o que ela pensa disso. 

    

Comentários

Postagens mais visitadas